Socine 2009

Se alguém quiser ter um preview do trabalho que apresentarei na Socine 2009, o paper está disponível em formato PDF aqui.  A senha de acesso é 1234.

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“Pensadores Esquecidos que Adoraríamos ter lido” (II)

Aproveitando a onda, outro sujeito que vou usar no curso de Tópicos é o (nem tanto) obscuro Ernst Kapp – que conheci primeiramente graças à Maria Cristina (Franco Ferraz) e, depois, via Hermínio Martins, que, creio, foi também a fonte dela.  Há uns três anos dei no mestrado um curso com uma seção sobre filosofia da técnica.  Kapp e Simondon apareciam ali.  Sobre o Kapp, algumas anotações que usei na época:

Ernst Kapp, hegeliano da ala esquerda, como Marx, transpôs os conceitos de Hegel para um contexto mais concreto, a princípio, o campo da geografia.  Em lugar de se ocupar das relações econômicas, como fez Marx, ele busca as relações das configurações geográficas com o social.  Uma teria da matéria e uma filosofia ambiental.  A história não é o desenvolvimento do Espírito Absoluto, mas o registro das tentativas humanas de superar as dificuldades e obstáculos do ambiente natural – uma colonização do tempo e do espaço.  A colonização interna na forma da política. Graças a um desentendimento político com o governo, Kapp foi para o exílio nos EUA, Texas (o bravo Oeste americano); levou uma vida em contato com a natureza, livre de qualquer relação com máquinas ou tecnologias.  Depois da Guerra Civil decidiu visitar a Alemanha, mas devido a uma doença foi aconselhado a ficar lá, onde começou a elaborar uma teoria da tecnologia baseada na idéia de Organprojektion. – nos Grundlinien einer Philosophie der Technik (1877).  Na ferramenta, o homem continuamente se produz a si mesmo; o dedo dobrado se torna um gancho, o vazio da mão uma tigela, etc… Isso nem sempre é um processo consciente.  Mesmo a linguagem e o estado são tidos como externalizações da mente humana.

“Enquanto hegeliano, vê a história humana como a objetivação da essência humana.  Como hegeliano de esquerda, considera que essa objetivação deriva, não do espírito mas do ser humano corporizado” (Martins: 168).  O inconsciente produz projeções técnicas variadas e essas tecnologias são uma forma através da qual os seres humanos podem alcançar conhecimento de si próprios (como num espelho); isso explicaria porque as metáforas tecnológicas têm sido tão cruciais para a nossa auto-interpretação.  Assim, a evolução técnica é a evolução da autoconsciência do homem em suas diversas etapas. O “somatismo tecnológico” de Kapp x o “gnosticismo tecnológico”… Sim, essas notas derivam principalmente do resumo que o Martins faz em seu excelente “Hegel, Texas e outros Ensaios de Teoria Social”.  Agora, para os leitores de alemão, uma notícia mais bombástica.  Já temos acesso a esse livro raríssimo, Grundlinien einer Philosophie der Technik, num facsímile do original de 1877.  Pode-se carregar essa cópia em PDF na biblioteca virtual do Instituto Max Planck aqui.  Em muitos aspectos, o Kapp foi precursor do McLuhan.

“Pensadores Esquecidos que Adoraríamos ter Lido”

Inauguro com este post uma nova série, a dos pensadores esquecidos que adoraríamos ter lido.  Lembro com riqueza de detalhes: pelos idos de 1997, passeando pela infinita e mágica biblioteca da UCLA, encontro o raríssimo Gottlose Mystik, de Fritz Mauthner.  Abro o livro e me deparo com essa belíssima frase, que usarei como epígrafe do primeiro capítulo de “Sliêncio de Deus, Silêncio dos Homens”: “Früher, ja früher, da die Welt noch jung war, gab es eine einzeige Sehnsucht, und die war stark, stärker als  die Liebe, doppelt stärker als de Tod” (“Cedo, bem cedo, quando o mundo ainda era jovem, havia um único anseio, e ele era forte.  Mais poderoso que o amor, duplamente mais poderoso que a morte”).  Nestes últimos meses tenho reencontado Mauthner, e por alguma espécie de misteriosa conjunção astronômica venho colhendo esporádicas referências a ele nas mais variadas leituras.  Agora, como realmente sofro de síndrome de déficit de atenção, resolvi comprar e ler esse livrinho que descobri passeando pela Powells: “Metaphors of Knowledge: Language and Thought in Mauthner’s Critique”, da Elizabeth Bredeck.  Em “Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens”, usei algumas referências do trabalho de Silvia Dapía Die Rezeption der Sprachkritik Fritz Mauthners im Werk von Jorge Luis Borges para sugerir que a leitura prematura do austríaco refletiu-se através de toda a obra de Borges, por exemplo, na elaboração das línguas imaginárias de Tlön.  Sem relação direta com a bibiografia que estou lendo para o novo módulo da pesquisa CNPq (Cibercultura e teoria da mídia alemã), a reflexão de Mautner me interessa por sua convergência com certas tendências contemporâneas.  Seu conceito de um continuum inseparável entre mente e corpo ou sensação e conhecimento (em lugar de qualquer espécie de dualismo), por exemplo.  Outra razão para ler sobre esse cara, em meio a tantos outros compromissos e leituras prioritárias, encontra-se no curso de graduação de Tópicos II sobre Comunicação e Filosofia.  Não sei se vou fundir a cabeça dos alunos com essas referências (Mauthner, Flusser, Mark Hansen…) ou destruir minha fama como professor com discurso inteligível, mas acho que vale a pena arriscar.  Mesmo na graduação temos que ter algum espaço para ousar um pouco, para mexer com as cabeças.  Se isso não acontecer, a universidade se converte em mero escolão técnico…