Pesquisar é preciso, viver…

Desde o início, decidi que este não seria um “blog de pesquisa” no sentido (já) tradicional do termo.  Minha intenção era criar algo diferente, fundamentalmente inclassificável, em conformidade com a proposta de produzir outro tipo de saber e outras formas de discurso acadêmico.  Não se trata de rebeldia gratuita, nem da absurda pretensão de fazer algo “novo”, especialmente tendo em vista o radical esgotamento dessa categoria.  Trata-se, tão somente, de ser coerente com aquilo em que acredito.  Por exemplo (o que pode ser motivo de escândalo para muitos): a impossibilidade de se separar nitidamente o pesquisador de seu objeto. Daí a razão de favorecer o gênero ensaístico em primeira pessoa. Por outro lado, também almejei estabelecer um espaço, digamos, “terapêutico”, no qual o gesto escritural ajudaria a lidar com as inquietações identitárias e profissionais.  No Brasil, especialmente (mas não apenas lá), o intelectual acadêmico tem razões de sobra para se atormentar continuamente com os temas de seu ofício e de seu “papel” no seio da sociedade.   Por isso, naturalmente, retorno com tanta insistência à questão da definição da vida intelectual.  O ideal de vida que a língua inglesa traduz com perfeição na expressão “scholar” e o alemão (com entonação mais dura), com o termo “Wissenschaftler” parece atrair cada vez menos gente.  Hoje existem muitas boas razões para se tornar professor e pesquisador, mas poucas delas sustentadas por um legítimo amor ao conhecimento.  E não me refiro apenas ao tema da hiper-especialização, já abordado aqui algumas vezes.  Ocorre que a profissão perdeu o sentido espiritual que tinha, por exemplo, na Idade Média, quando os intelectuais eram clérigos tonsurados, que perdiam suas posições caso decidissem se casar.  Evidentemente – podem tranqüilizar-se! – não é o caso de se exigir celibato dos candidatos à docência, mas talvez devêssemos pensar em alguma espécie de “vestibular do espírito” para professores.  O certo é que todos os grandes mestres (e freqüentemente também os grandes pesquisadores) apresentam esse traço da paixão obsessiva e irrestrita pelo saber.  Em Das Universum der Dinge, zur Ästhetik des Alltäglichen, Konrad Liessmann observa que os filósofos pouco ou nada se preocuparam com o banal, com o cotidiano, com as coisas da realidade ordinária. Um luxo só desfrutável por aqueles que crêem poder desprezar altivamente a crua realidade.  Esse equívoco é contrabalançado, porém, por outro igualmente pernicioso: o daqueles que pensam existir uma tal realidade sem qualquer espécie de sobredeterminação simbólica.  Digamo-lo claramente: é impossível considerar o insignificante sem atravessar simultaneamente as grandes questões da existência. Deus está nos detalhes. A glória de um escritor como Borges talvez tenha sido precisamente conjugar essas duas esferas tão aparentemente incompatíveis.  Um jogo de truco ou uma parede rosada são os portais por onde a metafísica e a reflexão filosofal penetram na dura argamassa da realidade cotidiana.  Mesmo nessa recente e fascinante retomada do interesse filosófico pelos objetos (penso em autores como Graham Harman, Bruno Latour ou Steven Shaviro), que agora parecem nos falar em sua mais pura materialidade, a presença humana e o sentido deixam alguma marca reconhecível.  Defender o cotidiano, louvar o banal não são, portanto, atitudes incompatíveis com uma postura teórica e filosófica.  Enquanto congelo no frio alemão e leio autores obscuros e abstrusos, deparo-me constantemente com questões de ordem prática, institucional e operacional.  Preciso escrever projetos, publicar textos, dar pareceres, organizar seminários, preencher relatórios.  Enfim, faço parte de uma engrenagem que, ao mesmo tempo que nos dá um sentido de realidade bruta, precisa ser ocasionalmente perturbada, de modo que não se congele em suas premissas, tornando-se dogmaticamente a única realidade.  Li recentemente em um blog que a “boa teoria” é aquela que combate o relativismo e não nega o império da “objetividade”, pecados cometidos por todos aqueles “autores pós-modernos” da moda, como Latour, Foucault, Deleuze e tutti quanti.  Ora, isso que o blogueiro chama de irracionalismo contemporâneo eu chamaria de lucidez desencantada.  Sim, o pós-moderno é época de misticismo e mistificação, mas também, paradoxalmente, de dissipação daqueles outros fantasmas que o racionalismo exacerbado do Iluminismo engendrou.  Não há razão que não corra o risco de ser assolada pelo mito, como os frankfurtianos já haviam notado  há muito tempo (seriam eles, também, “pós-modernos” avant la lettre?).  Não há ciência que não esteja de algum modo em diálogo com o imaginário, como proclamou, também há um bom tempo, Gaston Bachelard (outro cripto-pós-moderno?).  De fato, não se trata e nunca se tratou de opor teoria e prática, o cotidiano e o filosófico.  Trata-se, antes, de convidá-los a dançar uma boa valsa (ou forró, se o leitor tiver preferências regionais).  O autor do libelo anti-pós-moderno chega a extravasar seus arroubos apocalípticos afirmando que as Humanidades estariam “mergulhadas em profunda crise desde o final dos anos 60”.  Bem pode ser que elas estejam, mas afinal de contas, o que é que hoje não está em crise, do jornalismo à economia e ao algodão doce?  Em meio ao meu fascínio com os autores “pós-modernos” e os mais variados “irracionalistas”, tenho pelo menos um traço moderno capaz de me redimir: a crença antiquada no valor transformador e libertário do conhecimento.  Aliás, não será esse, na verdade, um traço pré-moderno??? (gnothi seauthon).  Essas categorias históricas freqüentemente me confundem!  Afinal, já se chegou a dizer, do Orlando Furioso (Ariosto, 1532), que se trata de texto pós-moderno… O resumo da história é que o intelectual acadêmico talvez não necessite se atormentar tanto com as questões identitárias e as indagações sobre seu lócus na sociedade.  Se o que produz não tem aplicação prática, talvez seja porque a cultura necessita de esferas completamente alheias à noção de pragmatismo.  Se o que afirma parece chocar-se com a realidade, talvez seja porque a realidade, em seu extremo pudor, jamais se deixa definir como o que se apresenta à primeira vista.  Mas pode ser ainda que apenas uma crença de ordem espiritual lhe permita alcançar um estado ideal de paz e quietude interior.  O mundo não é tão objetivo e as teorias não são tão abstratas.  A ciência não é tão precisa e a imaginação não é tão desvairada.  Nós precisamos de pessoas que ensinem e escrevam simplesmente porque gostam de ensinar e escrever.

3 thoughts on “Pesquisar é preciso, viver…

  1. Olá Erick,
    permita-me pitacar na sua reflexão.

    O “vestibular do Espirito” (Abitur des Geistes!) acontece naturalmente e se torna visível ao longo da história de cada pesquisador e pensador. O que decide quem passa ou não nesse vestibular é a qualidade da obra, sua força de ultrapassamento, sua capacidade de chegar a outros
    tempos, enfim, sua capacidade de alcançar posteridade. Nao acha?

    O Flusser ficou, passou bem no vestibular, embora tenha vivido à margem da universidade. Seu espírito conseguiu manter-se maior, muito maior, do que os ambientes acadêmicos por onde andou.

    Existe um infinito universo da marginalidade a descobrirmos. E vemos que esse universo é duramente vivenciado, inclusive pelos que estão dentro da universidade.

  2. Pingback: Para viagem – 1 | Ciberalgo

  3. Erick, seu texto me deu (espero que continue me dando) cliques que faltavam. Obrigada pela reflexão que em mim funcionou como um despretensioso Teste Vocacional do Espírito.
    Não quero me esquecer disso (anotação pessoal):
    “Se o que produz não tem aplicação prática, talvez seja porque a cultura necessita de esferas completamente alheias à noção de pragmatismo. Se o que afirma parece chocar-se com a realidade, talvez seja porque a realidade, em seu extremo pudor, jamais se deixa definir como o que se apresenta à primeira vista.”
    Acho que o bom teórico tem, além de um instinto sensível aguçadíssimo e noção de lógica prá não se perder (ou se perder de maneira interessante), aproximação com o poético. Interessa muito. Beijo!

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