Quem tem Medo da Teoria? (novamente, a doença da hiper-especialização)

Nos últimos anos, venho notando que os projetos de pesquisa apresentados aos cursos de mestrado e doutorado têm temas cada vez mais específicos.  Não digo bem recortados ou definidos, o que naturalmente constitui um pré-requisito de qualquer projeto bem elaborado.  Digo excessivamente fechados, a tal ponto de sufocarem qualquer espécie de pensamento mais ambicioso.  Na filosofia, por exemplo, seria algo como “a função da conjunção ‘dass’ na expressão lingüística do Wittgenstein de ‘Investigações Lógicas'”.  Certamente, tal tendência é precisamente o tipo de coisa que provoca orgasmos múltiplos em avaliadores da Capes.  Comigo, o efeito é o contrário: uma preocupante brochura intelectual que só um forte viagra teórico poderia curar.  Este ano, propositalmente, resolvi oferecer um dos cursos mais densos que poderia elaborar para o mestrado.  Resultado: três alunos inscritos.  A bem da verdade, as dimensões do PPGC da UERJ são bastante modestas, mas este é realmente um número atípico.  É fato também que a maioria dos estudantes não escolhe cursos pelo quesito ‘quem ensina’ ou pelo conteúdo em si, mas pelo tema geral e pelo dia da semana mais favorável.   “Novas Tecnologias e Formas de Vinculação Social”, por exemplo, sempre faz muito sucesso.  E por alguma razão, quartas e quintas são os dias mais populares (eu bem que tentei pegar a quinta, mas alguém foi mais rápido que eu).  Toda essa tendência à especialização seria sadável se pelo menos existissem algumas almas corajosas com sede de questões mais amplas.  Afinal, todos nós precisamos conhecer bem pelo menos um assunto.  Mas esses seres intrépidos estão em extinção, e encontrar um deles é como achar um dodô perdido em uma selva africana (para quem não sabe, um estranho pássaro extinto desde o século XVII).  Desse modo, já não se encontram propostas “globais” para contrabalançar as “locais”.  Mas qual é o maior perigo disso?  É que escolhendo, de cara, um tema altamente limitado, o sujeito passa por cima de todos os fundamentos necessários para desenvolver um pensamento relevante sobre qualquer coisa.  É como o caso clássico do cara que cita Deleuze a torto e a direito, mas desconhece quase qualquer noção histórica do pensamento filosófico que precedeu Deleuze.  Sim, é verdade que o caminho da amplitude é muito mais exigente, muito mais duro, muito mais sacrificado.  Mas nessa história, parece que alguns aspirantes à docência se esquecem de um dado elementar: a academia não é um passeio no jardim das delícias de Epicuro.  Como diz o austero Rüdiger, só os fortes sobrevivem.  Não existem mais bons concursos para doutor com menos de dez candidatos.  Nossos mestrados e doutorados, que na atual fase supostamente liberal da Capes, continuam se multiplicando, têm despejado todos os anos centenas de pós-graduandos no limitadíssimo mercado acadêmico brasileiro.  Pois é, somente os fortes sobrevivem.  É preciso reconhecer que parte da culpa por esse fechamento do saber se deve a um modelo de produção intelectual inteiramente formalista e baseado em “resultados” (seja lá o que quer que “resultado” signifique neste contexto).  Outra parte, entretanto, se deve simplesmente ao medo.  Medo da teoria, medo de vôos mais amplos, medo da complexidade do saber em seu estado “pós-moderno”.  Depois que escreveu “O Nome da Rosa”, Umberto Eco afirmou que as primeiras 100 páginas da novela serviam como um mecanismo de seleção natural.  Em outras palavras, ele estava interessado em falar apenas àqueles leitores que conseguissem superar o obstáculo desse começo mais difícil e árduo.  Elitismo?  Não creio.  Trata-se apenas de escolher para quem você quer se dirigir.  Todo pensamento e toda arte autêntica tem sempre um público específico.  Como dizia Borges, “os bons leitores são cisnes ainda mais raros que os bons escritores”.  Quem tem a pretensão de falar para todo mundo nunca irá dizer nada de realmente significativo.  Portanto, meus caros, escolham bem quem vocês irão ler e com que temas irão trabalhar.  E saibam que, na universidade, vocês serão sempre lidos e escutados por apenas meia dúzia de pessoas.  Se quiser ser popular, vá fazer aulas de creative writing com o Paulo Coelho. Enquanto isso, sigo aqui lendo Kittler, penando (e me deliciando) com cada linha de texto.  Apesar de todas as decepções que a vida acadêmica pode proporcionar, ainda imagino o paraíso na forma de uma biblioteca…

3 thoughts on “Quem tem Medo da Teoria? (novamente, a doença da hiper-especialização)

  1. “viagra teórico” lol

    erick… só você mesmo! muito boa a evangelização.

    eu sempre digo: não sou eu que escolho meus temas, eles é que me escolhem quando me dão um frio na barriga. só pesquiso se estiver apaixonada. se não, não consigo.

    mas acho que não sou muito forte, não. sobreviver será um milagre pra mim.

    mas milagres acontecem todos os dias.

    bjs

  2. Assim como as teorias são temidas, principalmente pelo que elas demandam, algumas teorias são proscitas e outras são a moda da hora.

    Quem quer ser poplar vai pela moda, pelo cursinho do Paulo Coelho ou ’emitir’ frases +- engajadas no Twitter

    Eu também ainda imagino o paraíso em forma de biblioteca (e sem traças).

    abraço!

  3. Bem, eu não tive medo do teoria dessa vez… Escolhi fazer a sua matéria pelo conteúdo e pelo docente. Ao ler esse texto me senti praticamente sendo promovida do quinto círculo do inferno para o segundo círculo – mas a promoção foi temporária, logo vi que era excesso de euforia – mas pelo menos irei dormir mais feliz sabendo que faço parte de um seleto grupo dos “seres intrépidos que estão em extinção” que querem saber de questões mais amplas.

    Parabéns pela excelente aula!

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