Sobre a Comunicação e o Jornalismo

O recente e acalorado debate sobre as Diretrizes do MEC para os cursos de jornalismo é apenas reflexo de um fenômeno muito mais amplo e de longa sobrevida.  Refiro-me ao conflito histórico, por vezes velado, por vezes inteiramente explícito, entre duas concepções ideológicas diversas a respeito da Comunicação em suas dimensões de ensino e pesquisa.  Como costuma ocorrer, as posições extremas desse conflito revelam-se freqüentemente improdutivas e falseadoras da verdade dos fatos.   Particularmente digna de análise é a posição radical que muitos (digo “muitos”, não todos) jornalistas ou pesquisadores do jornalismo costumam adotar na defesa de sua prática profissional ou objeto de pesquisa.  Sou graduado em jornalismo e, naturalmente, não tenho nada contra o jornalismo, seja como atividade profissional, seja como tema de investigações científicas.  Ao contrario, inclusive, de algumas pessoas com quem já conversei sobre a questão, considero de extrema importância e relevância científica boa parte das pesquisas que aqui têm sido realizadas na área do jornalismo.  Também sempre defendi uma posição de pluralismo e abertura no desenho das fronteiras da Comunicação como disciplina e área de conhecimento.  Contudo, não cessa de me surpreender a veemência com que certos indivíduos procuram  caracterizar o campo do jornalismo como o horizonte de pesquisa mais autêntico e legítimo (senão único) da comunicação.  Essa veemência e a forma como ela se expressa parecem indicar uma espécie de síndrome da perseguição.  Como se houvesse um complô secreto e difuso contra o jornalismo, torna-se necessário então reagir com máxima força, de modo a criar uma fortaleza inexpugnável capaz de protegê-lo, inclusive, das intempéries do tempo e das transformações sociais.  Acho impressionante a facilidade com que a “objetividade” jornalística e o “distanciamento” científico caem por terra diante do poder de certos mitos característicos do mundo do jornalismo.   A pureza com que se tem buscado desenhar o horizonte do jornalismo, como prática e objeto de pesquisa, padece de uma ingenuidade que chega a beirar o delírio.  Como intelectual universitário, já não tenho nenhuma grande ilusão quanto à minha atividade e ao meu campo de pesquisa.   Sei muito bem que não vamos salvar o mundo, e tenho, inclusive, sérias dúvidas sobre a sobrevivência futura do nosso atual modelo de universidade e produção de conhecimento.  Contudo, considero essa percepção algo saudável: uma espécie de lucidez necessária não apenas ao trabalho científico, mas à sobrevivência em um mundo de tão rápidas e intensas transformações quanto o nosso.  Ainda creio que podemos fazer uma diferença – efetivamente, em um nível microscópico – mas não alimento nenhuma ilusão “missionária” do tipo que por muitos anos grassou (e que me parece ainda muito viva) no âmbito do jornalismo.  Em muitos campos do conhecimento, a desaparição de práticas, objetos de pesquisa, teorias ou métodos tem sido encarada com uma atitude que nada tem de reativo – e uso este termo com toda negatividade que lhe devota o vocabulário nietzscheano.  O exemplo da Literatura Comparada, nesse sentido, é dos mais esclarecedores.  Face ao diagnóstico da decadência da critica literária (ou mesmo da noção clássica de “literatura”), muitos intelectuais acadêmicos saíram em campo para buscar novos objetos, questões ou modos de abordagem.  Em vez de se lamentar pela desaparição de seu objeto, inventaram outros horizontes, objetos e perspectivas – alguns, inclusive, se aproximando daquilo que nós, de modo algo artificial, denominamos por aqui de “comunicação”.  Lembro-me bem de meu professor de hebraico, que costumava dizer: “eu não acredito em D’s, eu sei que Ele existe”.  Era sua maneira de manifestar a intensidade inquestionável de sua fé.  Assim fazendo, naturalmente, confundia crença com saber, fé com ciência.  Mas não sejamos apressados em condená-lo. A bem da verdade, nunca existiram fronteiras precisas entre esses domínios.  Assim como não existe algo como um “puro” jornalismo, não existe algo como a “pura” ciência, totalmente incontaminada pelo imaginário ou pela crença.  Como diria Bruno Latour, “jamais fomos modernos”.  O que é perigoso na frase é seu teor dogmático.  Enquanto a atitude científica prima pela abertura à permanente revisão de seus conceitos e teses, a atitude dogmática almeja paralisar o tempo e essencializar realidades históricas.  São precisamente inflexões desse tipo de atitude que se pode identificar tanto no documento das diretrizes do MEC quanto no discurso de alguns dos defensores mais ferrenhos do jornalismo como campo de conhecimento e atividade humana.  Vejamos, por exemplo, uma passagem do documento que já foi destacada (e criticada) na lista da Compós:

“Com a finalidade de tornar compatíveis o requisito da titulação do corpo docente e a necessidade de aderência às disciplinas ministradas, a Comissão de Especialistas recomenda a criação de um Programa Nacional de Aperfeiçoamento Docente destinado às novas gerações de professores de Jornalismo. Muitos foram titulados pelos cursos de pós-graduação da área teórica de Comunicação ou de disciplinas conexas, sem ter exercido plenamente a profissão e não raro sem o domínio cognitivo da sua especificidade. Concomitantemente, deve ser fomentada, nas Escolas de Comunicação, a abertura de cursos de mestrado e doutorado com áreas de concentração em Jornalismo, para atender à demanda crescente de novos professores para os cursos de graduação e de projetos de pesquisa científica na área”

Em essência, o que se propõe aqui é a abertura de uma “reserva de mercado” acadêmico para o jornalismo.  Como se já não bastasse o fato de vários programas de pós-graduação possuírem linhas de pesquisa e pesquisadores dedicados a temas de jornalismo, agora é necessário fomentar mestrados e doutorados especificamente dedicados a tal área de concentração.  Mas então por que não fomentar a criação de cursos com área de concentração em Cibercultura, de modo a melhor preparar os futuros pesquisadores desse campo?  (claro que o exemplo é, na verdade, um contra-exemplo).  No fundo dessa proposição, esconde-se também uma contradição lógica.  Por “domínio cognitivo”, o que se quer destacar efetivamente é a necessidade da prática.  Ou seja, o retorno do velho argumento de que jornalismo se aprende fazendo.  Contudo, sugere-se que a melhor maneira de realizar isso é dotando os professores de uma formação teórica em jornalismo nos cursos de mestrado e doutorado!  Na verdade, a questão da pesquisa e da teoria aqui é secundária.  O que importa é que os ingressantes nos mestrados e doutorados em jornalismo tenham exercido a profissão de jornalistas.  Toda a lógica desses discursos aponta para uma mentalidade tipicamente corporativista, ou, melhor ainda, característica das Guildas medievais.  Alem disso, tal lógica é perpassada por uma concepção de jornalismo que – sinto muito! – já não pode sustentar-se no cenário contemporâneo.  As próprias noções tipicamente modernas que fundamentavam a concepção clássica do jornalismo deixaram de fazer sentido.  Por mais que aqui nas terras tropicais tenhamos esse ardoroso desejo de recortar campos, de fechar domínios, de constituir reservas e de dar nomes precisos às coisas, não há como retornar aos tempos da pureza – se é que algum dia eles realmente existiram.  Num sentido irônico e paródico (naturalmente), eu posso parafrasear as palavras de meu professor e dizer: “eu não creio que o jornalismo em sua configuração moderna acabou, eu sei que ele acabou!”.  O fim da exigência do diploma de jornalismo, ainda que motivado por interesses mesquinhos de ordem política ou econômica, constitui apenas um dos muitos indícios das transformações que estão em curso.  Sempre existirão, é claro, os saudosistas dos bons tempos de antanho, cujo exemplo emblemático encontro na obra recente de Andrew Keen, “The Cult of the Amateur”.  Eu os lerei com atenção e refletirei sobre seus queixumes, possivelmente compartilhando da saudade pela perda de determinadas referências amadas e familiares.  Mas com um sentido de realidade forte o bastante para perceber que idéias como a da cultura participativa e da reconfiguração dos suportes midiáticos configuram marcas fundamentais do nosso presente.  É possível – e provável – que daqui a 20 anos estejamos falando de outras idéias e coisas.  “O tempo é uma criança que joga o jogo de pedras…”, disse Heráclito com excelente poesia.  Quem não se senta para jogar com ele corre o risco de sofrer de uma forma patológica de saudosismo.  Por enquanto, a impressão que tenho é que a comunicação e o jornalismo continuarão a ter suas fronteiras esgarçadas e suas práticas e teorias transformadas em uma velocidade vertiginosa.  Se nas faculdades de comunicação, uma outra expressão do pensamento reducionista configurou-se na surrada oposição entre teoria e prática, hoje, mais que nunca, a boa teoria (que é sempre também uma prática, como lembrava Deleuze) se faz necessária ao cidadão da tecnocultura contemporânea.   Acaba de me vir à memória uma palestra a que assisti, faz muitos anos, na UERJ: um conhecido representante dos estudos de jornalismo desfiava, numa retórica viciada, argumentos primários e equivocados para questionar o papel das disciplinas teóricas no curso de comunicação.  Em seu discurso, a prática (jornalística) se manifestava como a heroína que viria salvar o mundo da inanidade teórica.  Ao final da palestra, perguntei: “mas toda a sua estrutura argumentativa não foi elaborada com base em referenciais teóricos? Se o despirmos de toda essa armadura conceitual, só resta o silêncio.  Talvez essa seja a resposta mais adequada da prática à teoria”.  A tensão entre teoria e prática também constituiu, em muitos sentidos, uma força fundante dessa outra tensão entre a comunicação e o jornalismo.  Trata-se, evidentemente, de uma falsa oposição, pois nem a prática nem a teoria existem em forma pura.  No fim das contas, a questão não é confrontar práticas e teorias, mas saber dizer a diferença entre as boas e más práticas e teorias.

One thought on “Sobre a Comunicação e o Jornalismo

  1. Leio blogs como fonte de consultas, raramente participo deles e os encaminho a alguém, exceção feita a alguns blogs de fotografia de autor que me detêm o olhar. Li essa mensagem a partir de uma indicação da Adriana e me chamou a atenção o tamanho do texto num blog, ainda que diferenciado como esse. Li com prazer, e, independente da discussão das diretrizes e do jornalismo, me irmanei na reflexão que faz sobre o campo e o universo (ou micro-universo) científico. Graças ao fato de acreditarmos que podemos pensar juntos, teorizar juntos, ainda que conversando, é que o o seu texto deve ter fluído, e ele me fez muito bem.
    Bjos.

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