O Que é um Dispositivo?

Nenhum pensamento forte e autêntico suporta adulação.  Eleger qualquer autor ou conceito como ídolo inquestionável é um dos maiores perigos que se pode correr na vida intelectual.  Por isso eu gosto de gente sem medo de derrubar altares, ainda que mesmo isso possa se converter também em uma espécie de maneirismo intelectual.  Mas ainda acho preferível à idolatria, que paradoxalmente nunca esteve tão viva quanto nesta época de suposta demolição iconoclasta.  Na verdade, a melhor forma de prestar homenagem e respeito a um grande autor freqüentemente passa pela crítica e pelo tensionamento.  O pensamento pós-moderno recusa, em seu discurso, qualquer forma de discipulado. Entretanto, o mercado acadêmico não tem carência de discípulos para seguir monotonamente nos passos dos grandes mestres, como Derrida, Deleuze e Foucault.  Guerrilla Metaphysics é deliciosamente iconoclasta, e bastante impiedoso com uma de nossas maiores divindades filosóficas, o argelino Derrida (mas não também sem a devida dose de respeito).  Confesso que muitas das coisas que irritam Harman na leitura do autor de A Gramatologia são também fonte de meus descontentamentos com Derrida.  Tenho com ele, como com alguns outros pensadores tipicamente pós-modernos, uma relação ambígua.  Aprendi e me deliciei imensamente com textos como La Pharmacie de Platon e Des Tours de Babel, ao passo que em outros momentos me exasperei com o estilo artificial, carregado de neologismos e duplos sentidos – o que Harman define como “highly mannered intellectual collage”.  Por vezes, Harman chega a ser impiedoso demais (mas sempre divertido): “ler Derrida após qualquer um dos fenomenologistas carnais é como passar de uma deliciosa refeição a algo a meio caminho entre resolver um quebra-cabeças e fazer a auditoria de uma restituição de imposto de renda” (p. 111).  Em meu outro blog, fiz troça repetidamente do exagero e promiscuidade com que Giorgio Agamben tem sido citado por aqui.  Agora vou pagar pela boca, pois quero discutir precisamente um pequeno – mas importantíssimo – trabalho do italiano.  Em O que é um Dispositvo? (lido na tradução francesa da Rivages), Agamben nos oferece uma análise profunda da noção (foucaultiana) de dispositivo, fundamental, me parece, para qualquer discussão da sociedade tecnológica contemporânea.  Entre as características mais importantes do conceito (que inicialmente Foucault traduz com a expressão “positividade”) está o fato de congregar realidades extremamente heterogêneas, de natureza material e imaterial, mas que se reúnem em torno de uma função estratégica e “racional”.  O dispositivo é precisamente a rede que se estabelece entre esses elementos heterogêneos – discursos, tecnologias, legislações, instituições etc.  Por muito tempo me seduziu o conceito de “imaginário”, que tem uma história rica e interessante no contexto francês, passando por pensadores como Bachelard, Gilbert Durand e Maffesoli.  Contudo, o imaginário parece me apresentar hoje pelo menos três problemas: 1. é excessivamente obscuro e polissêmico, como uma névoa que sempre escapa qualquer forma de definição mais rigorosa (algo que, para Durand, por exemplo, é constitutivo da própria força da noção), 2. corre freqüentemente o risco de se dissolver em uma idéia mística que, em última instância, seria responsável pela moldagem de toda a história e  de todo o pensamento humano e 3. tende a eliminar qualquer consideração sobre relações de poder e/ou determinantes econômicos na elaboração das imagens e na formação de um “imaginário” social.  O dispositivo, por outro lado, aparece como um conceito profundamente ancorado na história e na força das ideologias.  Além disso, tem um interessantíssimo foco na questão das tecnologias e técnicas que modelam formas sociais e paradigmas culturais.  Um dispositivo é fundamentalmente um aparato tecnológico (pouco importando se constitui exatamente uma máquina ou um conjunto de protocolos e discursos sociais).  O que Lisa Gitelman chama de “protocolos midiáticos” é também uma expressão do “dispositivo”: aquele aglomerado heterogêneo de convenções sociais e estruturas tecnológicas que intervêm continuamente em nossas relações com as mídias e com os outros com quem nos comunicamos por meio delas.  Já busquei anteriormente definir a cibercultura como uma formação cultural, conceito bastante próximo do de dispositivo.  Agora, interessa-me dar um passo adiante e abandonar por completo a expressão “cibercultura”.  Em conversas com Lev Manovich e Siegfried Zielinski, têm se tornado cada vez mais clara a percepção de uma dimensão “antiquária” (termo do segundo) dessa expressão, que vem caindo em desuso lá fora.  A palavra cibercultura ainda tem bastante força por aqui – e isso é explicável também pela desesperada necessidade que temos de recortar (artificialmente) campos do saber para justificar sua existência perante a Capes.  Lembro ter lido um relatório de avaliação do órgão acusando uma instituição de abandonar, em suas linhas de pesquisa, a ingênua distinção radicalizada entre “antigas” e “novas” tecnologias.  Mas o que disciplinas interessantes e inovadoras, como a história da mídia (mediengeschichte) e as materialidades da comunicação, vêm ensinando é exatamente nossa necessidade de relativizar as narrativas utópicas da evolução tecnológica e das rupturas radicais.  Como diz o Zielinski, mais interessante ainda que buscar o antigo no novo (o que em meio aos muitos discursos exaltadores da inovação já representa um avanço) é procurar o novo no antigo.  Daí a proposta de uma (an)arqueologia da mídia (Cf. Archäologie der Medien: zur Tiefenzeit des Technischen Hörens und Sehens).  Aliás, acredito firmemente que o único modo efetivamente produtivo de pensar o digital é por meio de sua continua aproximação e distanciamento com formas tecnológicas anteriores.  Mas como a Capes adora colocar as coisas em seus “devidos lugares”, numa espécie de paixão classificatória que em seu paroxismo só pode recair na absurda enciclopédia chinesa de Borges citada por Foucault (para quem quiser conhecer a origem dessa referência, recomendo ler o “O Idioma Analítico de John Wilkins”), estamos aqui novamente picotando o saber e engendrando categorias artificiosas.  A bem da verdade eu nem acho que seja necessário abrir mão completamente do termo “cibercultura” (mesmo que ele confunda mais do que esclareça).  O mais importante seria aprender a pôr o conceito dentro de uma moldura história (e genelógica e arqueológica) que freqüentemente lhe falta.  A cibercultura talvez seja um vasto dispositivo, composto de discursos, imagens, práticas e estruturas tecnológicas cooperando para determinados fins.  Mais sobre Agamben e o dispositivo daqui a alguns dias.

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