O Pensamento das Margens

Motivado pelo comentário de Danielle Naves ao meu post anterior, deu-me na telha agora discutir a idéia de um pensamento das margens.  Evidentemente, a universidade não é a única (quiçá sequer prioritária) instância de produção de conhecimento de uma sociedade.  No campo das Ciências Humanas, não faltam exemplos de pensadores fortes que se mantiveram alheios ao ambiente acadêmico.  Danielle citou o caso de Flusser, que ainda hoje, pelo menos no Brasil, não chegou a ser totalmente “institucionalizado” e “chancelado” pelo bom pensar universitário.  A inserção de um autor nesse campo discursivo exigiria, antes de tudo, a possibilidade de classificá-lo em alguma categoria já estabelecida.  O problema é que o pensamento de Flusser é inclassificável.  Ele recusa veementemente sua domesticação por meio dos tradicionais mecanismos da discursividade acadêmica.  Quando a nossa maior preocupação é saber o que é “próprio” da comunicação, inviabilizamos a possibilidade de tomar Flusser como um representante do pensamento comunicacional – já que a “impropriedade” é um traço constitutivo da reflexão flusseriana.  O que constitui, então, um pensamento das margens?  Trata-se daquela forma de pensar que rasga caminhos em trilhas inexploradas, nos interstícios dos saberes e dos fazeres.  Sua instabilidade é constitutiva e produtiva.  Existe em fluxo permanente e sequer tem receio de contradizer-se, o que é escândalo para as pedagogias tradicionais.  E de fato, o maior perigo para um pensamento dessa natureza é ser chancelado sem reservas.  Ou seja, as análises que simplesmente prestam homenagem a Flusser e outros da mesma estirpe não lhes fazem justiça de modo algum.  A única maneira de reverenciar tal forma do pensar é se colocando em tensão a esta, do mesmo modo que ela tensiona suas conexões com as manifestações institucionais do conhecimento.  Há muito que se questionar no pensamento de Flusser, assim como há muito ainda a explorar em seu cosmos.  Isso porque o pensamento das margens, mais que qualquer outro, não se revela nunca inteiramente ao primeiro olhar.  Na verdade, é um pouco como um caleidoscópio que altera suas configurações a partir do ângulo em que o observamos.  Isso também não significa, necessariamente, que o pensamento das margens é superior ao pensar institucionalizado.  Ele simplesmente cumpre esse papel de distensão de que todo sistema necessita, caso não queira caducar e enrijecer-se por inteiro.  Ele abre clareiras, ele constitui Holzwege, sem os quais nos tornaríamos certinhos e chatos demais.  Tomemos, por exemplo, o campo da cibercultura e analisemos três de suas formas mentais definidoras: a abordagem tecnicista, o olhar antropológigo-sociológico e a perspectiva filosófica.  A primeira, em sua forma pura, interessa-me muito pouco.  Ainda que eu seja um dos atormentados pela paixão dos gadgets, não consigo encontrar entusiasmo em descrições de interfaces ou enumerações de dados técnicos.  A segunda me oferece uma perspectiva simbólica que, ainda insuficiente, enriquece o olhar analítico sobre o fenômeno tecnológico.  A terceira abre o pensar a riscos maiores e apostas mais amplas.  Contudo, nenhuma das três me parece tão interessante quanto aquilo que se esgueira entre os espaços predefinidos e cria conexões inesperadas.  Pensemos nas “veredas” de Guimarães Rosa, aquelas regiões úmidas em torno de córregos ou riachos onde crescem os buritis.  O encontro do seco do sertão com o úmido das veredas produz vida e renovação, em um processo que o escritor definiria como alquímico.  É nesse sentido que vejo também em Friedrich Kittler um pensamento das margens, sedutor ao mesmo tempo que incômodo.  Sim, Kittler corre riscos demais e possivelmente também recai em numerosos equívocos.  Mas nas intercessões que produz entre o tecnológico, o cultural e o filosófico, sua reflexão alça vôos que escapam da trivialidade do institucional.  Suas frases de efeito, como os aforismos baudrillardianos, nunca devem ser tomadas ao pé da letra.  Suas boutades devem ser encaradas com olhar de desconfiança.  Mas é com esse estilo singular e com os seus encontros inesperados que Kittler consegue topar com suas margens.  Para retomar a referência a Rosa, trata-se, em tais pensadores, de buscar continuamente a “terceira margem do rio”.  Que nossos pesquisadores de comunicação e nossos programas de pós-graduação possam aprender com a porosidade dos Flussers e dos Kittlers, que nos fascinam com sua estranheza e incoformidade.

p.s: para fazer juz a sua fama, Kittler não apareceu no primeiro dia de seu seminário no Hermann von Helmholtz -Zentrum für Kulturtechnik…

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