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Nos últimos anos, venho notando que os projetos de pesquisa apresentados aos cursos de mestrado e doutorado têm temas cada vez mais específicos.  Não digo bem recortados ou definidos, o que naturalmente constitui um pré-requisito de qualquer projeto bem elaborado.  Digo excessivamente fechados, a tal ponto de sufocarem qualquer espécie de pensamento mais ambicioso.  Na filosofia, por exemplo, seria algo como “a função da conjunção ‘dass’ na expressão lingüística do Wittgenstein de ‘Investigações Lógicas’”.  Certamente, tal tendência é precisamente o tipo de coisa que provoca orgasmos múltiplos em avaliadores da Capes.  Comigo, o efeito é o contrário: uma preocupante brochura intelectual que só um forte viagra teórico poderia curar.  Este ano, propositalmente, resolvi oferecer um dos cursos mais densos que poderia elaborar para o mestrado.  Resultado: três alunos inscritos.  A bem da verdade, as dimensões do PPGC da UERJ são bastante modestas, mas este é realmente um número atípico.  É fato também que a maioria dos estudantes não escolhe cursos pelo quesito ‘quem ensina’ ou pelo conteúdo em si, mas pelo tema geral e pelo dia da semana mais favorável.   “Novas Tecnologias e Formas de Vinculação Social”, por exemplo, sempre faz muito sucesso.  E por alguma razão, terças e quartas são os dias mais populares (eu bem que tentei pegar a terça, mas alguém foi mais rápido que eu).  Toda essa tendência à especialização seria sadável se pelo menos existissem algumas almas corajosas com sede de questões mais amplas.  Afinal, todos nós precisamos conhecer bem pelo menos um assunto.  Mas esses seres intrépidos estão em extinção, e encontrar um deles é como achar um dodô perdido em uma selva africana (para quem não sabe, um estranho pássaro extinto desde o século XVII).  Desse modo, já não se encontram propostas “globais” para contrabalançar as “locais”.  Mas qual é o maior perigo disso?  É que escolhendo, de cara, um tema altamente limitado, o sujeito passa por cima de todos os fundamentos necessários para desenvolver um pensamento relevante sobre qualquer coisa.  É como o caso clássico do cara que cita Deleuze a torto e a direito, mas desconhece quase qualquer noção histórica do pensamento filosófico que precedeu Deleuze.  Sim, é verdade que o caminho da amplitude é muito mais exigente, muito mais duro, muito mais sacrificado.  Mas nessa história, parece que alguns aspirantes à docência se esquecem de um dado elementar: a academia não é um passeio no jardim das delícias de Epicuro.  Como diz o austero Rüdiger, só os fortes sobrevivem.  Não existem mais bons concursos para doutor com menos de dez candidatos.  Nossos mestrados e doutorados, que na atual fase supostamente liberal da Capes, continuam se multiplicando, têm despejado todos os anos centenas de pós-graduandos no limitadíssimo mercado acadêmico brasileiro.  Pois é, somente os fortes sobrevivem.  É preciso reconhecer que parte da culpa por esse fechamento do saber se deve a um modelo de produção intelectual inteiramente formalista e baseado em “resultados” (seja lá o que quer que “resultado” signifique neste contexto).  Outra parte, entretanto, se deve simplesmente ao medo.  Medo da teoria, medo de vôos mais amplos, medo da complexidade do saber em seu estado “pós-moderno”.  Depois que escreveu “O Nome da Rosa”, Umberto Eco afirmou que as primeiras 100 páginas da novela serviam como um mecanismo de seleção natural.  Em outras palavras, ele estava interessado em falar apenas àqueles leitores que conseguissem superar o obstáculo desse começo mais difícil e árduo.  Elitismo?  Não creio.  Trata-se apenas de escolher para quem você quer se dirigir.  Todo pensamento e toda arte autêntica tem sempre um público específico.  Como dizia Borges, “os bons leitores são cisnes ainda mais raros que os bons escritores”.  Quem tem a pretensão de falar para todo mundo nunca irá dizer nada de realmente significativo.  Portanto, meus caros, escolham bem quem vocês irão ler e com que temas irão trabalhar.  E saibam que, na universidade, vocês serão sempre lidos e escutados por apenas meia dúzia de pessoas.  Se quiser ser popular, vá fazer aulas de creative writing com o Paulo Coelho. Enquanto isso, sigo aqui lendo Kittler, penando (e me deliciando) com cada linha de texto.  Apesar de todas as decepções que a vida acadêmica pode proporcionar, ainda imagino o paraíso na forma de uma biblioteca…

Avatar (com Ivana Bentes)

Uma boa idéia e uma pitada de inspiração podem fazer muita coisa.  Graças a algumas mensagens trocadas no Twitter, a editora Sulina (através do amigo Luis Gomes) nos trouxe a proposta de escrever um pequeno livro sobre o filme de James Cameron.  Numa semana atípica, o texto acabou saindo muito mais rápido do que eu esperava.  A coleção ainda nem tem nome, mas o volume deve sair em março com meu ensaio e o da Ivana.  Não quero estragar o suspense – e estou curiosíssimo para ler o texto de Ivana -, mas achei que não seria grave revelar um pequeno trecho do pós-escrito que preparei para o ensaio.  Depois da exaustão provocada pela façanha de escrever a coisa em menos de uma semana, é preciso reencontrar a energia para pensar o artigo da Compós.  Férias continuam sendo apenas uma doce ilusão…

Pós-Escrito: “They Killed Wonder”, ou como Hollywood pode nos devolver a Sensação do Espanto

(…) Não apenas a diversão tornou-se um tema muito sério, mas as distinções tradicionais entre universos de referência como “alta cultura” e “cultura de massa” encontram dificuldade crescente para sustentar-se.  Um dos elementos que mais me interessa no cinema hollywoodiano, precisamente sua dimensão tecnológica e material, constitui aquilo que boa parte dos modelos tradicionais de crítica constantemente desprezou.  Se estou bastante interessado em interpretar filmes (inclusive buscando neles sentidos ideológicos ou culturais mais amplos), certamente não quero limitar meus exercícios de análise a uma dimensão unicamente hermenêutica.  E se os filmes de gênero e as produções das vanguardas artísticas têm algo em comum, é sua atenção exatamente ao aspecto material da experiência fílmica, às sensações e ao corpo do espectador.  Nesse sentido, sinto-me extremamente próximo das propostas do intrigante trabalho de Joan Hawkins, Cutting Edge: Art-Horror and the Horrific Avant-Garde (2000).  Quando os surrealistas se interessavam por filmes “ruins” e gêneros menores, como o horror e a pornografia, encontravam em tal universo fílmico uma atenção ao corpo e à materialidade da imagem cinematográfica útil a seus próprios experimentos vanguardistas.

E retornando ao cinema hollywoodiano, posso afirmar que a razão de meu interesse reside na centralidade com que desenvolve a idéia de efeito especial.  Pois algo que freqüentemente se esquece é que o cinema é a mais tecnológica das artes.  O efeito especial põe continuamente em relevo essa dimensão tecnológica.  Mais que isso, ele pode estabelecer, entre o espectador e as imagens, uma experiência que é da ordem do maravilhamento.  E numa época em que já não parecem existir mistérios no mundo, a sensação da maravilha não é algo desprezível.  Os homens barrocos inventaram suas câmeras de maravilhas (Wunderkammern) para ensinar que não precisamos separar radicalmente o extraordinário da natureza e do artifício humano.  Nesses gabinetes ou caixas de madeira, colocavam, por exemplo, aparatos óticos lado a lado com tudo pudessem encontrar de singular e exótico no mundo natural.  O cinema tem, portanto, uma relação congênita com o espanto.  Em certo sentido, esse também é um aspecto pouco percebido da história de Avatar.  Quando os navegadores começaram a desbravar o Novo Mundo, ainda existia espaço para a imaginação.  Em mapas antigos e muitas vezes precários, encontrava-se comumente a expressão “here there be monsters” (“aqui existem montros”) sobre certos pontos.  A monstruosidade era uma das formas de assinalar o espanto, o maravilhoso.  Se a ciência parece ter desencantado o mundo, é preciso criar novos mundos.  Em Pandora, Jake reencontra a possibilidade de maravilhar-se.  Como acontece com as crianças, naquele mundo tudo é estranho, tudo é novo, e mesmo, ocasionalmente, monstruoso.

É certo que o esquematismo narrativo de Avatar merece crítica.  Contudo, muita gente se equivoca pensando que esse é o componente central do filme.  Talvez o que torne o mundo de Pandora tão atraente é precisamente a série de brechas, incoerências e superficialidades narrativas que o filme nos apresenta.  Há muito que pode ser repensado e recriado.  Cameron já planeja, naturalmente, as seqüências da história.  Entretanto, o que me interessa agora é ver como o público continuará reagindo a esse impacto inicial. Haverá futuro para a língua Na’vi?  Pessoas seguirão produzindo fan fiction sobre Pandora?  O caso de outros grandes êxitos hollywoodianos é emblemático.  Com Guerra nas Estrelas, George Lucas conseguiu engendrar um mundo coerente e até certo ponto independente de seus filmes.  Sua mitologia impregnou nossa cultura de forma tão impactante que mesmo os indivíduos totalmente avessos à ficção científica não escapam à influência de Darth Vader e Luke Skywalker.  Pode ser que Avatar consiga repetir a façanha (e para os devotos de Lucas, uma suposição como essa constitui a mais alta heresia!) (…)

Terminada a redação do projeto para o novo módulo da pesquisa.  O projeto se intitula “Cartografias da Cibercultura: a Teoria da Mídia Alemã” e constitui uma extensão da pesquisa anterior.  O objetivo, em poucas palavras, é mapear o pensamento acadêmico alemão (bem pouco conhecido no Brasil) sobre cibercultura.  Um autor de destaque no projeto é precisamente Vilém Flusser, que os alemães gostam de considerar como integrante da tradição alemã de reflexão sobre a mídia – apesar de ser tchecho e ter vivido mais de 30 anos no Brasil.  Abaixo, segue um pequeno trecho do projeto

“Se até o momento presente, os dados coletados pela pesquisa pareciam apontar o acerto das proposições iniciais de definir (operatoriamente) a cibercultura como uma vasta formação cultural e de aproximar suas concepções “teóricas” das representações “populares”, estas conjecturas ainda se apresentavam, porém, como insuficientes para uma caracterização mais detalhada do fenômeno cibercultural.  De fato, a imprecisão e a nebulosidade do termo “cibercultura” permaneciam constituindo problemas exigindo maior exploração.  Parecia faltar à bibliografia investigada uma dimensão “arqueológica” e uma consideração maior das dinâmicas propriamente “materiais” dos fenômenos tecnológicos[1].  Esses dois aspectos, bem como outras dimensões pouco exploradas na bibliografias em inglês e francês constituem, contudo, o foco das atenções das pesquisas realizadas nos últimos anos no contexto alemão – infelizmente ainda pouco conhecida no cenário acadêmico brasileiro.  É verdade que hoje já é possível encontrar boas traduções em inglês ou francês de autores e obras representativos da Medientheorie.  Contudo, não se pode negar que largas parcelas dessa literatura – e muitos de seus representantes – são indisponíveis em qualquer outra língua que o alemão.

Mesmo partes expressivas da obra de Vilém Flusser, filósofo tcheco-brasileiro, que tem recebido muito mais atenção em terras européias que em território brasileiro, ainda aguardam tradução para o português ou inglês. Se não fosse pelo trabalho pioneiro de pesquisadores como Gustavo Bernardo Krause, nos estudos literários, e Norval Baitelo e Michael Hanke, na comunicação, Flusser, que residiu no Brasil por mais de 30 anos, correria o risco de estar quase que inteiramente esquecido por aqui[2].  Na Alemanha, Flusser é considerado um pensador da tradição alemã, talvez, hoje, ainda o grande nome da teoria da mídia alemã.  Como se verá, praticamente não existe manual ou recensão sobre teorias da comunicação na Alemanha que não inclua o nome de Flusser. Na apresentação a Medienkultur, Stefan Bollman chega a afirmar que, “no contexto alemão, Flusser foi freqüentemente encarado como profeta de uma época (Prophet einer Epoche) na qual as tecnologias digitais iriam proporcionar à humanidade um futuro brilhante” (1999: p. 7, grifos nossos). Em outras palavras, uma espécie de McLuhan escrevendo em alemão.  Outros teóricos de mídia importantes, como Friedrich Kittler, Dieter Mensch ou Sybille Krämer são virtualmente desconhecidos no Brasil. Acrescente-se a tudo isso o típico “isolacionismo” do pensamento acadêmico alemão, corretamente destacado por Theo Röhle[3], que dificulta o acesso às idéias e o intercâmbio entre pesquisadores alemães e de outras nacionalidades.

Meu primeiro contato com a Medientheorie alemã aconteceu em princípios da década de 90, no âmbito do doutorado em Literatura Comparada da UERJ, através de encontros e conversas com Hans Ulrich Gumbrecht, que apresentava com desembaraço as idéias de Kittler, Luhmann e do programa de pesquisa das “materialidades da comunicação”. Na verdade, Gumbrecht, radicado nos Estados Unidos desde 1989, é provavelmente o principal articulador da escola.  Na Universidade de Stanford, ao lado de um grupo de pensadores europeus e norte-americanos – Jeffrey Schnapp, Niklas Luhman, Friedrich Kittler e David Wellbery, entre outros -, Gumbrecht vem delineando o esboço de um programa de pesquisas que já havia adquirido forma inicial em uma coletânea de artigos publicada na Alemanha em 1988: Materialität der Kommunikation[4].  A trajetória intelectual de Gumbrecht pode ser tomada paradigmaticamente como núcleo para uma genealogia da teoria das materialidades da comunicação, ainda que diversos outros pensadores tenham colaborado, de forma isolada ou coletivamente, para a constituição desse campo de estudos”


[1] Naturalmente, existiam valiosas exceções, entre as quais se poderia citar, por exemplo, a paradigmática obra de Lev Manovich, The Language of New Media (2000), ou o trabalho de Lisa Gitelman, Always Already New: Media, History and the Data of Culture (2006).

[2] Boa parte da obra de Flusser foi escrita – ou traduzida por ele próprio – em alemão, mas também em outras línguas, como português, inglês e francês. Essa obra começou a ser resgatada do esquecimento no Brasil a partir de meados da década de noventa (ele morreu em 1991, em um acidente de carro), primeiramente no campo dos estudos literários. Coincidentemente, também foi no horizonte da teoria literária que se desenvolveu a chamada “escola das materialidades da comunicação”.  Minha primeira recensão sobre as teses das “materialidades da comunicação” data de 2001. Cf. Felinto (2001).

[3] Cf. http://netzmedium.de/2009/04/10/german-media-theory-too-shy-to-admit-its-own-greatness/

[4] Para uma competente recensão sobre a obra, ver Hanke (2005). Disponível em <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/R0680-1.pdf>

Eis, finalmente, o programa do curso que irei oferecer no PPGC da UERJ no próximo ano.  Busca conjugar uma espécie de arqueologia da cibercultura com uma introdução à nova teoria da mídia alemã, além de passear pelo que estou chamando de “pensadores paleocibernéticos”, como Flusser e McLuhan.  O curso é aberto a ouvintes e estudantes de mestrado e doutorado de outros programas de pós-graduação.  Informações na secretaria do PPGC: 22340757.

O recente e acalorado debate sobre as Diretrizes do MEC para os cursos de jornalismo é apenas reflexo de um fenômeno muito mais amplo e de longa sobrevida.  Refiro-me ao conflito histórico, por vezes velado, por vezes inteiramente explícito, entre duas concepções ideológicas diversas a respeito da Comunicação em suas dimensões de ensino e pesquisa.  Como costuma ocorrer, as posições extremas desse conflito revelam-se freqüentemente improdutivas e falseadoras da verdade dos fatos.   Particularmente digna de análise é a posição radical que muitos (digo “muitos”, não todos) jornalistas ou pesquisadores do jornalismo costumam adotar na defesa de sua prática profissional ou objeto de pesquisa.  Sou graduado em jornalismo e, naturalmente, não tenho nada contra o jornalismo, seja como atividade profissional, seja como tema de investigações científicas.  Ao contrario, inclusive, de algumas pessoas com quem já conversei sobre a questão, considero de extrema importância e relevância científica boa parte das pesquisas que aqui têm sido realizadas na área do jornalismo.  Também sempre defendi uma posição de pluralismo e abertura no desenho das fronteiras da Comunicação como disciplina e área de conhecimento.  Contudo, não cessa de me surpreender a veemência com que certos indivíduos procuram  caracterizar o campo do jornalismo como o horizonte de pesquisa mais autêntico e legítimo (senão único) da comunicação.  Essa veemência e a forma como ela se expressa parecem indicar uma espécie de síndrome da perseguição.  Como se houvesse um complô secreto e difuso contra o jornalismo, torna-se necessário então reagir com máxima força, de modo a criar uma fortaleza inexpugnável capaz de protegê-lo, inclusive, das intempéries do tempo e das transformações sociais.  Acho impressionante a facilidade com que a “objetividade” jornalística e o “distanciamento” científico caem por terra diante do poder de certos mitos característicos do mundo do jornalismo.   A pureza com que se tem buscado desenhar o horizonte do jornalismo, como prática e objeto de pesquisa, padece de uma ingenuidade que chega a beirar o delírio.  Como intelectual universitário, já não tenho nenhuma grande ilusão quanto à minha atividade e ao meu campo de pesquisa.   Sei muito bem que não vamos salvar o mundo, e tenho, inclusive, sérias dúvidas sobre a sobrevivência futura do nosso atual modelo de universidade e produção de conhecimento.  Contudo, considero essa percepção algo saudável: uma espécie de lucidez necessária não apenas ao trabalho científico, mas à sobrevivência em um mundo de tão rápidas e intensas transformações quanto o nosso.  Ainda creio que podemos fazer uma diferença – efetivamente, em um nível microscópico – mas não alimento nenhuma ilusão “missionária” do tipo que por muitos anos grassou (e que me parece ainda muito viva) no âmbito do jornalismo.  Em muitos campos do conhecimento, a desaparição de práticas, objetos de pesquisa, teorias ou métodos tem sido encarada com uma atitude que nada tem de reativo – e uso este termo com toda negatividade que lhe devota o vocabulário nietzscheano.  O exemplo da Literatura Comparada, nesse sentido, é dos mais esclarecedores.  Face ao diagnóstico da decadência da critica literária (ou mesmo da noção clássica de “literatura”), muitos intelectuais acadêmicos saíram em campo para buscar novos objetos, questões ou modos de abordagem.  Em vez de se lamentar pela desaparição de seu objeto, inventaram outros horizontes, objetos e perspectivas – alguns, inclusive, se aproximando daquilo que nós, de modo algo artificial, denominamos por aqui de “comunicação”.  Lembro-me bem de meu professor de hebraico, que costumava dizer: “eu não acredito em D’s, eu sei que Ele existe”.  Era sua maneira de manifestar a intensidade inquestionável de sua fé.  Assim fazendo, naturalmente, confundia crença com saber, fé com ciência.  Mas não sejamos apressados em condená-lo. A bem da verdade, nunca existiram fronteiras precisas entre esses domínios.  Assim como não existe algo como um “puro” jornalismo, não existe algo como a “pura” ciência, totalmente incontaminada pelo imaginário ou pela crença.  Como diria Bruno Latour, “jamais fomos modernos”.  O que é perigoso na frase é seu teor dogmático.  Enquanto a atitude científica prima pela abertura à permanente revisão de seus conceitos e teses, a atitude dogmática almeja paralisar o tempo e essencializar realidades históricas.  São precisamente inflexões desse tipo de atitude que se pode identificar tanto no documento das diretrizes do MEC quanto no discurso de alguns dos defensores mais ferrenhos do jornalismo como campo de conhecimento e atividade humana.  Vejamos, por exemplo, uma passagem do documento que já foi destacada (e criticada) na lista da Compós:

“Com a finalidade de tornar compatíveis o requisito da titulação do corpo docente e a necessidade de aderência às disciplinas ministradas, a Comissão de Especialistas recomenda a criação de um Programa Nacional de Aperfeiçoamento Docente destinado às novas gerações de professores de Jornalismo. Muitos foram titulados pelos cursos de pós-graduação da área teórica de Comunicação ou de disciplinas conexas, sem ter exercido plenamente a profissão e não raro sem o domínio cognitivo da sua especificidade. Concomitantemente, deve ser fomentada, nas Escolas de Comunicação, a abertura de cursos de mestrado e doutorado com áreas de concentração em Jornalismo, para atender à demanda crescente de novos professores para os cursos de graduação e de projetos de pesquisa científica na área”

Em essência, o que se propõe aqui é a abertura de uma “reserva de mercado” acadêmico para o jornalismo.  Como se já não bastasse o fato de vários programas de pós-graduação possuírem linhas de pesquisa e pesquisadores dedicados a temas de jornalismo, agora é necessário fomentar mestrados e doutorados especificamente dedicados a tal área de concentração.  Mas então por que não fomentar a criação de cursos com área de concentração em Cibercultura, de modo a melhor preparar os futuros pesquisadores desse campo?  (claro que o exemplo é, na verdade, um contra-exemplo).  No fundo dessa proposição, esconde-se também uma contradição lógica.  Por “domínio cognitivo”, o que se quer destacar efetivamente é a necessidade da prática.  Ou seja, o retorno do velho argumento de que jornalismo se aprende fazendo.  Contudo, sugere-se que a melhor maneira de realizar isso é dotando os professores de uma formação teórica em jornalismo nos cursos de mestrado e doutorado!  Na verdade, a questão da pesquisa e da teoria aqui é secundária.  O que importa é que os ingressantes nos mestrados e doutorados em jornalismo tenham exercido a profissão de jornalistas.  Toda a lógica desses discursos aponta para uma mentalidade tipicamente corporativista, ou, melhor ainda, característica das Guildas medievais.  Alem disso, tal lógica é perpassada por uma concepção de jornalismo que – sinto muito! – já não pode sustentar-se no cenário contemporâneo.  As próprias noções tipicamente modernas que fundamentavam a concepção clássica do jornalismo deixaram de fazer sentido.  Por mais que aqui nas terras tropicais tenhamos esse ardoroso desejo de recortar campos, de fechar domínios, de constituir reservas e de dar nomes precisos às coisas, não há como retornar aos tempos da pureza – se é que algum dia eles realmente existiram.  Num sentido irônico e paródico (naturalmente), eu posso parafrasear as palavras de meu professor e dizer: “eu não creio que o jornalismo em sua configuração moderna acabou, eu sei que ele acabou!”.  O fim da exigência do diploma de jornalismo, ainda que motivado por interesses mesquinhos de ordem política ou econômica, constitui apenas um dos muitos indícios das transformações que estão em curso.  Sempre existirão, é claro, os saudosistas dos bons tempos de antanho, cujo exemplo emblemático encontro na obra recente de Andrew Keen, “The Cult of the Amateur”.  Eu os lerei com atenção e refletirei sobre seus queixumes, possivelmente compartilhando da saudade pela perda de determinadas referências amadas e familiares.  Mas com um sentido de realidade forte o bastante para perceber que idéias como a da cultura participativa e da reconfiguração dos suportes midiáticos configuram marcas fundamentais do nosso presente.  É possível – e provável – que daqui a 20 anos estejamos falando de outras idéias e coisas.  “O tempo é uma criança que joga o jogo de pedras…”, disse Heráclito com excelente poesia.  Quem não se senta para jogar com ele corre o risco de sofrer de uma forma patológica de saudosismo.  Por enquanto, a impressão que tenho é que a comunicação e o jornalismo continuarão a ter suas fronteiras esgarçadas e suas práticas e teorias transformadas em uma velocidade vertiginosa.  Se nas faculdades de comunicação, uma outra expressão do pensamento reducionista configurou-se na surrada oposição entre teoria e prática, hoje, mais que nunca, a boa teoria (que é sempre também uma prática, como lembrava Deleuze) se faz necessária ao cidadão da tecnocultura contemporânea.   Acaba de me vir à memória uma palestra a que assisti, faz muitos anos, na UERJ: um conhecido representante dos estudos de jornalismo desfiava, numa retórica viciada, argumentos primários e equivocados para questionar o papel das disciplinas teóricas no curso de comunicação.  Em seu discurso, a prática (jornalística) se manifestava como a heroína que viria salvar o mundo da inanidade teórica.  Ao final da palestra, perguntei: “mas toda a sua estrutura argumentativa não foi elaborada com base em referenciais teóricos? Se o despirmos de toda essa armadura conceitual, só resta o silêncio.  Talvez essa seja a resposta mais adequada da prática à teoria”.  A tensão entre teoria e prática também constituiu, em muitos sentidos, uma força fundante dessa outra tensão entre a comunicação e o jornalismo.  Trata-se, evidentemente, de uma falsa oposição, pois nem a prática nem a teoria existem em forma pura.  No fim das contas, a questão não é confrontar práticas e teorias, mas saber dizer a diferença entre as boas e más práticas e teorias.

Mesa da Abciber

Cibercultura a 8 mãos: morte, permanência, renascimento e métodos. Para uma epistemologia da cultura das redes[1]

Adriana Amaral[2] (coordenadora da mesa)

Maria Clara Aquino[3]

Erick Felinto[4]

Sandra Portela Montardo[5]

Universidade Tuiutí do Paraná – UTP-PR/Facinter-PR

Universidade Luterana do Brasil/Universidade Federal do Rio Grande do Sul  – ULBRA/UFRGS

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

Centro Universitário Feevale – FEEVALE

Resumo

Assunto-Re: Cibercultura a 8 mãos: morte, permanência, renascimento e métodos. Para uma epistemologia da cultura das redes é uma mesa temática que reúne quatro trabalhos de pesquisadores do campo da Comunicação que concentram suas pesquisas em torno da Cibercultura e seu desenvolvimento teórico e metodológico. Problematizar teorias e métodos, questionar conceitos e elaborar um panorama do contexto atual da pesquisa em Cibercultura  é a proposta dessa mesa temática, que através dos quatro trabalhos que a compõem, busca tensionar as discussões em torno dos avanços e das deficiências e carências das investigações atuais do campo.

Palavras-chave

Cibercultura; Metodologia; Teoria; Netnografia; Análise de Redes Sociais


[1] Proposta de mesa temática apresentada ao eixo temático “Entretenimento, práticas socioculturais e subjetividade”, do III Simpósio Nacional da ABCiber.

 

[2] Doutora em Comunicação Social pela PUCRS com Estágio de Doutorado no Boston College, EUA. Professora e pesquisadora do Programa de Mestrado e Doutorado em Comunicação e Linguagens da UTP-PR e do curso de Comunicação Social da Facinter-PR. Sócia-fundadora e Membro do CCD da ABCiber. E-mail: adriamaral@yahoo.com

[3] Jornalista pela Universidade Católica de Pelotas – UCPEL (2005), Mestre (2008) e Doutoranda em Comunicação e Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS; Professora do Curso de Comunicação Social/Jornalismo da Universidade Luterana do Brasil – ULBRA. E-mail: mcjobst@uol.com.br

[4] Professor do PPGCOM UERJ e pesquisador do CNPq. Autor dos livros “A Religião das Máquinas: Ensaios sobre o Imaginário da CIbercultura”e “Passeando no Labirinto: Textos sobre as Tecnologias e Materialidades da Comunicação”. Foi presidente da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação No Biênio 2007-2009 e atualmente é membro dos Conselhos Científicos da Socine e da Abciber.

[5] Doutora em Comunicação Social pela PUCRS (2004). Professora e pesquisadora do Centro Universitário Feevale, no Mestrado em Inclusão Social e Acessibilidade e no Mestrado em Processos e Manifestações Culturais. Atua no projeto Comunicação Corporativa em tempos de Conteúdo Gerado pelo Consumidor: desafios e tendências (CNPq) e é líder do Projeto Inclusão Social via Socialização On-line de Pessoas com Necessidades Especiais (PNE)(CNPq).

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OBS: é uma coincidência curiosa (e saborosa) que o título da mesa apresente o termo “cultura das redes”, próximo do termo alemão “netzkultur” e talvez mais adequado em alguns aspectos que “cibercultura”.  Veja-se a definição da Wikipedia alemã para o termo: “Netzkultur oder auch Internetkultur ist die Kultur des Internets. Für viele Menschen ist das Internet ein fester Bestandteil ihres Alltags geworden. Es verändert, wie jedes neue Medium, die Gesellschaft. Die soziologischen Auswirkungen derKommunikation im Internet werden auch mit dem populären Schlagwort der “Cybergesellschaft” zusammengefasst”.  Traduzindo a frase mais importante: “Para muitas pessoas, a internet se tornou uma componente integral de seu cotidiano”.  Ou seja, como sempre repetia o amigo André Lemos, a cibercultura é a cultura contemporânea.  Mas ainda temos mais a dizer sobre isso…

Tentando alinhavar idéias para a apresentação na Abciber:

  1. ainda é possível falar em Cibercultura?  O que o termo significa?
  2. A teoria da mídia alemã como resposta aos desafios da “late cyberculture”
  3. Os três eixos da teoria da mídia alemã: abordagens não-hermenêuticas, perspectiva histórico-(an)arqueológica, foco na dimensão estética dos fenômenos tecnológicos
  4. Kittler e Zielinski: descontruindo os discursos triunfalistas (se houver tempo, Gumbrecht)
  5. Vilém Flusser: um precursor
  6. Novos tempos, novas epistemologias

 

No fundo, a proposição é bastante modesta, e consiste tão somente na sistematização de um campo pouco conhecido por nós.  O domínio da francofonia na universidade brasileira ainda é inquestionável.  No campo da Cibercultura surgem brechas para a cultura acadêmica anglófila, mas o pensamento alemão (que, aliás, muito deve aos pós-estruturalistas franceses) não tem quase nenhum espaço no contexto brasileiro.  Mapear autores, teorias e abordagens é um trabalho sujo, mas necessário num ambiente cultural carente de cartografias e visões de conjunto.

Este trabalho será o germe de uma proposta de pesquisa (módulo do projeto “Cartografias da Cibercultura”) a ser conduzida na Alemanha em 2010 – se assim as divindades da Capes e do CNPq permitirem.  Uma tese de fundo dessa pesquisa é a necessidade de maior embasamento teórico nas pesquisas sobre Cibercultura.  A popularidade crescente de um discurso tecnicista, que converte as realidades sociais e culturais em números e estatísticas, tem esvaziado a reflexão teórica de sua dimensão filosófica – necessária a toda tentativa de compreensão abrangente do social.  Nesse afã de quantificar, de explicar com precisão e método (nos moldes em que as ciências “duras” encaram esses termos), a dimensão de risco do pensamento tem se obscurecido.  O risco, a criatividade, o atrevimento teórico são marcas, por exemplo, do trabalho de Zielisnki (e nesse aspecto, explicitamente inspirado por Flusser).   Não existe, por exemplo, um método precisamente delineado para executar uma pesquisa a partir dos pressupostos das teses das “materiaidades da comunicação” (Gumbrecht et alii).  O que existe é um parti-pris teórico, um desejo de produzir saber a partir de uma perspectiva alternativa (ainda que não excludente) ao paradigma hermenêutico que reina soberano há séculos no campo das humanidades.  Desde há alguns anos venho afirmando que a vanguarda dos estudos de comunicação se localizará no campo do audiovisual e das pesquisas sobre tecnologias de comunicação.  Isso porque a Cibercultura – se é que existe – possui uma dimensão estética cuja importância ainda não foi propriamente avaliada pela crítica.  Se ela é um objeto uniforme e identificável, o é exatamente como imago mundi – como um horizonte de experimentações, sensações e imagens no qual o aspecto lúdico (arte-entretenimento) merece relevo.  O fascínio contemporâneo com o tema das interfaces parece apontar precisamente para essa inter-relação entre arte, entretenimento, imagem e experimentação.  Nesse sentido, talvez nossa aproximação com o domínio das ciências duras deva se dar exatamente naqueles horizontes onde elas se aproximam das artes (e o trabalho de artistas-teóricos como Peter Weibel indica precisamente isso), e não numa tentativa de recuperar saudosamente a concepção moderna de uma ciência enunciadora de fatos e consolada na empiria.  Mas isso é um tema polêmico e que merece desenvolvimento mais cuidadoso…

Achei o trecho abaixo num ótimo review do livro do Kittler “Gramophone, Film, Typewriter”.  Identifiquei-me com o percurso do cara, só não tenho certeza absoluta de ter me tornado pós-humano (apesar do personagem que criei para este blog).

“I write about Kittler from the standpoint of a scholar of British and American literature who dropped from the tree of Columbia’s core humanities curriculum to the seed-bed of canonical romanticism and modernism and the theory culture of the 1970s and 1980s, then passed through the forcing house of literature and science in the 1990s, to arrive at the threshold of contemporary media studies. In the process I seem to have become posthuman, but Kittler’s work reassures me that I had no choice in the matter: “media determine our situation” (xxxix). Kittler parlays high poststructuralism into a historical media theory that humbles the subject of humanistic hermeneutics by interpellation into the discrete material channels of communication. Media studies bids to become a hegemonic site within the new academic order of a wired culture. For Kittler, media determine our posthumanity and have been doing so in technological earnest at least since the phonograph broke the storage monopoly of writing”.

Para quem quiser ler o resto do texto, basta clicar aqui.

Palestra hoje, 11 horas, sobre cinema, percepção e tempo na Estácio de Sá da rua do Bispo. Evento organizado pela amiga Denize Trindade.

Socine 2009

Se alguém quiser ter um preview do trabalho que apresentarei na Socine 2009, o paper está disponível em formato PDF aqui.  A senha de acesso é 1234.

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