A Doença da Hiperespecialização

O sistema acadêmico brasileiro incentiva a especialialização.  Assim fazendo, segue um preceito que não é exclusivamente nosso, mas corresponde a uma forma de produzir saber tipicamente contemporânea.  A formação humanística já não é favorecida nos ambientes universitários avançados.  Ora, em essência esse princípio não está equivocado.  Num mundo em que o conhecimento se multiplica de forma exponencial, não há lugar para encarnações de um saber universal, como foi o caso de um Aristóteles ou um Athanasius Kircher.  O problema que enfrentamos aqui não é a aplicação desse preceito global, mas sim o modo como o desenvolvemos.  Ocorre que especialização e verniz humanístico não são incompatíveis.  Nos Estados Unidos ou na Europa, as referências intelectuais de maior peso são aquelas que, especializando-se em determinado campo do conhecimento, conseguem passear também com alguma desenvoltura por diversos outros.  Especialmente no domínio das ciências humanas, a hiperespecialização corre o risco de converter-se numa patologia, como tem sucedido por aqui com freqüência.  Muitas vezes, inclusive, ela se torna uma pura e simples desculpa para a ignorância.  Certamente, do ponto de vista dos nossos órgãos de fomento, alguém que escreve sobre literatura, cinema, filosofia ou tecnologias de comunicação pode aparecer como um individuo patologicamente sem foco.  A forma de lidar com isso é desenhar, de modo mais ou menos claro, um campo de especialidade, inscrevendo pesquisas (no CNPq ou na Capes) em tal campo e produzindo sistematicamente artigos científicos sobre o tema.  Se além disso, você ainda tem uma série de outras obsessões paralelas, o problema é seu!  Importante é que você já pagou seu débito para com a especialização, e todo mundo fica feliz… Mas adotar um modelo como esse sem nenhum espaço para fissuras, sem qualquer possibilidade de vôos ou extraoplações mais amplas do pensamento significa abdicar de tradições teóricas capazes de gerar interpretações de conjunto de nossa realidade cultural.  É ótimo que tenhamos trabalhos com pesquisa aplicada, dados microscópicos sobre, digamos, a blogosfera, a troca de arquivos em redes P2P ou as formas de sociabilidade em rede.  Mas paralelamente a isso, é necessário haver trabalhos de compilação, visões de conjunto, interpretações sobre a “cibercultura” como um fenômeno global (econômico, cultural e tecnológico) da sociedade contemporânea.  Sem essa visão mais ampla, que sentido teriam centenas de boas pesquisas sobre o Orkut ou o Second Life  (que, como muitos outros fenômenos do universo digital, corre inclusive o risco de desaparecer de uma hora para a outra)?.  Bom, com toda essa argumentação não pretendo exatamente justificar minha pesquisa atual – que consiste em um mapeamento epistemológico da “cibercultura” -, mas antes defender um certo modelo de pensar.  Um modelo em que a especialização e a liberdade humanística não tenham necessariamente que entrar em conflito.  Além de uma série de razões meramente científicas ou racionais para justificar essa convivência pacífica, eu poderia citar uma de outra ordem, não menos importante: a paixão pelo conhecimento.  Enganam-se os que acham que a paixão e o imaginário são elementos menores (ou mesmo a ser evitados) na construção da ciência – não só das “ciências” humanas, isso que os alemães sabiamente chamam de “Geisteswissenschaften”, mas de todas as ciências.  Seria cansativo enumerar autores (Bachelard, Feyerabend etc.) ou teses que defendem essa necessidade da paixão na produção do saber.  Quero apenas fazer uma pergunta: sua opção pela carreira acadêmica aconteceu eminentemente em função de sua curiosidade e fascínio com o mundo? Ela nasceu de uma necessidade incontornável de buscar uma resposta para as questões que atormentam a existência humana?  Se a resposta for negativa, então, como professor e pesquisador, não quero ter nada a ver contigo.  Minha praia é outra, e talvez possa ser definida como uma “paixão crítica”, segundo o uso que Octavia Paz faz desse termo em seu magnífico “Los Hijos del Limo”.  Do mesmo modo como não há contradição entre especialização e visão humanística, não deve haver entre paixão e rigor científico.  Dito tudo isso, gostaria de anunciar que em breve estarei postando aqui no blog alguns resultados e desdobramentos referentes ao meu campo mais específico de pesquisa.  Mas nem por isso vou deixar de usar este espaço para sumarizar leituras, mencionar oa autores mais diversos (e de diferentes campos) e apontar conceitos ou idéias paralelos.  Afinal, quem sabe alguém pode ter uma intuição interessante para seu próprio trabalho a partir de alguma referência encontrada aqui?  Portanto, o próximo post será sobre o esquecido Fritz Mauthner, filósofo da linguagem e uma das grandes paixões obscuras de meu escritor predileto, Jorge Luis Borges.  Acabou de chegar “Metaphors of Knowledge: Language and Thought in Mauthner’s Critique”, de Elizabeth Bredeck.  Em breve, o resumo de leitura dessa obra, junto com as conclusões sobre Graham Harman e sua crítica da fenomenologia.

2 thoughts on “A Doença da Hiperespecialização

  1. Caríssimo prof. Erick, a leitura do seu blog tem sido um exercício muito significativo pra mim, não apenas por encontrar aqui importantes referências de leituras comentadas, que são potencialmente verdadeiros polens, estimulando o desejo pelo conhecimento, mas sobretudo por perceber, no seu pensamento e nas suas reflexões críticas, ressonâncias das minhas próprias inquietudes e incompatibilidades com os modelos vigentes. Sem dúvida alguma, esse canal de comunicação, no qual você tem compartilhado suas experiências e suas idéias já maduras sobre os problemas e desafios que enfretamos no meio acadêmico, tem repercutido positivamente e de maneira diversa, na vida de alguns leitores, declarados ou anônimos. Seus textos alimentam esse fascínio que falta a tanta gente, e trazem ainda um sopro de esperança para quem busca na vida acadêmica um espaço de formação e de interação de idéias que não apenas reproduza o movimento dos ordenamentos ordinários, mas que seja capaz da revisão, do redirecionamento e da transformação. Só temos a agradecer. Grande abraço, Anderson Melo (Brasília-DF).

    • Caro Anderson,
      muitíssimo obrigado por seu gentil comentário. Espero que possamos trocar referências e que essas rápidas indicações que aponto aqui continuem sendo úteis. Um abraço!

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