Cibercultura e História (?)

[obs. preliminar: se você achar interessantes as elucubrações abaixo, dê uma olhada neste post do meu outro blog para entender mais sobre a mecânica dos títulos das obras de divulgação da cibercultura]

Este texto tem uma dupla finalidade. Por um lado, trata-se de ajudar o autor a alinhavar algumas idéias caso sua proposta de apresentação seja aceita no GT “comunicação e Cibercultura” do próximo encontro da Compós.  Por outro, pretende-se oferecer aos três leitores do blog a oportunidade de uma espiada indiscreta nos complexos e abstrusos abismos da interioridade mental deste que aqui escreve.  Serve, assim, como uma espécie de cautionary tale: “viram como ele raciocina?  Agora façam exatamente o contrário, para seu próprio bem!”  Na academia, no fim das contas, a única coisa que vale a pena é a honestidade intelectual.  Se não podemos dizer o que pensamos e do jeito que queremos não vela a pena seguir em frente. Então vamos lá:

Se para Baudrillard, o “crime perfeito” é a subtração do real pelo seu duplo midiático (sem que ninguém se dê conta ou se preocupe com isso), devemos à cibercultura a segunda ofensa mais bem perpetrada: o seqüestro da história nos discursos da novidade radical que povoam os trabalhos de divulgação sobre as “novas” tecnologias.  Sim, essa nobre e idosa senhora foi abduzida sem que sequer tivéssemos o direito de pagar seu resgate.  Em certo sentido, paradoxalmente, poderíamos dizer que tal subtração do histórico faz parte da dinâmica interna da própria história da mídia.  Em outras palavras, desde pelo menos o alvorecer da modernidade, é característico do processo da inovação e transformação tecnológica uma política de terra arrasada em relação ao passado.  A permanência (e “renovação”) do novo implica certo mecanismo de permanente amnésia intencional.  Mas teríamos de falar ainda em um segundo nível desse seqüestro, agora na esfera dos discursos.  Se os meios estão sempre “remediando” as mídias anteriores, como querem Bolter e Grusin, estão também assimilando-as segundo uma lógica que freqüentemente nos impede inclusive de enxergar o antigo no novo.  E as apreensões teóricas e populares a respeito dessa vida dos meios não fazem mais que duplicar – e amplificar – tal procedimento.  É um pouco como os Borg costumam fazer com as outras formas de vida no seriado Star Trek: Next Generation: “we will add the biological and technological distinctiveness of your species to our own” (não é curioso que essa retomada da franquia tenha as palavras “próxima geração” acrescentadas ao título?  Adriana, valeu pela lembrança dessa maravilhosa frase dos Borg!).  E isso a tal ponto que já não se possa identificar o que existe de “alienígena” no coletivo Borg. Sem dúvida que essa abdução da história é muito mais dramática no campo da literatura de divulgação.  Vejamos alguns exemplos dessa retórica em títulos de obras recentes:

“YouTube e a Revolução Digital: como o maior Fenômeno da Cultura Participativa está transformando a Mídia e a Sociedade”; “Socialnomics: como as Mídias Sociais transformam nossas Vidas e a Forma como fazemos Negócios”; “Wikinomics: como a Colaboração de Massa muda Tudo”.

Certo, trata-se de casos extremos, mas eles são sintomáticos.  Não se fala deste ou daquele domínio específicos que as novas mídias irão revolucionar.  Fala-se do universo inteiro.  A colaboração de massa “muda tudo”!  O passado já não existe quando não sobre nenhum resto para observarmos.  Como diria (como disse) Benjamin, um impiedoso vento sopra intermitentemente empurrando o Anjo da história em direção a um futuro inexorável, a um progresso implacável.  Não é possível voltar atrás, não é possível virar o rosto para as ruínas abandonadas às nossas costas.

Mas o que especificamente fascina nessa retórica? A combinação de um discurso prescritivo e “didático” com o radical esquecimento da história.  O leitor desses manuais deve ser levado a crer piamente que o YouTube irá virar o universo de ponta-cabeça sem jamais correr o risco de desaparecer numa nuvem de fumaça, como sucedeu com o Second Life, por exemplo.  Ah, triste destino do pesquisador da cibercultura que escolha com tanta paixão seu objeto, apenas para assistir à sua desintegração radical alguns poucos anos depois!  O que mais me exaspera nesses títulos é a repetição do “como”, que poderíamos traduzir, não sem uma ponta de ironia, claro, do seguinte modo: “pobre leitor inconsciente das vastíssimas conseqüências da revolução digital: permita que nós, sábios compiladores de manuais e marketeiros de plantão, iluminemos sua ignorância com nossos profundos insights”.  Nesse sentido, a repetição do “como” nos permitiria elaborar ainda outro tratado para a cultura digital: “como escrever títulos bombásticos para livros sobre as novas mídias”.

Espero que o leitor perdoe a acidez talvez algo exagerada das linhas acima.  Como apaixonado pelo maravilhoso mundo novo das tecnologias e das mídias, não desejo ser confundido com um apocalíptico ou moralista nos moldes de Andrew Keen (sobre meu emocionante embate com Andrew Keen no Twitter semana passada estarei escrevendo aqui em breve!).  O que proponho, no fim das contas, é simplesmente devolver à cibercultura aquilo que lhe foi roubado tanto no campo das apreensões populares quanto dos juízos críticos: a densidade histórica e temporal.  A bem da verdade, é preciso reconhecer que nos últimos anos têm se multiplicado exponencialmente as obras que exploram com competência a história da mídia e recuperam arqueologicamente os cenários tecno-culturais do passado.  E é precisamente a respeito desse interesse recente pela dimensão história das dinâmicas tecnológicas que pretendo falar na Compós.  Para ser mais específico, o objetivo, bem modesto, é apresentar um panorama do pensamento de matriz alemã, cujo traço mais singular é provavelmente essa sensibilidade ao tema da história e aos procedimentos arqueológicos.  Em alguns desses autores, inclusive, já nem se trata exatamente de uma “arqueologia”, mas sim de sugerir uma “(an)arqueologia” da mídia, buscando o novo no antigo em vez de procurar o antigo no novo (Zielinski).  Essa proposta interessantíssima consiste, no fundo, em encontrar momentos passados que possam ser colocados num estado de tensão criativa com o presente.  Em última instância, acredito que essa atenção ao histórico nos permitirá adquirir um distanciamento importante em relação ao presente, deixando para trás o que talvez seja, ainda, a infância da cibercultura.  E que criança chorona ela é…

One thought on “Cibercultura e História (?)

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