“Pensadores Esquecidos que Adoraríamos ter lido” (II)

Aproveitando a onda, outro sujeito que vou usar no curso de Tópicos é o (nem tanto) obscuro Ernst Kapp – que conheci primeiramente graças à Maria Cristina (Franco Ferraz) e, depois, via Hermínio Martins, que, creio, foi também a fonte dela.  Há uns três anos dei no mestrado um curso com uma seção sobre filosofia da técnica.  Kapp e Simondon apareciam ali.  Sobre o Kapp, algumas anotações que usei na época:

Ernst Kapp, hegeliano da ala esquerda, como Marx, transpôs os conceitos de Hegel para um contexto mais concreto, a princípio, o campo da geografia.  Em lugar de se ocupar das relações econômicas, como fez Marx, ele busca as relações das configurações geográficas com o social.  Uma teria da matéria e uma filosofia ambiental.  A história não é o desenvolvimento do Espírito Absoluto, mas o registro das tentativas humanas de superar as dificuldades e obstáculos do ambiente natural – uma colonização do tempo e do espaço.  A colonização interna na forma da política. Graças a um desentendimento político com o governo, Kapp foi para o exílio nos EUA, Texas (o bravo Oeste americano); levou uma vida em contato com a natureza, livre de qualquer relação com máquinas ou tecnologias.  Depois da Guerra Civil decidiu visitar a Alemanha, mas devido a uma doença foi aconselhado a ficar lá, onde começou a elaborar uma teoria da tecnologia baseada na idéia de Organprojektion. – nos Grundlinien einer Philosophie der Technik (1877).  Na ferramenta, o homem continuamente se produz a si mesmo; o dedo dobrado se torna um gancho, o vazio da mão uma tigela, etc… Isso nem sempre é um processo consciente.  Mesmo a linguagem e o estado são tidos como externalizações da mente humana.

“Enquanto hegeliano, vê a história humana como a objetivação da essência humana.  Como hegeliano de esquerda, considera que essa objetivação deriva, não do espírito mas do ser humano corporizado” (Martins: 168).  O inconsciente produz projeções técnicas variadas e essas tecnologias são uma forma através da qual os seres humanos podem alcançar conhecimento de si próprios (como num espelho); isso explicaria porque as metáforas tecnológicas têm sido tão cruciais para a nossa auto-interpretação.  Assim, a evolução técnica é a evolução da autoconsciência do homem em suas diversas etapas. O “somatismo tecnológico” de Kapp x o “gnosticismo tecnológico”… Sim, essas notas derivam principalmente do resumo que o Martins faz em seu excelente “Hegel, Texas e outros Ensaios de Teoria Social”.  Agora, para os leitores de alemão, uma notícia mais bombástica.  Já temos acesso a esse livro raríssimo, Grundlinien einer Philosophie der Technik, num facsímile do original de 1877.  Pode-se carregar essa cópia em PDF na biblioteca virtual do Instituto Max Planck aqui.  Em muitos aspectos, o Kapp foi precursor do McLuhan.

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