Teoria da Mídia Alemã (novo projeto)

Terminada a redação do projeto para o novo módulo da pesquisa.  O projeto se intitula “Cartografias da Cibercultura: a Teoria da Mídia Alemã” e constitui uma extensão da pesquisa anterior.  O objetivo, em poucas palavras, é mapear o pensamento acadêmico alemão (bem pouco conhecido no Brasil) sobre cibercultura.  Um autor de destaque no projeto é precisamente Vilém Flusser, que os alemães gostam de considerar como integrante da tradição alemã de reflexão sobre a mídia – apesar de ser tchecho e ter vivido mais de 30 anos no Brasil.  Abaixo, segue um pequeno trecho do projeto

“Se até o momento presente, os dados coletados pela pesquisa pareciam apontar o acerto das proposições iniciais de definir (operatoriamente) a cibercultura como uma vasta formação cultural e de aproximar suas concepções “teóricas” das representações “populares”, estas conjecturas ainda se apresentavam, porém, como insuficientes para uma caracterização mais detalhada do fenômeno cibercultural.  De fato, a imprecisão e a nebulosidade do termo “cibercultura” permaneciam constituindo problemas exigindo maior exploração.  Parecia faltar à bibliografia investigada uma dimensão “arqueológica” e uma consideração maior das dinâmicas propriamente “materiais” dos fenômenos tecnológicos[1].  Esses dois aspectos, bem como outras dimensões pouco exploradas na bibliografias em inglês e francês constituem, contudo, o foco das atenções das pesquisas realizadas nos últimos anos no contexto alemão – infelizmente ainda pouco conhecida no cenário acadêmico brasileiro.  É verdade que hoje já é possível encontrar boas traduções em inglês ou francês de autores e obras representativos da Medientheorie.  Contudo, não se pode negar que largas parcelas dessa literatura – e muitos de seus representantes – são indisponíveis em qualquer outra língua que o alemão.

Mesmo partes expressivas da obra de Vilém Flusser, filósofo tcheco-brasileiro, que tem recebido muito mais atenção em terras européias que em território brasileiro, ainda aguardam tradução para o português ou inglês. Se não fosse pelo trabalho pioneiro de pesquisadores como Gustavo Bernardo Krause, nos estudos literários, e Norval Baitelo e Michael Hanke, na comunicação, Flusser, que residiu no Brasil por mais de 30 anos, correria o risco de estar quase que inteiramente esquecido por aqui[2].  Na Alemanha, Flusser é considerado um pensador da tradição alemã, talvez, hoje, ainda o grande nome da teoria da mídia alemã.  Como se verá, praticamente não existe manual ou recensão sobre teorias da comunicação na Alemanha que não inclua o nome de Flusser. Na apresentação a Medienkultur, Stefan Bollman chega a afirmar que, “no contexto alemão, Flusser foi freqüentemente encarado como profeta de uma época (Prophet einer Epoche) na qual as tecnologias digitais iriam proporcionar à humanidade um futuro brilhante” (1999: p. 7, grifos nossos). Em outras palavras, uma espécie de McLuhan escrevendo em alemão.  Outros teóricos de mídia importantes, como Friedrich Kittler, Dieter Mensch ou Sybille Krämer são virtualmente desconhecidos no Brasil. Acrescente-se a tudo isso o típico “isolacionismo” do pensamento acadêmico alemão, corretamente destacado por Theo Röhle[3], que dificulta o acesso às idéias e o intercâmbio entre pesquisadores alemães e de outras nacionalidades.

Meu primeiro contato com a Medientheorie alemã aconteceu em princípios da década de 90, no âmbito do doutorado em Literatura Comparada da UERJ, através de encontros e conversas com Hans Ulrich Gumbrecht, que apresentava com desembaraço as idéias de Kittler, Luhmann e do programa de pesquisa das “materialidades da comunicação”. Na verdade, Gumbrecht, radicado nos Estados Unidos desde 1989, é provavelmente o principal articulador da escola.  Na Universidade de Stanford, ao lado de um grupo de pensadores europeus e norte-americanos – Jeffrey Schnapp, Niklas Luhman, Friedrich Kittler e David Wellbery, entre outros -, Gumbrecht vem delineando o esboço de um programa de pesquisas que já havia adquirido forma inicial em uma coletânea de artigos publicada na Alemanha em 1988: Materialität der Kommunikation[4].  A trajetória intelectual de Gumbrecht pode ser tomada paradigmaticamente como núcleo para uma genealogia da teoria das materialidades da comunicação, ainda que diversos outros pensadores tenham colaborado, de forma isolada ou coletivamente, para a constituição desse campo de estudos”


[1] Naturalmente, existiam valiosas exceções, entre as quais se poderia citar, por exemplo, a paradigmática obra de Lev Manovich, The Language of New Media (2000), ou o trabalho de Lisa Gitelman, Always Already New: Media, History and the Data of Culture (2006).

[2] Boa parte da obra de Flusser foi escrita – ou traduzida por ele próprio – em alemão, mas também em outras línguas, como português, inglês e francês. Essa obra começou a ser resgatada do esquecimento no Brasil a partir de meados da década de noventa (ele morreu em 1991, em um acidente de carro), primeiramente no campo dos estudos literários. Coincidentemente, também foi no horizonte da teoria literária que se desenvolveu a chamada “escola das materialidades da comunicação”.  Minha primeira recensão sobre as teses das “materialidades da comunicação” data de 2001. Cf. Felinto (2001).

[3] Cf. http://netzmedium.de/2009/04/10/german-media-theory-too-shy-to-admit-its-own-greatness/

[4] Para uma competente recensão sobre a obra, ver Hanke (2005). Disponível em <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/resumos/R0680-1.pdf&gt;

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