Avatar (com Ivana Bentes)

Uma boa idéia e uma pitada de inspiração podem fazer muita coisa.  Graças a algumas mensagens trocadas no Twitter, a editora Sulina (através do amigo Luis Gomes) nos trouxe a proposta de escrever um pequeno livro sobre o filme de James Cameron.  Numa semana atípica, o texto acabou saindo muito mais rápido do que eu esperava.  A coleção ainda nem tem nome, mas o volume deve sair em março com meu ensaio e o da Ivana.  Não quero estragar o suspense – e estou curiosíssimo para ler o texto de Ivana -, mas achei que não seria grave revelar um pequeno trecho do pós-escrito que preparei para o ensaio.  Depois da exaustão provocada pela façanha de escrever a coisa em menos de uma semana, é preciso reencontrar a energia para pensar o artigo da Compós.  Férias continuam sendo apenas uma doce ilusão…

Pós-Escrito: “They Killed Wonder”, ou como Hollywood pode nos devolver a Sensação do Espanto

(…) Não apenas a diversão tornou-se um tema muito sério, mas as distinções tradicionais entre universos de referência como “alta cultura” e “cultura de massa” encontram dificuldade crescente para sustentar-se.  Um dos elementos que mais me interessa no cinema hollywoodiano, precisamente sua dimensão tecnológica e material, constitui aquilo que boa parte dos modelos tradicionais de crítica constantemente desprezou.  Se estou bastante interessado em interpretar filmes (inclusive buscando neles sentidos ideológicos ou culturais mais amplos), certamente não quero limitar meus exercícios de análise a uma dimensão unicamente hermenêutica.  E se os filmes de gênero e as produções das vanguardas artísticas têm algo em comum, é sua atenção exatamente ao aspecto material da experiência fílmica, às sensações e ao corpo do espectador.  Nesse sentido, sinto-me extremamente próximo das propostas do intrigante trabalho de Joan Hawkins, Cutting Edge: Art-Horror and the Horrific Avant-Garde (2000).  Quando os surrealistas se interessavam por filmes “ruins” e gêneros menores, como o horror e a pornografia, encontravam em tal universo fílmico uma atenção ao corpo e à materialidade da imagem cinematográfica útil a seus próprios experimentos vanguardistas.

E retornando ao cinema hollywoodiano, posso afirmar que a razão de meu interesse reside na centralidade com que desenvolve a idéia de efeito especial.  Pois algo que freqüentemente se esquece é que o cinema é a mais tecnológica das artes.  O efeito especial põe continuamente em relevo essa dimensão tecnológica.  Mais que isso, ele pode estabelecer, entre o espectador e as imagens, uma experiência que é da ordem do maravilhamento.  E numa época em que já não parecem existir mistérios no mundo, a sensação da maravilha não é algo desprezível.  Os homens barrocos inventaram suas câmeras de maravilhas (Wunderkammern) para ensinar que não precisamos separar radicalmente o extraordinário da natureza e do artifício humano.  Nesses gabinetes ou caixas de madeira, colocavam, por exemplo, aparatos óticos lado a lado com tudo pudessem encontrar de singular e exótico no mundo natural.  O cinema tem, portanto, uma relação congênita com o espanto.  Em certo sentido, esse também é um aspecto pouco percebido da história de Avatar.  Quando os navegadores começaram a desbravar o Novo Mundo, ainda existia espaço para a imaginação.  Em mapas antigos e muitas vezes precários, encontrava-se comumente a expressão “here there be monsters” (“aqui existem montros”) sobre certos pontos.  A monstruosidade era uma das formas de assinalar o espanto, o maravilhoso.  Se a ciência parece ter desencantado o mundo, é preciso criar novos mundos.  Em Pandora, Jake reencontra a possibilidade de maravilhar-se.  Como acontece com as crianças, naquele mundo tudo é estranho, tudo é novo, e mesmo, ocasionalmente, monstruoso.

É certo que o esquematismo narrativo de Avatar merece crítica.  Contudo, muita gente se equivoca pensando que esse é o componente central do filme.  Talvez o que torne o mundo de Pandora tão atraente é precisamente a série de brechas, incoerências e superficialidades narrativas que o filme nos apresenta.  Há muito que pode ser repensado e recriado.  Cameron já planeja, naturalmente, as seqüências da história.  Entretanto, o que me interessa agora é ver como o público continuará reagindo a esse impacto inicial. Haverá futuro para a língua Na’vi?  Pessoas seguirão produzindo fan fiction sobre Pandora?  O caso de outros grandes êxitos hollywoodianos é emblemático.  Com Guerra nas Estrelas, George Lucas conseguiu engendrar um mundo coerente e até certo ponto independente de seus filmes.  Sua mitologia impregnou nossa cultura de forma tão impactante que mesmo os indivíduos totalmente avessos à ficção científica não escapam à influência de Darth Vader e Luke Skywalker.  Pode ser que Avatar consiga repetir a façanha (e para os devotos de Lucas, uma suposição como essa constitui a mais alta heresia!) (…)

2 thoughts on “Avatar (com Ivana Bentes)

  1. Conheci seu blog através de tweet de uma amiga minha apontando um de seus posts, acabei por me interessar pelo todo e fui ler o restante. Parabéns.

    E sim, é a mais alta heresia tal suposição em comparativos entre Star Wars e Avatar (guardada as devidas proporções e universos que cada um se constitui).

    • Minha longa experiência com fandoms diz que qualquer suposição comparativa a respeito de Star Wars, Lord of the Rings e Harry Potter está fadada a ser considerada heresia e declarar a revolta dos participantes dos respectivos fandoms que criarão uma verdadeira baderna em cima de tais colocações transformando-as em uma guerra com direito a trolls, flamewars, brigas e invariávelmente um imenso caos.

      … Por isso, claro, que existe o fandom_wank. Comunidade curiosa essa, e ainda bem – só para casos em lingua inglesa.

      O trecho é interessante, gostei das questões levantadas.😉

      (Avatar é o típico pano de fundo interessante desperdiçado em um enredo inossosso. Esse tipo de caso costuma ser um chão fértil para fic writers, claro, porque há tanto a explorar de forma mais interessante que o pequeno-caso bobo do filme)

      (Por outro lado, a exuberância visual do filme tende a diminuir a produção de fanarts, e não ser por fotomanipulação).

      (Claramente, eu passei tempo demais observando fãs nessa vida)

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