O Pensamento das Margens

Motivado pelo comentário de Danielle Naves ao meu post anterior, deu-me na telha agora discutir a idéia de um pensamento das margens.  Evidentemente, a universidade não é a única (quiçá sequer prioritária) instância de produção de conhecimento de uma sociedade.  No campo das Ciências Humanas, não faltam exemplos de pensadores fortes que se mantiveram alheios ao ambiente acadêmico.  Danielle citou o caso de Flusser, que ainda hoje, pelo menos no Brasil, não chegou a ser totalmente “institucionalizado” e “chancelado” pelo bom pensar universitário.  A inserção de um autor nesse campo discursivo exigiria, antes de tudo, a possibilidade de classificá-lo em alguma categoria já estabelecida.  O problema é que o pensamento de Flusser é inclassificável.  Ele recusa veementemente sua domesticação por meio dos tradicionais mecanismos da discursividade acadêmica.  Quando a nossa maior preocupação é saber o que é “próprio” da comunicação, inviabilizamos a possibilidade de tomar Flusser como um representante do pensamento comunicacional – já que a “impropriedade” é um traço constitutivo da reflexão flusseriana.  O que constitui, então, um pensamento das margens?  Trata-se daquela forma de pensar que rasga caminhos em trilhas inexploradas, nos interstícios dos saberes e dos fazeres.  Sua instabilidade é constitutiva e produtiva.  Existe em fluxo permanente e sequer tem receio de contradizer-se, o que é escândalo para as pedagogias tradicionais.  E de fato, o maior perigo para um pensamento dessa natureza é ser chancelado sem reservas.  Ou seja, as análises que simplesmente prestam homenagem a Flusser e outros da mesma estirpe não lhes fazem justiça de modo algum.  A única maneira de reverenciar tal forma do pensar é se colocando em tensão a esta, do mesmo modo que ela tensiona suas conexões com as manifestações institucionais do conhecimento.  Há muito que se questionar no pensamento de Flusser, assim como há muito ainda a explorar em seu cosmos.  Isso porque o pensamento das margens, mais que qualquer outro, não se revela nunca inteiramente ao primeiro olhar.  Na verdade, é um pouco como um caleidoscópio que altera suas configurações a partir do ângulo em que o observamos.  Isso também não significa, necessariamente, que o pensamento das margens é superior ao pensar institucionalizado.  Ele simplesmente cumpre esse papel de distensão de que todo sistema necessita, caso não queira caducar e enrijecer-se por inteiro.  Ele abre clareiras, ele constitui Holzwege, sem os quais nos tornaríamos certinhos e chatos demais.  Tomemos, por exemplo, o campo da cibercultura e analisemos três de suas formas mentais definidoras: a abordagem tecnicista, o olhar antropológigo-sociológico e a perspectiva filosófica.  A primeira, em sua forma pura, interessa-me muito pouco.  Ainda que eu seja um dos atormentados pela paixão dos gadgets, não consigo encontrar entusiasmo em descrições de interfaces ou enumerações de dados técnicos.  A segunda me oferece uma perspectiva simbólica que, ainda insuficiente, enriquece o olhar analítico sobre o fenômeno tecnológico.  A terceira abre o pensar a riscos maiores e apostas mais amplas.  Contudo, nenhuma das três me parece tão interessante quanto aquilo que se esgueira entre os espaços predefinidos e cria conexões inesperadas.  Pensemos nas “veredas” de Guimarães Rosa, aquelas regiões úmidas em torno de córregos ou riachos onde crescem os buritis.  O encontro do seco do sertão com o úmido das veredas produz vida e renovação, em um processo que o escritor definiria como alquímico.  É nesse sentido que vejo também em Friedrich Kittler um pensamento das margens, sedutor ao mesmo tempo que incômodo.  Sim, Kittler corre riscos demais e possivelmente também recai em numerosos equívocos.  Mas nas intercessões que produz entre o tecnológico, o cultural e o filosófico, sua reflexão alça vôos que escapam da trivialidade do institucional.  Suas frases de efeito, como os aforismos baudrillardianos, nunca devem ser tomadas ao pé da letra.  Suas boutades devem ser encaradas com olhar de desconfiança.  Mas é com esse estilo singular e com os seus encontros inesperados que Kittler consegue topar com suas margens.  Para retomar a referência a Rosa, trata-se, em tais pensadores, de buscar continuamente a “terceira margem do rio”.  Que nossos pesquisadores de comunicação e nossos programas de pós-graduação possam aprender com a porosidade dos Flussers e dos Kittlers, que nos fascinam com sua estranheza e incoformidade.

p.s: para fazer juz a sua fama, Kittler não apareceu no primeiro dia de seu seminário no Hermann von Helmholtz -Zentrum für Kulturtechnik…

Pesquisar é preciso, viver…

Desde o início, decidi que este não seria um “blog de pesquisa” no sentido (já) tradicional do termo.  Minha intenção era criar algo diferente, fundamentalmente inclassificável, em conformidade com a proposta de produzir outro tipo de saber e outras formas de discurso acadêmico.  Não se trata de rebeldia gratuita, nem da absurda pretensão de fazer algo “novo”, especialmente tendo em vista o radical esgotamento dessa categoria.  Trata-se, tão somente, de ser coerente com aquilo em que acredito.  Por exemplo (o que pode ser motivo de escândalo para muitos): a impossibilidade de se separar nitidamente o pesquisador de seu objeto. Daí a razão de favorecer o gênero ensaístico em primeira pessoa. Por outro lado, também almejei estabelecer um espaço, digamos, “terapêutico”, no qual o gesto escritural ajudaria a lidar com as inquietações identitárias e profissionais.  No Brasil, especialmente (mas não apenas lá), o intelectual acadêmico tem razões de sobra para se atormentar continuamente com os temas de seu ofício e de seu “papel” no seio da sociedade.   Por isso, naturalmente, retorno com tanta insistência à questão da definição da vida intelectual.  O ideal de vida que a língua inglesa traduz com perfeição na expressão “scholar” e o alemão (com entonação mais dura), com o termo “Wissenschaftler” parece atrair cada vez menos gente.  Hoje existem muitas boas razões para se tornar professor e pesquisador, mas poucas delas sustentadas por um legítimo amor ao conhecimento.  E não me refiro apenas ao tema da hiper-especialização, já abordado aqui algumas vezes.  Ocorre que a profissão perdeu o sentido espiritual que tinha, por exemplo, na Idade Média, quando os intelectuais eram clérigos tonsurados, que perdiam suas posições caso decidissem se casar.  Evidentemente – podem tranqüilizar-se! – não é o caso de se exigir celibato dos candidatos à docência, mas talvez devêssemos pensar em alguma espécie de “vestibular do espírito” para professores.  O certo é que todos os grandes mestres (e freqüentemente também os grandes pesquisadores) apresentam esse traço da paixão obsessiva e irrestrita pelo saber.  Em Das Universum der Dinge, zur Ästhetik des Alltäglichen, Konrad Liessmann observa que os filósofos pouco ou nada se preocuparam com o banal, com o cotidiano, com as coisas da realidade ordinária. Um luxo só desfrutável por aqueles que crêem poder desprezar altivamente a crua realidade.  Esse equívoco é contrabalançado, porém, por outro igualmente pernicioso: o daqueles que pensam existir uma tal realidade sem qualquer espécie de sobredeterminação simbólica.  Digamo-lo claramente: é impossível considerar o insignificante sem atravessar simultaneamente as grandes questões da existência. Deus está nos detalhes. A glória de um escritor como Borges talvez tenha sido precisamente conjugar essas duas esferas tão aparentemente incompatíveis.  Um jogo de truco ou uma parede rosada são os portais por onde a metafísica e a reflexão filosofal penetram na dura argamassa da realidade cotidiana.  Mesmo nessa recente e fascinante retomada do interesse filosófico pelos objetos (penso em autores como Graham Harman, Bruno Latour ou Steven Shaviro), que agora parecem nos falar em sua mais pura materialidade, a presença humana e o sentido deixam alguma marca reconhecível.  Defender o cotidiano, louvar o banal não são, portanto, atitudes incompatíveis com uma postura teórica e filosófica.  Enquanto congelo no frio alemão e leio autores obscuros e abstrusos, deparo-me constantemente com questões de ordem prática, institucional e operacional.  Preciso escrever projetos, publicar textos, dar pareceres, organizar seminários, preencher relatórios.  Enfim, faço parte de uma engrenagem que, ao mesmo tempo que nos dá um sentido de realidade bruta, precisa ser ocasionalmente perturbada, de modo que não se congele em suas premissas, tornando-se dogmaticamente a única realidade.  Li recentemente em um blog que a “boa teoria” é aquela que combate o relativismo e não nega o império da “objetividade”, pecados cometidos por todos aqueles “autores pós-modernos” da moda, como Latour, Foucault, Deleuze e tutti quanti.  Ora, isso que o blogueiro chama de irracionalismo contemporâneo eu chamaria de lucidez desencantada.  Sim, o pós-moderno é época de misticismo e mistificação, mas também, paradoxalmente, de dissipação daqueles outros fantasmas que o racionalismo exacerbado do Iluminismo engendrou.  Não há razão que não corra o risco de ser assolada pelo mito, como os frankfurtianos já haviam notado  há muito tempo (seriam eles, também, “pós-modernos” avant la lettre?).  Não há ciência que não esteja de algum modo em diálogo com o imaginário, como proclamou, também há um bom tempo, Gaston Bachelard (outro cripto-pós-moderno?).  De fato, não se trata e nunca se tratou de opor teoria e prática, o cotidiano e o filosófico.  Trata-se, antes, de convidá-los a dançar uma boa valsa (ou forró, se o leitor tiver preferências regionais).  O autor do libelo anti-pós-moderno chega a extravasar seus arroubos apocalípticos afirmando que as Humanidades estariam “mergulhadas em profunda crise desde o final dos anos 60”.  Bem pode ser que elas estejam, mas afinal de contas, o que é que hoje não está em crise, do jornalismo à economia e ao algodão doce?  Em meio ao meu fascínio com os autores “pós-modernos” e os mais variados “irracionalistas”, tenho pelo menos um traço moderno capaz de me redimir: a crença antiquada no valor transformador e libertário do conhecimento.  Aliás, não será esse, na verdade, um traço pré-moderno??? (gnothi seauthon).  Essas categorias históricas freqüentemente me confundem!  Afinal, já se chegou a dizer, do Orlando Furioso (Ariosto, 1532), que se trata de texto pós-moderno… O resumo da história é que o intelectual acadêmico talvez não necessite se atormentar tanto com as questões identitárias e as indagações sobre seu lócus na sociedade.  Se o que produz não tem aplicação prática, talvez seja porque a cultura necessita de esferas completamente alheias à noção de pragmatismo.  Se o que afirma parece chocar-se com a realidade, talvez seja porque a realidade, em seu extremo pudor, jamais se deixa definir como o que se apresenta à primeira vista.  Mas pode ser ainda que apenas uma crença de ordem espiritual lhe permita alcançar um estado ideal de paz e quietude interior.  O mundo não é tão objetivo e as teorias não são tão abstratas.  A ciência não é tão precisa e a imaginação não é tão desvairada.  Nós precisamos de pessoas que ensinem e escrevam simplesmente porque gostam de ensinar e escrever.

Coisas de que (definitivamente) não gosto na Alemanha

Para relaxar um pouco, eis uma pequena lista de pequenos incômodos da vida na Alemanha:

1. Por que razão os travesseiros têm sempre que ser irrtantemente moles e finos?

2. Refrigerante em restaurante é um copo de amostra grátis

3. Por que tanta gente dispensa cortinas nos apartamentos?

4. Sabão em pó tinha que ser tão caro?

5. Por que os números de um lado da rua aumentam e do outro diminuem?

6 Por que existem verbos separáveis?

7. Por que é tão difícil achar um shopping-center?

Kittler e o “sich”

Friedrich Kittler é um autor essencial à proposta de pesquisa sobre a teoria da mídia alemã.  Este semestre ele dá um curso no Hermann von Helmholtz Zentrum da Universität Humboldt, e seria interessnte poder acompanhá-lo.  Enquanto isso, avançando na leitura de Friedrich Kittler: zur Einfuhrüng, encontro a seguinte anedota: Em 1933, Adorno sugere a seus colegas do Instituto de Pesquisa Social uma aposta divertida.  Trata-se de uma competição para ver quem consegue colocar o reflexivo “sich”(“se”) mais perto do final de uma sentença.  O vencedor, naturalmente, é Adorno, com a frase: “Das unpersönliche Reflexivum erweist in der Tat noch zu Zeiten des Ohnmacht wie der Barbarei als Kulminationspunkt und integrales Kriterium Kritischer Theorie sich“.  A partir dessa anedota, e para reforçar sua posição anti-adorniana, Kittler decide se “proibir” de usar a palavra “sich” (“An dem Gebrauch oder Nicht-Gebrauch des Wortes ‘sich’ hing der ganze Adornismus!”).  Essa peculiaridade – seria como em português a gente falar “ele machucou” em vez de “ele se machucou” (como, aliás, as crianças costumam fazer) – compõe apenas uma pequena parte do singular estilo de Kittler, cujo linguajar já ganhou até uma palavra especial para defini-lo: “Kittlerdeustch” (“alemão de Kittler”).  Vale ou não vale a pena estudar um cara tão doido??

Pesquisar na Alemanha: uma Odisséia Burocrática em Capítulos

Há um bom tempo eu havia prometido um post sobre o processo burocrático/acadêmico referente a estudos no exterior.  Isso pode não ter relação direta com a pesquisa, mas não se trata de assunto gratuito.  Afinal, se não fosse pela bolsa de pós-doutorado da Capes eu não estaria agora realizando pesquisa na Alemanha.  Além disso, acredito que um tema como esse seja de “utilidade pública”, já que as informações sobre tais procedimentos são escassas, truncadas ou espalhadas por vários lugares.  Depois de um processo muito longo e doloroso, no qual não pude contar com ajuda efetiva de nenhuma boa alma, encontro-me numa situação relativamente tranqüila para poder dividir minhas experiências com os interessados em fazer estágios de estudo/pesquisa no exterior.  O que vou comentar terá interesse, primeiramente, a todos os que elaboram planos de vir para a Alemanha, mas secundariamente também a todo mundo que tem como alvo a Europa.  No meu caso, trata-se de bolsa de pós-doutorado.  Todavia, alguns procedimentos são iguais ou parecidos aos de quem almeja um doutorado sanduíche ou outras experiências acadêmicas no exterior.  Vamos por etapas:

1.  Tudo começou com a elaboração do projeto e o acompanhamento das datas dos editais para pós-doutorado na Capes e no CNPq.  Naturalmente, isso deve começar a ser planejado com pelo menos um ano de antecedência.  A bem da verdade, eu diria que dois anos de antecedência é o tempo ideal, já que a primeira coisa a fazer será estabelecer contato com um supervisor estrangeiro. No caso da Capes, quem pretende iniciar o estágio em setembro ou outubro deve enviar a papelada no começo do ano.  Se sua intenção for ir para o exterior em janeiro, deve-se cuidar disso entre maio e julho do ano anterior.  Como eu disse acima, antes de qualquer coisa é necessário definir quem será seu supervisor no exterior e entrar em contato com ele.  Se o sujeito for um figurão (caso do Zielisnki, que me supervisiona), pode contar que será um processo longo e demorado, no qual você possivelmente esperará dias ou semanas para ter uma resposta.  Às vezes é necessário ter cara de pau.  Eu saí escrevendo emails para três pesquisadores que me interessavam em três países diferentes (sem nunca ter tido nenhum contato anterior com eles) e, após algumas trocas de mensagens e muita reflexão, decidi pelo Zielinski e pela Alemanha.  O caminho mais fácil teria sido, para mim, os Estados Unidos.  Foi lá que estudei no doutorado, foi lá que travei mais contatos, é lá que vive minha irmã e onde me sinto mais confortável no exterior.  Mas o mais fácil geralmente é também o mais chato.  Desse modo, optei pela Alemanha, onde não conhecia (quase) ninguém e onde a língua era, sem dúvida, a mais difícil.  Se desenvolver uma pesquisa no exterior deve ter desafios, esse era o desafio dos desafios!  Zielinski é uma pessoa extremamente ocupada, mas também muito simpático e acessível. A bem da verdade, uma parte de meus contatos se deu com seu gentilíssimo assistente na Universität der Künste, o Daniel Irrgang (geralmente, as grandes estrelas usam seus assistentes como intermediários desse tipo de correspondência). Depois de alguns emails explicando meus interesses de pesquisa, minha fascinação com sua obra e meu desejo de trabalhar com ele, solicitei o elemento fundamental para o começo do processo: a carta de aceitação e convite.  Nessa carta (pode ser como documento eletrônico, por email), o supervisor deve manifestar seu interesse pela pesquisa do proponente e garantir que a instituição de acolhimento (UdK) oferecerá todas as condições necessárias para o bom desenvolvimento do trabalho.  É importante também que o supervisor confirme o domínio das línguas necessárias por parte do proponente (no meu caso, o inglês e o alemão).  De posse da cartinha (solicitei versões em alemão e inglês), comecei então a juntar os outros documentos exigidos pela Capes (e também, em parte, pelo CNPq): 1.  currículo Lattes, 2. projeto de pesquisa, 3. cópia do diploma de doutorado, 4. cópia dos resumos de cinco produções mais relevantes, 5. duas cartas de recomendação de professores que conhecerem e tiveram significativo contato com o candidato, por exemplo, ex-orientador (parece que agora a Capes passou a só exigir isso para quem tem menos de cinco anos de doutorado), 6. currículo vitae do supervisor estrangeiro e 7. carta da instituição onde você atua (possivelmente escrita pelo diretor da faculdade ou chefe de departamento) manifestando interesse na sua saída para pós-doutorado.  As regras detalhadas estão no site da Capes.  Tudo isso deve ser digitalizado e enviado eletronicamente via um formulário online com trocentas perguntas bizantinas.  Nesse aspecto, o processo via CNPq é muito mais racional e menos trabalhoso, mas a documentação exigida é praticamente a mesma.  Depois de mandar tudo em PDF, basta esperar alguns meses (contando com os atrasos que sempre acontecem) e ir preparando, nesse meio tempo, a papelada para pedido de visto e outras burocracias de viagem.  Mesmo que bolsa não saia, esse também é um processo longo e demorado, que você deve iniciar logo no começo, mesmo sem resposta da Capes e do CNPq;

2. Ok, a bolsa saiu e você está dando pulos de alegria!  E agora?  A desagradável visita ao Consulado do país onde será desenvolvida a pesquisa.  A bem da verdade, devo dizer que minha experiência no Consulado da Alemanha foi muito boa.  Todas as vezes que fui lá fui extremamente bem tratado e atendido com gentileza.  Contudo, existe um problema: não sei se é porque eles já se “adaptaram” à cultura brasileira, mas o fato é que ninguém conseguia me dar uma informação precisa.  Até mesmo o site do consulado oferecia informações contraditórias ou ambíguas.  Mas isso é um problema geral de toda instituição burocrática, creio.  A confusão era compensada pela boa vontade.  A maior dúvida levou várias semanas para ser esclarecida: eu preciso ou não de um visto antes de ir para a Alemanha caso eu queira estudar ou pesquisar lá?  A cada visita ou telefonema me diziam uma coisa diferente.  Finalmente me recomendaram que eu tirasse, sim, o tal visto.  Como nenhuma resposta me satisfazia, cheguei a ligar para o consulado de São Paulo e lá, pasmem, a resposta foi outra: a pessoa me garantiu que eles NÃO emitem em nenhuma hipótese esses vistos para brasileiros, já que eles não são necessários.  Mas então, afinal, qual é a resposta certa?  Depois de meses vasculhando a internet e lendo sites em português, inglês e alemão, eu diria que a resposta certa é SIM E NÃO.  Explico: de fato, a Alemanha tem um acordo com o Brasil e alguns outros países que permite a uma pessoa entrar como turista (brasileiros não precisam de visto para fazer turismo na Europa) e depois solicitar a obtenção de um visto de estudos.  Contudo, sensatamente o consulado do Rio me recomendou tirar esse visto no Brasil mesmo, pois isso poderia evitar problemas e facilitar o processo.  Imaginem a seguinte situação.  Viajo tranqüilo para a Alemanha como turista e depois de alguns dias me dirijo ao departamento de estrangeiros para obter a permissão de residência.  De repente, por algum problema, falta de documento ou implicância da imigração, o visto não é concedido e volto de mãos abanando. Seria bastante desagradável, não?  Ok, com toda a documentação em ordem, isso talvez seja difícil de acontecer, mas existe um risco – e esse risco é bem menor se você sair do Brasil com um visto.  A bem da verdade, esse processo é meio bizantino e algo padronizado em toda a União Européia.  Diferentemente dos Estados Unidos, cujos consulados têm total autonomia para emitir vistos de maior duração, os consulados da Alemanha (ou da França, Portugal, etc) emitem vistos de apenas três meses de validade (que é também o período que podemos visitar esses países como turistas.  Estranho não?).  Assim que a pessoa chega no país de destino, aí sim ela deve ir ao departamento de estrangeiros – Ausländerbehörde na Alemanha – e obter a permissão de permanência por tempo superior (Aufenthaltserlaubnis).  No consulado, eles não queriam começar a processar meu visto antes da resposta da bolsa, mesmo que eu estivesse disposto a financiar minha estada por conta própria.  Assim, o tempo passava e eu ficava cada dia mais tenso, pois o resultado não saía e o prazo que eu tinha programado para a viagem (com passagem já comprada) se aproximava.  Isso me deixava ainda mais tenso, pois também havia informações conflitantes quanto ao tempo necessário ao processamento dos vistos.  Ocorre que no Consulado da Alemanha, quase todos os vistos são emitidos na própria Alemanha!  Ou seja, eles pegam teus documentos e os enviam ao departamento de estrangeiros da cidade onde você pretende morar.  Isso pode levar até mais de dois meses!  Contudo, no fim das contas comprovei que existiam, de fato, exceções.  Se você viaja com objetivo de estudos ou pesquisa e tem bolsa da Capes, CNPq ou DAAD, o Consulado pode emitir o visto por conta própria.  Quando faltavam apenas duas semanas para o dia da viagem, a resposta da Capes saiu.  Eu enchi a paciência do técnico em Brasília para que ele me mandasse urgentemente por email a carta de concessão (e para receber essa carta você antes deve cumprir outros procedimentos burocráticos, como enviar o documento de aceite assinado via correios).  Quando isso chegou faltava pouco menos de uma semana.  Fui ao Consulado, entreguei a papelada, e o simpático funcionário me tranqüilizou:  “seu visto fica pronto na quarta-feira”.  Como assim?  Apenas três dias?  Pois é.  Apesar de toda a confusão, não posso reclamar de nada quanto ao Consulado do Rio.  Todos ali foram gentis, prestativos e sempre atenciosos comigo.  E o melhor: o visto de cientista convidado não custa um centavo (o que foi uma maravilha, considerando que no dia, esqueci de sacar dinheiro).

3. No fim das contas… com toda a demora desse processo e a falta de tempo para arrumar as coisas no Brasil, acabei decidindo adiar o início do estágio pós-doutoral.  Decidi viajar em agosto como turista, de modo a encontrar apartamento e travar contatos, além de verificar o que necessitaria fazer quando do meu retorno.  Voltaria ao Rio em setembro e organizaria minha vida lá (fechar casa, fazer procurações, cancelar serviços de telefone e tevê a cabo etc…).  Além disso, para fazer jus ao auxílio deslocamento da Capes eu precisaria estar no Brasil antes do início do estágio.  Em muitos casos, as pessoas acabam indo antes para se organizar e ficam de vez: com isso não recebem alguns auxílios, como deslocamento, instalação etc.  Em compensação, não tem que comprar duas passagens aéreas, como fiz.  Essa primeira viagem também me deu alguma preocupação: eu saía como turista, mas tinha no meu passaporte um visto de Gastwissenschaftler (cientista convidado) – mas que só começaria a ter validade dois meses após minha primeira viagem à Alemanha (01 de outubro era a data nele impressa).  Isso não poderia me enrolar na entrada da Europa?  No consulado, me disseram que eu tinha efetivamente o direito de viajar como turista, não importando se eu tinha já aquele visto de cientista no passaporte.  Um direito não elimina o outro.  Mas me alertaram que talvez me fizessem perguntas na imigração (que seria em Paris, meu primeiro porto de entrada na Europa).  Aqui valeria a pena falar sobre tudo que aprendi, lendo, na internet, a respeito do espaço Shengen, vistos etc.  Acabei me tornando especialista no assunto.  Mas isso tornaria esse post ainda maior e eu estaria fugindo do ponto.  Bom, o fato é que não me fizeram uma única pergunta em Paris.  O cara olhou meu passaporte, olhou minha cara e carimbou o documento em menos de dois minutos.  A viagem em agosto foi importante, pois encontrei um excelente apartamento no charmoso bairro de Charlottenburg – que estava na época sendo alugado pela amiga Maria Cristina Ferraz.  Graças a esse golpe de sorte, e pela intermediação dela, conheci o proprietário do apartamento e combinei de sublocá-lo em outubro, após a saída de Cristina (o dono era um simpático e tímido professor que tem um trabalho temporário em Köln, mas depois de dez anos de doutoramento ainda não conseguiu uma posição estável na universidade.  Isso mostra que a situação dos doutores aqui está tão ou mais difícil que no Brasil).  Bastou eu assinar um contrato que ele preparou e pronto, estávamos acertados para minha volta em outubro.  Nesse meio tempo tive de solicitar a suspensão da minha bolsa de pesquisador do CNPq (pois é, infelizmente não se pode acumuar bolsas).

4. Com lugar para morar e um monte de documentos na bagagem, tudo estava pronto para o retorno à Alemanha.  Mas a peregrinação burocrática estava longe de acabar.  Já sabendo do que ia ter que fazer, entrei em contato por email com o escritório de relações internacionais da Universität der Künste.  Também recebi de lá orientações prestativas e gentis.  Por indicação da encarregada da área, providenciei, pela internet, ainda no Rio, um agendamento com o Ausländerbehörde de Berlin.  Eles oferecem agendamentos (por email) para alguns casos (estudantes e pesquisadores, por exemplo) ou nacionalidades.  Como essa época é uma das mais movimentadas, por causa do início do semestre de inverno, eles demoraram bastante para responder minha mensagem.  Um agendamento significa que você não precisará ficar muitas e muitas horas esperando seu número ser chamado.  O agendamento pode ser feito pelo endereço http://www.berlin.de/labo/auslaender/dienstleistungen/ae-info.html (Berlim).  Leia todas as informações e orientações lá.  Existe versão em inglês.  Finalmente me mandaram uma resposta, quando eu ainda estava no Brasil, marcando meu atendimento para terça-feira, dia 05 de outubro.  Não era o dia que eu queria, pois isso significava que eu tinha apenas UM DIA para me preparar efetivamente, já que cheguei a Berlim no dia 01, uma sexta de tarde.  E antes de ir ao Ausländerbehörde eu necessitava ter em mãos um Wohnsitzanmeldung.  E o que é isso?  Toda pessoa que se muda para uma casa na Alemanha (seja estrangeiro ou alemão) precisa resgistrar sua nova moradia na polícia (ou prefeitura, no caso de Berlim).  Isso também é assim em outros países da Europa.  Aliás, você precisa desse documento para tudo: abrir conta em banco, ir a repartições etc.  E esse documento eu só podia obter quando chegasse na Alemanha.  Isso me dava, de fato, apenas um dia para consegui-lo, a segunda-feira, já que meu agendamento no Ausländerbehörde era terça de manhã.  Para pedir o Wohnsitzanmeldung basta seu passaporte e um formulário preenchido.  Esse formulário e as instruções podem ser baixados aqui: http://www.berlin.de/ba-charlottenburg-wilmersdorf/org/buergerdienste/infosystem.php?dienstleistung=120686.  Esse endereço é o da Rathaus (prefeitura) de Charlottenburg, onde eu estaria morando.  Existem vários outros espalhados pela cidade. Mas atenção, o formulário é pequeno, porém extremamente complexo de preencher (se você não for alemão). A burocracia alemã é cheia de matizes, com um vocabulário estranho, vasto e difícil.  Não é à toa que, escrevendo em alemão e sendo ele mesmo um burocrata, Kafka produziu textos tão abstrusos e esquisitos.  Desse modo, as instruções de preenchimento vão certamente dar um parafuso na sua cabeça, mas com alguma paciência e esperteza você chega lá.  O que o escritório internacional da UdK não tinha me informado é que era possível TAMBÉM na Rathaus agendar um horário de atendimento (Terminvereinbarung). Felizmente descobri isso graças ao meus traços de obsessivo-compulsivo pesquisando o site deles.  Minha sorte foi ter conseguido agendar o registro para segunda, um dia antes da visita ao Ausländerbehörde.  Feito isso, o resto é fácil.  Cheguei lá com o papel impresso do meu agendamento, passaporte e formulário preenchido.  Fui à recepção e recebi mesmo assim um número, mas já fui quase que de imediato convocado para a sala 23 (o prédio é lindo, enorme e também terrivelmente kafkiano).  Eu me perdi no caminho e tive de parar para perguntar onde era a sala 23.  Fui correndo para não perder a vez e fui bem atendido por uma funcionária que me perguntou apenas se era a primeira vez que eu me registrava em Berlim.  Em menos de 10 minutos eu tinha em mãos o papel.  Bom, saí dali todo feliz e fui para a UdK ter um encontro com a responsável por assuntos internacionais.  Ela foi extremamente prestativa e me deu orientações por 20 minutos, além de preparar outra carta sobre minha pesquisa e meu vínculo com a UdK especialmente para o Ausländerbehörde.  Na Alemanha, quanto mais papéis você tiver , melhor!

5.  Eu agora, aparentemente, tinha em mãos tudo o que necessitava para ir ao temido Ausländerbehörde.  Na internet, li muitas histórias sombrias de pessoas comentando sua visita a esses lugares.  Eu estava tenso, apesar de tudo parecer em ordem.  Aproveitei o resto da segunda-feira para ir à biblioteca da UdK e pegar uma carteira para poder emprestar livros. Bastou apresentar lá uma carta da secretaria de assuntos internacionais que a Frau Rechenmacher gentilmente havia escrito junto com a outra, para o escritório de estrangeiros.  Depois, preocupado com os prazos para o pagamento da bolsa, fui lépido e faceiro abrir uma conta no banco.  Isso realmente é muito fácil na Alemanha.  Escolhi o Sparkasse (tem em toda parte e havia uma agência do outro lado da minha rua).  Bastou levar o Wohnsitzanmeldung e meu passaporte.  Expliquei minha situação, falei da bolsa e uma moça me atendeu com extrema eficácia, explicando todos os detalhes e com uma delicadeza que eu nunca vi em nenhum banco brasileiro (e olha que a conta custa apenas dois euros por mês!).  Em cerca de meia hora eu tinha uma conta num banco alemão.  Fui para casa e preenchi os dados no site da Capes, escaneei numa papelaria os comprovantes de abertura da conta, as passagens da viagem e meu passaporte (folha com foto e carimbos de entrada).  Tudo isso é necessário (mais burocracia) para que você possa começar a receber a bolsa.

6.  Dormi mal e acordei às 5 da manhã.  Levantei-me nervoso e resolvi outras coisas antes de sair.  Finalmente, cada vez mais tenso, fui para o Ausländerbehörde.  Ele é muito mal localizado, mas não é verdade, como li na internet, que é quase inacessível por meio de transporte público.  Depois de estudar a rota com o Google Maps e o mapa dos U- e S-Bahns, descobri uma estação bastante próxima, com uma caminhada de apenas 10 minutos.  O lugar é sombrio, com enormes salas e corredores e gente para tudo que é lado.  Tudo indica que, por sorte, a parte mais civilizada é o andar reservado para estudantes, cientistas e cidadãos da Comunidade Européia.  Mesmo assim não se pode dizer que seja realmente uma experiência agradável.  Mas acabou que saí de lá sem grandes traumas.  No horário marcado, entrei na sala designada sem bater, mas lá dentro eles ainda estavam atendendo outra pessoa e me pediram para esperar do lado de fora.  Aguardei por uns 15 minutos.  Seria de se esperar que em um escritório de imigração, lidando com gente do mundo todo, os funcionários falassem inglês, certo?  Pois se você não fala uma palavra de alemão, pode ir tirando o cavalinho da chuva, já que terá certamente dificuldades por lá (e no resto do cotidiano aqui).  Quando entrei, a funcionária, solícita, mas nem simpática nem antipática, me perguntou somente se eu tinha todos os documentos em ordem.  Eu disse que sim e fui lhe repassando tudo: seguro-saúde (o tema do seguro-saúde foi também uma novela, que mereceria capítulo à parte.  Comprei pela internet o World Nomads, recomendado pelo site Lonely Planet), carta da Capes em alemão com os dados da bolsa, carta do Zielinski, carta da secretaria de assuntos internacionais da UdK, Wohnsitzanmeldung, fotos biométricas e passaporte.  Ela olhou os documentos uns  cinco minutos, me deu um número e pediu para esperar do lado de fora.  Continuei tenso durante a meia hora que esperei meu número aparecer no display.  Finalmente entrei na sala, ela me deu um cartão de plástico e pediu que eu pagasse 50,00 euros na caixa (um caixa automático eletrônico onde se enfia o tal cartão, uma nota de 50,00 euros e se recolhe um recibo).  Voltei à sala, entreguei o recibo e ela me devolveu meus documentos e meu passporte com o Aufenthaltserlaubnis (permissão de moradia) colado.  Saí dali numa felicidade esfuziante.  Não obstante os muitos relatos de terror e a aparência desagradável da experiência, não fiquei mais que uma hora no Ausländerbehörde.  E com isso chegava ao fim minha odisséia bucorático-acadêmica.  Agora, finalmente seria possível se concentrar no que realmente importava, a pesquisa.

PÓS-ESCRITO:

Porque foi escrito às pressas e já estava com dimensões muito grandes, este post pode dar a impressão de que estou me queixando da Capes.  Não é bem assim.  Apesar de eu ser chato e reclamão – e estar sempre incomodado com o excesso de burocracia bizantina do governo brasileiro, não posso reclamar da Capes em relação ao tema pós-doutorado.  Eles sempre foram extremamente solícitos e eficientes todas as vezes que tive que contatá-los.  O resultado da demanda, de fato, saiu com atraso, mas isso acontece freqüentemente com todos os outros órgãos de fomento à pesquisa no Brasil (CNPq, Faperj, Fapesp etc.).  A burocaria poderia ser um pouco menor e certos processos poderiam demorar um pouco menos de tempo para ser implementados, mas aos poucos estamos evoluindo.  Hoje já é possível enviar muitos documentos em forma eletrônica.  Portanto, deixem-me fazer aqui um elogio aos técnicos e ao corpo de pareceristas da CAPES: trabalho difícil, pouco recompensado e que mantém viva a pesquisa científica no país.