Harman II

Avançando na leitura de Guerrilla Metaphysics, de Graham Harman, encontro-me cada vez mais seduzido pelos argumentos do autor.  O trabalho me fascina não só por oferecer sustentação fenomenológica para um pensamento sobre as coisas (enquanto tais e não como “coisas pensadas pelo homem”), mas também por realizar sua proposta, naturalmente, no próprio estilo do texto, belamente sensual, claro e “materialista” – além de extremamente divertido.  Terminei a primeira parte, na qual Harman faz uma síntese competente (e inteiramente compreensível, coisa muito rara no linguajar filosófico dos dias de hoje) das idéias dos fenomenólogos carnais.  É como se ele colocasse em ordem de crescente admiração suas referências: Lévinas, Merleau-Ponty e seu mestre direto, Alphonso Lingis.  De fato, apenas este último aponta nitidamente caminhos para realizar a proposta de Harman de uma fenomenologia sem medo de encarar a metafísica.  Com seu conceito de “imperativo”, Lingis abandona o antropocentrismo típico dos outros fenomenólogos, sugerindo que nenhuma noção de liberdade humana entraria em conflito com a idéia de um imperativo que as coisas dirigem continuamente a nós, conduzindo nossas ações, nos ensinando a como lidar com elas.  Sim, o mundo existe independente de mim, e seus objetos se dirigem não apenas a mim, mas uns aos outros.  Os objetos, como no célebre texto de Benjamin (Über die Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen), se comunicam aos homens (e entre si) numa espécie de linguagem muda que permeia todo o mundo.  Como mônadas sem janelas, eles conseguem, entretanto, entrar em relação graças ao que Merleau-Ponty chamou de “carne do mundo” e Lingis, indo adiante, denominou como os “níveis” do mundo.  Esse éter invisível no qual todas as coisas estão mergulhadas é de natureza relacional e constitui o medium (um termo muito feliz, usado pelo próprio Harman) que permite a manifestação do lado visível das coisas, com suas múltiplas qualidades.  O erro da fenomenologia tradicional foi o de achar que existe um mundo unitário e pré-formado ao qual a consciência humana viria depois dividir e dar sentido em objetos e entidades individuais.  Contra o il y a de Lévinas, contra esse ruído assustador do puro ser que atemoriza a criança na noite sombria (ver, por exemplo, o capítulo “Ecos de Babel”, em meu Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens), Harman sugere que as coisas sempre estiveram aí, nunca se revelando inteiras a nosso olhar, mas sempre em última instância inacessíveis.  Harman não se interesse fundamentalmente por um Ser puro e indistinto (algo não muito distante da oceânica divindade dos místicos), mas pelos entes, e pelos “níveis” do mundo através dos quais eles se manifestam.  A “carpintaria das coisas” é o outro termo para designar essa entidade que permite que as coisas nos dirijam seus imperativos.  Agora passamos à segunda parte, na qual os detalhes do sistema de Harman serão enunciados.  Depois de terminada a leitura, prometo uma recensão mais detalhada e didática.  Parece, contudo, que Tool-Being: Heidegger and the Metaphysics of Objects está esgotado na Amazon, com outras livrarias cobrando até 900 dólares por uma cópia (absurdo, claro).  Entretanto, na página da editora tudo indica que é possível adquirir diretamente o livro, importante para entender como Harman chegou a Guerilla Metaphysics.  Seu outro livrinho (mais de divulgação) sobre Heidegger está esgotado, mas a Open Court irá reeditá-lo.  Fico na espera…

2 thoughts on “Harman II

  1. Pingback: Carpintaria das Coisas « Object-Oriented Philosophy

  2. Sua referência à obra de G. Harman é oportuna (afinal, o interesse pelo autor, em solo brasileiro, é ameno, infelizmente). Tenho trabalhado (em termos filosóficos)para inseri-lo em nosso contexto.
    Parabéns pelo blog (como um todo)!

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