O Que Pesquisar quer Dizer (III: Teoria ou Empiria?)

Ok, eu falei que iria comentar os comentários da Raquel.  E realmente penso que essa discussão pode desencadear um rico e importante debate.  Então vamos lá…

…As idéias são aquilo que salva os fenômenos (Walter Benjamin)

Minha impressão ao ler o texto de Juremir foi de uma ponderação bastante equilibrada.  Em nenhum momento eu o vi afirmando que o “campo empírico” não é importante.  Também não consigo ler isso no que escrevi.  Na verdade, nas páginas finais do texto, ele é enfático quanto a tal questão: “precisamos de pesquisas de campo, de pesquisas aplicadas, de teorias e de bons ensaios e reflexões” (p. 81).  Agora, inteiramente diferente é a coisa de renegar o positivismo.  Isso eu renego sem hesitação alguma, e, me parece, o mesmo faria Juremir.  Numa concepção contemporânea da ciência e da produção de conhecimento, não existe espaço para o positivismo, que é tão ou mais datado quanto a ilusão de que a ciência não seja afetada por vetores ideológicos, políticos, econômicos ou culturais.  Isso não significa, infelizmente, que o positivismo esteja realmente morto.  Em seu artigo “The Much Exaggerated Death of Positivism”, Joe L. Kincheloe e Kenneth Tobin demonstram como ele insiste em esconder-se subterraneamente por detrás de muito da scholarship e da filosofia que embasam boa parte de nossa produção de saber – ainda que à luz do dia ninguém se atreva a considerá-lo como algo mais que uma epistemologia desacreditada.  O positivismo é um pouco como aqueles zumbis dos filmes de George Romero, que por vezes até imitam o comportamento “normal” dos vivos, mas na hora H querem mesmo é devorar apetitosos cérebros (de pesquisadores?).  Outra coisa contra a qual me parece importante resistir é a idéia de que os procedimentos epistemológicos das Ciências Humanas tenham que ser decalcados das Ciências Duras (se é que hoje ainda podemos dizer que elas continuam tão “duras”).  Assim como o positivismo não tem nada a ver, necessariamente, com metodologia, nós precisamos entender que não dá para misturar bananas com maçãs (se bem que numa salada de frutas até que caem bem).  Aqui no Brasil, existe uma histeria enorme em definir o que “é próprio do campo da comunicação”.  Ora, por que essa histeria não se preocupa também em definir o que é próprio às Ciências Humanas?  Se livros como o de Juremir têm sentido (vejam bem: refiro-me ao nosso contexto intelectual, pois não cheguei a ver nada parecido com isso nos outros ambientes acadêmicos com que tive contato, nos EUA ou na Europa), é precisamente por que existe uma tendência por aqui de tecnicizar o pensamento, a colocar as ciências “nobres” como modelos absolutos a serem imitados.  Isso também não significa desqualificar a empiria em qualquer campo do conhecimento. E, afinal, lembremos que a matemática é uma ciência formal.  Mas o fato de que ela não possui “conteúdo empírico” não significa que não tenha relação alguma com o mundo.  Se o livro de Juremir ironiza o excesso de metodologia, em nenhum momento ele afirma que tenhamos simplesmente que lançá-la nas latas de lixo da história.  O que precisamos, e isso deve ser visível para quem tenha alguma vivência dos embates acadêmicos neste país (especialmente no campo da comunicação), é adotar uma atitude que não seja a da simples servidão ao metodologismo vazio.  É claro que os bons trabalhos teóricos nunca se encontram em um “céu platônico” das idéias.  Existem inúmeros exemplos de textos sem nenhum referencial direto na empiria e que, contudo, estão muito mais amparados no real do que vários estudos empíricos.  Até porque acreditar na empiria em uma forma pura incorreria em um outro equívoco filosófico: o de admitir a existência de uma “coisa-em-si” à qual poderíamos ter acesso se fizéssemos bastante força.  Mas não adianta: posso olhar o quanto queira para o telefone em cima da minha mesa que ele nunca vai chegar a ser, simplesmente, unicamente e objetivamente, um “telefone”.  Porque o telefone puro, sem nenhuma sobredeterminação simbólica, simplesmente não existe (ou pelo menos não existe para nós). Um bom ensaio, um bom texto teórico oferecem um olhar diferenciado e  inovador, contribuindo para uma melhor perpeção do “real”. No próprio livro de Raquel, Redes Sociais na Internet (Sulina: 2009), não encontrei nenhuma pesquisa empírica de base, mas sim uma competente compilação bibliográfica com referenciais, em sua maioria, teóricos.  Nem por isso eu diria que sua contribuição ao crescimento do campo da comunicação é menor.  Aliás, como diz o Juremir em seu livro e como também venho dizendo há muitos anos, está mais que na hora de a gente admitir que pelo menos 80% dos referenciais que usamos em comunicação são autores estrangeiros que não fazem pesquisa aplicada.  Esse fato, facílimo de ser constatado, me deixa ainda mais intrigado. Por que existe tanta resistência contra o ensaio e as pesquisas “não aplicadas” quando todos nós sabemos que, no fundo, é exatamente isso o que nós mais fazemos na prática?  Mas é claro que também temos excelentes pesquisas com uso inteligente de metodologias de diferentes naturezas e ancoragem empírica: são aqueles em que os dados passam pelo cunho de um olhar teórico capaz de fazê-los dizer alguma coisa efetivamente interessante.  Os trabahos de Simone de Sá são um bom exemplo disso.  Exatamente, claro, por que não se limitam a enumerar curiosidades empíricas, mas refletem sobre elas, dão-lhes uma armadura teórica.  Eu acho invejável esse talento que alguns pesquisadores têm para a pesquisa aplicada, mas nem todos nós temos essa inclinação ou vocação.  O que me preocupa é a ameaça de uma burocratização do pensamento que queira uniformizar pesquisas e pesquisadores com base em critérios artificiais – e  que diga: “ou você suja as mãos na empiria ou perde o contato com o real”.   Acho que o maior medo que deve ter um pesquisador é perder a paixão por seu objeto, cair no conto do vigário da “neutralidade”.  Como diz Zielinski,“uma pesquisa que também não é movida por desejos e esperanças pertence ao Hades da academia; é anêmica e sem vida” (2005: p. 9).  Para Zielisnki, aliás, pensadores do risco, como Vilém Flusser, se inscrevem na linhagem de figuras que, como Della Porta e Kircher, constróem uma reflexão situada na tensão entre curiositas e necessitas: “Para a academia estabelecida, seu pensamento, caracterizado por saltos mentais entre as disciplinas, é inaceitável mesmo hoje” (2006: p. 97).  Eu entendo as objeções oportunas de Raquel, mas considero mais importantes, no contexto em que nos situamos aqui, as advertências de Juremir.  Nenhum bom trabalho, por mais teórico ou por mais distante que esteja da empiria, seria condenado ao “céu platônico das idéias”.  Efetivamente, provavelmente deveríamos dizer que Platão era na realidade um realista (perdoem-me o trocadilho); ou melhor, um realista ideal ontológico: o topos ouranos, para ele, era a realidade que o mundo sensível traía com suas imperfeições.  Aqueles que apreciam os caminhos amplos, as especulações teóricas, a reflexão do risco não têm nada a temer se operarem com o devido rigor (e, reelaborando o que eu disse anteriormente, afirmo: o rigor nada tem a ver com a opção pela empiria).  Por outro lado, a pesquisa que se limita a coletar dados, arrolar exemplos e oferecer números corre sempre um risco que não é pequeno nem desprezível: o da chatice insuportável.  Aproveito para reproduzir abaixo os comentários do próprio Juremir à discussão que temos travado aqui.  Como se vê, nada contra a boa empiria…

“Gostei muito da resenha do Erick. Também achei interessante o comentário da Raquel Recuero. Aproveito para dizer que não faço uma crítica ao empírico. Ao contrário. Sou um fã do trabalho de campo. A minha crítica ao positivismo não passa por apologia do meramente teórico. Não creio que o problema do positivismo esteja na oposição empírico/teórico. Também, como o Erick bem destacou, não defendo a abolição das regras. Eu faço uma discussão sobre o absurdo de certas regras e sobre o engessamento que pode ser provocado pelo efeito perverso do metodologismo. Abraços”. Juremir

O que Pesquisar quer Dizer (Continuando o Debate)

Recebi um comentário da querida Raquel Recuero em relação à minha resenha do livro de Juremir e, como considero essa discussão importante, reproduzo todo o comentário abaixo.  Pretendo rapidamente respondê-lo aqui, mas, enquanto isso, a meia dúzia de leitores que freqüentam este blog podem acompanhar as críticas de Raquel.  Tenho impressão de que isso vai dar um bom debate.

[p.s: por que todo mundo sempre omite o “k” do meu “Erick”?  Eu gosto de fantasiar que ele faz parte da minha identificação com o eterno personagem Kafkiano (K), que inisite em tentar extrair algum sentido do mundo, mas acaba sempre levando na cabeça.  Como dizia Kafka, “existe bastante salvação no mundo, mas não para nós…”]

“Oi Eric! Ainda não li o livro do Juremir, mas minha tendência é disconcordar – parcialmente- de ti. Acho que fazer pesquisa é uma caminhada e testar métodos uma forma de se aprender. Não acho que renegar o positivismo seja um caminho inteiramente “positivo” se me permites a redundância, especialmente para quem começa a entender a pesquisa; acho que entender que o campo empírico é importante também é relevante, mesmo para um pesquisador de ciências humanos. Mas nem tanto ao céu e nem tanto à terra: Obviamente que a reflexão e a teorização são igualmente importantes. Nem um, nem o outro, do meu ponto de vista, são superiores. É preciso que ambos coexistam para que o campo e a ciência (ou a filosofia) avancem. Meu problema é com o perigo do discurso “antimetodologico” como regra, especialmente para quem começa a caminhar no campo. É preciso sim, valorizar a reflexão, mas também ancorar a mesma na observação do mundo empírico e não unicamente “no mundo das idéias”, sob o risco de se fazer unicamente uma “pesquisa platônica”, que enxerga apenas um mundo ideal, distante da realidade empírica. Uma síntese, assim, que fale tanto ao mundo quanto à mente parece-me necessária.
Embora a intenção do Juremir, parece-me, seja a saudável crítica do empiricismo sem reflexão, creio que a reflexão em o empiricismo é igualmente complicada. No entanto, vai muita lenha na fogueira ainda, na discussão do livro. De fato, a própria proposta de uma “antimetodologia”, seguida por um “como fazer” já é, em si, uma contradição repleta de uma ironia fina. Lerei e depois comentarei também no meu blog. Essa é uma discussão que precisa ir adiante. 🙂
Nesse sentido, a própria Grounded Theory é quase uma “antimetodologia”

O que Pesquisar quer Dizer…

Acabei de ler “O que Pesquisar quer dizer: como Pesquisar e Escrever Textos Acadêmicos sem Medo da ABNT e da CAPES”, do amigo Juremir Machado da Silva.  Como tudo mais que já li do autor, o texto é fluente, leve, claro, divertido e polêmico (muito menos, porém, do que eu esperava).  Entretanto, não pude evitar a impressão de que o título final da obra é algo enganoso, e não sei se o próprio Juremir está plenamente consciente disso – mas é provável que sim; afinal, ele também é um grande pândego.  O livro não nos ensina, exatamente, como escrever textos acadêmicos sem medo da ABNT ou da Capes.  Aliás, isso é algo que não pode ser ensinado. O certo é que aprender a escrever sem receio da Capes ou da ABNT pode signficar duas coisas: ou o sujeito se resigna a entrar na forma e seguir os modelos do “bem dizer” acadêmico – conforme, por exemplo, em meu jocoso post “Os Segredos de Sucesso da Vida Acadêmica” – ou ele simplesmente abandona tal preocupação por que é movido por algo maior.  E realmente, essa segunda opção (com cereza, a que Juremir tinha em mente) não é algo que se aprenda.  Não há um “como” para isso.  Mesma sutileza encontramos na frase “O que Pesquisar quer Dizer”, pois inicialmente ela nos leva a crer que exista apenas um sentido para a atividade do pesquisador.  Na verdade, à medida que avançamos na leitura, o texto desfaz elegantemente esse possível equívoco interpretativo.  Pesquisar pode significar muitas coisas diferentes, nenhuma necessariamente superior às outras.  Acima de tudo, porém, devemos entrar nesse livro sem a falsa impressão de estarmos lendo um “manual” (a versão original do título era ainda mais irônica, pois como seria possível produzir um “manual de antimetodologia”?).  Para mim, trata-se de um reflexão pessoal sobre a vida acadêmica e a aventura de pensar, sapicada por algumas considerações a respeito de nosso contexto local – e esta é apenas a minha leitura, tão possivelmente equivocada como tantas outras.  Não concordo com todas as posições de Juremir no livro, mas subscrevo inteiramente sua tese de fundo: o excesso de metodologia, a sedução do positivismo são perigosos para a saúde do pensamento.  Acreditar numa ciência absolutamente pura e no poder messiânico das metodologias é cair numa armadilha mitológica.  É erigir novamente, como fizeram os Iluministas, um altar à Deusa-Razão.  A idéia de se usar Heidegger como guia para uma exploração sobre o ato de pesquisar presta homenagem àquilo que, no pensamento, corresponde às dimensões do risco e da criação.  Um leitor mais apegado às minúcias e às regras de “correção” do texto acadêmico poderia, certamente, escandalizar-se.  Pois, afinal, em “Die Frage nach der Technik”, Heidegger não procurar indicar qualquer espécie de procedimento para a pesquisa, mas sim um “caminho do pensamento” (Weg des Denkens), ou seja, um filosofar.  A única vez que a palavra “Forschung” (pesquisa) aparece no texto é em um sentido algo negativizado (…die Natur als einen Gegenstand der Forschung anzugehen, bis auch der Gegenstand in das Gegenstandlose des Bestandes verschwindet).  Mas uma leitura desse tipo seria completamente superficial, pois aqui não se trata de ser rigorosamente fiel ao autor, mas sim apropriar-se dele, seqüestrar uma palavra, um conceito, um argumento em benefício de outro horizonte de reflexão.  É precisamente contra esse tipo de leitura tacanha que a obra se dirige.  De todo modo, o livro presta um valioso serviço, especialmente para os jovens pesquisadores, ao desmontar alguns dos ídolos mais assustadores de nosso mundo acadêmico.  As regras da ABNT já não parecem tão imponentes quando percebemos que, efetivamente, a entidade “muda de regras como quem muda de camisa” (p.78).  Mas o que se pode esperar desse monumento da burocracia brasileira quando ele inventa que agora todo o país tem que adotar um “novo” tipo de tomada que não se encontra em lugar algum?  A bem da verdade, eu não conheço nenhum pesquisador que, ao participar de uma banca, fique procurando as incoerências do mestrando ou doutorando em relação às normas da ABNT.  Imagino que existam alguns, afinal, não há escassez de gente cri-cri neste país.  Mas se o cara escreve, pensa e pesquisa bem, pouco me importa se ele usa vígula quando supostamente deveria usar dois pontos (eu confesso: mal conheço as regras da ABNT e se conhecesse, provavelmente continuaria a não utilizá-las).  Pesquisar é tomar riscos, é buscar a verdade, é desencobrir, como diz Juremir – uma verdade sempre provisória, claro, mas nem por isso menos verdadeira.  Certamente não é tentar encaixar o pensamento em estantes que a Capes, a ABNT ou o Papa aprovariam.  Uso a palavra “estante”, inclusive, pois é um dos sentidos que o termo alemão usado por Heidegger – Gestell – possui.  Um pensamento emoldurado, como uma bela lombada de livro que apenas ocupa espaço em uma estante não vale sequer o papel em que foi transcrito.  Em seu didatismo, lucidez e modéstia, o pequeno ensaio de Juremir Machado aponta claramente o que talvez seja o maior drama enfrentado pela pesquisa na área de comunicação no Brasil: o estreitamento dos horizontes do pensar, o disciplinarismo exagerado.  Por aqui, muita gente confunde rigor com estreiteza de olhar, com empiria, com disciplinarização.  No fundo, trata-se de uma tendência à tecnificação das Ciências Humanas, que, por inveja das chamadas “ciências duras”, não se conforma com o oceano de incertezas em que navegamos no domínio das Humanidades.  Quando o pesquisador almeja alçar vôos um pouco mais amplos, ele é freqüentemente visto com desconfiança, como pouco “científico”.  E o mais paradoxal nisso tudo é que nós sequer lemos atentamente uns aos outros.  Nos últimos dias, tenho notado, com grande alívio, que ninguém jamais leu nada do que escrevi, pois quando digo que pretendo fazer um pós-doutorado na Alemanha sempre me perguntam: “você fala alemão?” – desconsiderando completamente o fato de que meus trabalhos estão recheados de referências alemães.  Já percebi, também, que alguns colegas de outros estados enxergam o Rio de Janeiro como templo de uma religião órfica dedicada às divindades de Deleuze e Foucault.  Talvez por efeito de nossas maravilhosas e ensolaradas praias, nos vêem como nefelibatas com as cabeças nas nuves, repetinado mantras derridianos e louvores ao rizoma.  Eu não seria um bom exemplo, pois sofro da patologia inversa: só me interessam os mais obscuros, aqueles que ninguém conhece ou leu, aqueles que estão perdidos nas prateleiras mais escondidas das bibliotecas mais inacessíveis.  Sim, eu sei que é patológico, mas que posso fazer?  Quando passo mais de um mês sem descobrir um novo desconhecido tenho crises de abstinência… Por outro lado, tenho grande apreciação por autores como Deleuze e Foulcault, exceto, talvez, o fato de que realmente são citados por toda “a torcida do Flamengo” (p. 47).  Meu mestrado na Escola de Comunicação da UFRJ, que durante muito tempo foi acusada de “indisciplinar”, “sem foco” e “sem rigor”, foi sem dúvida alguma um dos momentos mais ricos da minha vida intelectual.  Ok, Foucault ali é quase um evangelho, mas foi também lá que descobri Julian Jaynes, Gilbert Durand, Segalen, Cioran e muitos outros.  Sim, como diz o espirituoso Juremir, a Capes não é a Inquisição, a Capes somos nós.  E é fato que grandes conquistas foram feitas no sistema da pós-graduação no Brasil graças a determinados parâmetros e diretrizes da avaliação da Capes.  Contudo, esse mérito não deve nos impedir de enxergar aquele outro perigo sempre presente: a formatação das pesquisas e dos textos acadêmicas segundo uma concepção de saber chancelada por instâncias de autoridade que sufocam o pensamento e amarram os pesquisadores.  E mesmo as entidades que contam com grandes luminares da academia pode cometer graves equívocos.  É sem dúvida o caso do “Qualis livro”, que, ao que tudo indica, está condenado ao mais fragoroso fracasso. Ele talvez seja, no fim das contas, a maior prova de que não se pode aplicar indistintamente os mesmos critérios de julgamento às ciências do homem e às ciências da natureza.  Nesse domínio, que os alemães traduzem com a expressão Geisteswissenschaften (“ciências do espírito”), temos sempre de nos defrontar com esta pergunta fundamental: como pode ser ciência aquilo que estuda o espírito, que interpreta, que se nutre da ambigüidade?  Há alguns anos atrás, ao procurar numa grande livraria uma tradução então recente da Fenomenologia do Espírito de Hegel, o balconista gentilmente me indicou: “olha, eu não tenho certeza se temos, mas esta semana chegaram vários livros novos na seção de espiritismo” .  Essa inocente confusão é também sintomática do tipo de risco que temos que assumir nas ciências humanas.  Nossos colegas dos outros campos nos encaram com desconfiança, perguntando se o que fazemos é de fato ciência.  Será que nós mesmos teremos sempre que viver sob o temor dessa terrível dúvida?  Ou aprenderemos também a desconfiar das próprias pretensões da empertigada ciência?