Flusser: pai das novas teorias de mídia?

Descobri Flusser por volta de 1994, ao ler seu pequeno ensaio “Esperando por Kafka” publicado na revista Cadernos do Mestrado do PPG de Literatura Comparada da UERJ.  Para os estudantes, a revista – da qual participei por um breve período – representava uma oportunidade ímpar de realizar algo por conta própria.  Afinal, ela era completamente editorada pelos alunos do programa, sem nenhuma interferência dos docentes ou de instâncias administrativas da UERJ.  E sei de pessoas que até hoje procuram alguns dos raros exemplares da revista contendo textos de autores nunca traduzidos no Brasil em outra forma.  Na época em que li o texto, começava a estruturar o esboço da minha tese de doutorado e sabia que Kafka teria um papel importante no trabalho.  Lembro-me da forte impressão que o texto de Flusser me causou.  Eu já havia lido muita coisa sobre Kafka, mas nada tão intenso, vital e original.  Espantava-me nunca antes ter ouvido falar desse tal de Flusser.  Infelizmente, teriam que se passar mais de dez anos para que viesse a reencontrá-lo.  Nesse período, aproximadamente entre 1994 e 2004, Flusser experimentou uma espécie de pequena “renascença” no cenário acadêmico brasileiro – e isso, há que se reconhecer o mérito, graças principalmente aos esforços de Gustavo Bernardo (por um tempo colega meu no doutorado de Literatura Comparada) e Norval Baitello.  Depois de minha estada na América do Norte, contudo, uma série de circunstâncias me levaram a esquecer o Flusser.  A principal delas foi o retorno a meu campo de origem, a comunicação, onde Flusser só começou a reaparecer mais tarde.  Claro, essas conexões entre literatura e comunicação (universos pelos quais Flusser transitava com tranqüilidade, assim como a filosofia e a antropologia) sempre foram corriqueiras, tanto no cenário brasileiro como internacional.  Todavia, mesmo hoje ainda somos bastante tímidos em transgredir decisivamente as “fronteiras” entre esses domínios acadêmicos.  Mas o caso é que Flusser permaneceu durante muitos anos quase que completamente esquecido no país, e ainda hoje ainda não recebe um décimo da atenção que merece.  Depois de sua breve renascença, o pensador conquistou alguns novos admiradores na comunicação e na literatura, voltando em seguida a cair em relativo esquecimento.  São Paulo, por uma série de razões evidentes, é o estado onde ele desfruta de maior popularidade.  Mas não é difícil entender porque Flusser continua sendo tão pouco estudado no Brasil, país onde ele viveu por mais de 30 anos.  Como diz Zielinski em Tiefenzeit der Medien, “Para a academia estabelecida, seu pensamento, caracterizado por saltos mentais entre as disciplinas, é inaceitável mesmo hoje”.  Se Flusser, portanto, já é em essência um pensador marginal, muito mais difícil seria sua assimilação nas universidades brasileiras, extremamente conservadoras no que diz respeito à instituição disciplinar.  Reencontrei Flusser somente depois de começar a me interessar pelas teorias de mídia alemães.  À medida que conhecia o cenário dos estudos de mídia na Alemanha, espantava-me com a expressividade de Flusser na literatura sobre o tema.  Aqui, praticamente não se encontra manual de teoria da comunicação que não o mencione extensamente (uso o termo sem grande rigor.  Na Alemanha, não existe algo inteiramente equivalente ao que no Brasil se conhece como “teoria da comunicação”).  Entretanto, foi apenas após minha chegada a Berlin que consegui ter um panorama mais preciso dessa espantosa popularidade de Flusser.  Na sua apresentação às palestras de Flusser na Bochum Universität, Friedrich Kittler o define como profeta das novas mídias (um qualificativo que boa parte da literatura em alemão retoma continuamente).  Com uma admiração que contrasta com a reserva característica do espírito germânico, assim define Kittler a performance do pensador nas célebres palestras de Bochum: “das barbas do profeta saíam palavras como relâmpagos, pois elas sempre eram ao mesmo tempo juízos” (Aus dem Bart des Propheten kamen Worte wie Blitze, weil sie immer auch Urteile waren).  A partir das muitas referências a Flusser e de certos desenhos estruturais das novas teorias de mídia alemães, começava a esboçar-se uma hipótese ousada, mas na qual me custa cada vez menos acreditar.  Não seria Flusser o grande “pai” desse rico e dinâmico Renascimento do pensamento comunicacional na Alemanha?  Se isso tiver algum fundamento, então estaremos diante de um fenômeno efetivamente impactante: da marginal cidade de Praga, fugindo do nazismo, surge um autor que se fixa em outro território marginal, apenas para anos mais tarde retornar ao umbigo do mundo por via da nação com a qual ele sempre entreteve as mais complexas e contraditórias relações. Foi sonho de Flusser por longo tempo tornar-se um teórico reconhecido na Alemanha, o que finalmente ele conseguiu (não seria isso uma espécie de “vingança simbólica” pelo massacre de boa parte de sua família pelos nazistas?).  Para Zielinski, os territórios marginais – não apenas geográficos, naturalmente, senão também os do pensamento – são precisamente os loci onde se pode encontrar as forças mais criativas e os potenciais mais ricos das dinâmicas culturais e tecnológicas.  Seu “Tempo Profundo da Mídia” é simultaneamente um exercício teórico temporal e topográfico, no qual Praga possui lugar de destaque.  Mas em que sentido não seria absurdo afirmar que Flusser está na origem das novas teorias de mídia alemães? (e, por conseqüência, internacionais, já que, hoje, o centro do interesse acadêmico global parece apontar cada vez mais para terras germânicas, o que se expressa na enorme popularidade de autores como Kittler, Zielinski e Gumbrectht).  Farei uma exposição bastante esquemática nas linhas abaixo, mas sem dúvida se trata de tema que retomarei com bastante fôlego em futuro próximo:

1. o olhar histórico de Flusser sobre o presente baseava-se numa perspectiva de longa duração (um “tempo profundo”, para usar o termo de Zielisnki), onde o passado cumpria papel determinante como estrutura comparativa e contrastiva.  A abordagem de Flusser era a de uma femonenologia temperada de história.  Suas referências fundamentais, especialmente Heidegger, formaram boa parte do arcabouço teórico sustentando as novas teorias de mídia.  Essa perspectiva histórica, fundada numa concepção que privilegia as rupturas e descontinuidades, está na base da nova Mediengeschichte alemã – que, naturalmente, muitíssimo deve também a Foucault;

2. acredito que Flusser foi um importante precursor dos filosofemas pós-humanistas, na forma como eles se expressam em boa parte dos teóricos alemães de hoje, especialmente Kittler.  Já apontei para isso em meu ensaio sobre o Vampyrotheutis, mas trata-se de tema recorrente em toda sua obra.  Em um manuscrito inédito do Arquivo (“Wesen aus einen anderen Welt”), Flusser critica o antropocentrismo que nos afasta de outras espécies e nos impede de compreendê-las: ”Nós disfarçamos nossa frustração por meio da desconsideração de todas as outras espécies” (Wir tarnen unsere Frustration durch Verachtung aller übrigen Arten).  No Vampyroteuthis, o autor assume a posição desse outro radical que é o animal (um dos mais estranhos de todos os animais), numa estratégia narrativa não fundamentalmente diversa da empregada por Manuel de Landa, anos mais tarde, em seu The War in the Age of Intelligent Machines;

3. Flusser foi um pensador profundamente interessado no tema da materialidade, especialmente dos meios.  Paola Bozzi foi quem melhor definiu esse traço flusseriano: “Sua meta é uma diligente comunicação tátil do pensamento com seu objeto como consciente reação ao caráter dominante do significar: portanto, nada de filosofar ‘com o martelo’, mas antes a utopia de um conhecimento não violento, que ‘nasce inteiramente do contato com os objetos’”.  Isso o inscreve em certo paradigma epistemológico que é hoje compartilhado por praticamente todas as novas teorias de mídia, especialmente no programa de pesquisa das “materialidades da comunicação” (Gumbrecht et alii);

4. tenho forte convicção de que certos procedimentos e princípios da arqueologia da mídia foram herdados de Flusser.  Por exemplo, o fascínio com o tema do “achado fortuito” (Zielinski), que encontramos, entre outros lugares, muito bem discutido em sua entrevista com Florian Rötzer incluída em Absolute Vilém Flusser;

5. Em meados dos anos 80, Flusser publicava extensivamente na conceituada Leonardo sobre suas visões a respeito das conexões entre arte, ciência, comunicação e tecnologia.  Aliás, de Leonardo da Vinci ele afirmava ter tomado a noção de fantasia essata, mescla entre saber e imaginação (arte) com que buscava caracterizar seu procedimento teórico.  Todos esses temas formam, naturalmente, um pano de fundo extremamente contemporâneo – e é na Alemanha precisamente onde encontramos com extrema clareza a conjugação de tais universos de pensamento (em Peter Weibel, por exemplo, ou mesmo em Zielinski).

As notas acima são superficiais e fragmentárias.  Obviamente, há muito mais a ser dito sobre a recepção de Flusser na Alemanha.  E acredito que os anos vindouros irão celebrar, finalmente, a internacionalização de Flusser como um dos mais fundamentais pensadores da mídia e da tecnologia em todos os tempos.  O que me provoca certa sensação de estranheza é o percurso que percorri para chegar a Flusser.  Do Brasil, tive de ir para a Alemanha apenas para reencontrar esse pensador, que é, em tantas dimensões de sua obra, profundamente “brasileiro”.  Parti com a proposta de examinar a frágil noção de cibercultura (fragilidade que as teses alemães confirmaram), encontrei Kitttler, Zielinski e Ernst, apenas para, no fim, redescobrir Flusser.  Essa é uma história que ainda está para ser escrita, mas é sem dúvida, uma história característica do “tempo profundo da mídia”.

pós-escrito: hoje, ao ler o pós-escrito de Silvia Wagnermaier a Kommunikologie weiter denken, percebo mais uma das estranhas coincidências (“sincronicidades”?) que me levaram aos fluxos flusserianos.  Em “Vampyrotheutis, a Segunda Natureza do Cinema”, eu abordava o documentário de Davi Le Brun sobre  Ernst Haeckel (“Protheus”, 2004) e aproximava o ensaio-ficção de Flusser de algumas idéias desse naturalista de fins do século XIX.  No texto de Wagnermaier, descubro que Flusser tomara precisamente de Haeckel uma de suas idéias fundamentais: a de que a ontogênese repete a filogênese.  A história desses encontros estranhos (com Haeckel e com o “Museu da Tecnologia Jurássrica”) tem que ser objeto de outro post.  Senão acabo ficando sem histórias para contar…

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Arquivo Flusser

Há algo de mágico nos arquivos e nas antigas bibliotecas.  É essa sensação de tocar algo que já não está mais presente, de alcançar magicamente fragmentos do passado que ficaram preservados em pequenas cápsulas do tempo.  Os arquivos e as antigas bibliotecas têm um efeito hipnótico sobre mim.  Não senti nada disso no famoso Grünes Gewölbe de Dresden, que se encontra hoje explorado e artificializado demais.  Contudo, fiquei completamente estasiado com a biblioteca do mosteiro de Strahov, em Praga, autêntico gabinete de curiosidades barroco.  Infelizmente, estava em reforma e um pouco descaracterizado, mas mesmo assim foi uma das experiências mais impressionantes que tive em Praga, cidade natal de Flusser.  Por outro lado, aqui em Berlin finalmente consegui visitar o Arquivo Flusser, o que acabou se revelenado um pouco porblemático, pois agora não consigo mais sair de lá.  O arquivo funciona ao público somente às terças-feiras, de 14:30 às 17:30h.  Todavia, pesquisadores podem, a critério da gerência do arquivo (e, conseqüentemente, de Zielinski) ter acesso diário ao acervo.  Retornei lá ontem e fiquei o dia inteiro folheando as dezenas de pastas com textos publicados e inéditos do filósofo tcheco-brasileiro.  Claro, me interessam, prioritariamente, os trabalhos não publicados, textos que Flusser diligentemente datilografou em sua máquina de escrever em pelo menos quatro línguas, português, alemão, francês e inglês.  Depois de tentar entender, graças ao auxílio gentil do Ricardo Novaes e da Claudia Becker, o complexo sistema de catalogação do arquivo, resolvi seguir o caminho “zielinskiano” dos achados fortuitos e comecei a folhear as pastas ao acaso.  Além da coleção de textos, quase todos cópias xerográficas dos “originais” que ainda estão em Colônia (“original”, aqui, é um termo relativo, já que se trata de cópias carbonos de páginas datilografadas), o arquivo contém também uma parte da biblioteca pessoal de Flusser – o que é interessante em se tratando de mapear algumas de suas influências.  Nos anos 90, criou-se um sistema de classificação por línguas e ordem alfabética que não é o melhor do mundo, mas funciona.  Claudia está envolvida agora no difícil trabalho de reestruturar essa classificação.  O pior é que a catalogação em formato eletrônico existe, mas encontra-se no HD de um antigo Macintosh e ainda não se conseguiu extraí-lo de lá, pois a tecnologia já não existe mais (zip disk, etc).  Um legítimo problema de “arqueologia da mídia” e tema de alguns artigos que li recentemente sobre a perenidade da informação digitalmente armazenada.  Enquanto um livro pode durar centenas ou milhares de anos, se supõe que a informação armazenada num disco ótico ou magnético não resista mais que 100 anos (possivelmente menos).  Interessante paradoxo, não?  No primeiro dia, devo ter lido uns 10 textos nessas quatro línguas, mas o que me chamou atenção, de fato, foram duas análises críticas (escritas em inglês) contendo resenhas editoriais sobre dois livros de teoria da comunicação publicados nos anos 70.  Um deles era “A Comunicação do Grotesco”, de Muniz Sodré, que Flusser elogia vivavemte (“to prove this very interesting, and probably correct, thesis”…”The essay is very good…”).  O outro, com a economia que lhe era característica, Flusser destrói completamente em apenas uma página.  “I don’t think it should be published”, conclui ele solicitando ao recipiente da carta que não divulgue seu conteúdo.  Ler Flusser, ainda mais a matéria seminal representada por esses vários textos não publicados, é uma surpresa constante.  A cada texto, minha admiração pelo autor (assim como minhas perplexidades) só aumenta.  Folheei as páginas da “tradução” em português que ele fez para o Vampyroteuthis Infernalis e pude perceber claramente que, em Flusser, traduzir é mesmo recriar, é incorporar o espírito da língua – algo que ele fazia com perfeição em sua condição de Bodenlos (sem solo, desterrado).  Várias passagens da versão brasileira são mais elaboradas e interessantes que no texto alemão.  A passagem sobre o tema do nojo (der Ekel rekapituliert die Phylogenese) tem desenvolvimentos interessantíssimos em português.  Só um pensador muito livre e com a tremenda densidade intelectual de Flusser poderia escrever uma complexa meditação sobre a civilização ocidental tomando como referência as rodas de automóveis, como fez no inédito “Motor Cars”.  Certamente, todos que vierem ao arquivo buscando informação sobre Flusser serão bem recebidos.  Claudia é uma estudante de doutorado simpaticíssima, que compartilha com Zielinski (e muitos outros na Alemanha) uma tal paixão por Flusser que por vezes beira a religião.  Divulgar sua obra é, para todos eles, uma missão.  O objetivo do Arquivo, a longo prazo, é digitalizar todo o acervo e disponibilizá-lo livremente na internet.  Todo esse respeito pela obra de um pensador que viveu mais de 30 anos no Brasil num país onde ele sequer morou (não obstante seus vínculos conflitivos, mas intensos, com a cultura alemã) não deixa de surpreender.  Flusser trocou o Brasil pela Europa nos anos 70, possivelmente em função da ditatura militar.  Mas é bem provável que um fator coadjuvante dessa decisão tenha sido a reforma universitária da USP, que acabou eliminando-o dos quadros docentes da instituição.  Pois é, Flusser não tinha “títulos” acadêmicos.  É uma história triste, mas sintomática de alguns problemas que ainda enfrentamos no Brasil.  Quem sabe, seu destino não será como o de Borges, reconhecido na Argentina somente após sua completa aclamação na França?

Digital Contagions: uma Obra que “contagia”

Digital Contagions: a Media Archaeology of Computer Viruses entrou definitvamente para a minha lista das leituras mais férteis, enriquecedoras e fascinantes dos últimos tempos.  E digo isso com a convicção de alguém que não tem um interesse especial pelo tema dos vírus de computador.  Parikka escreveu uma obra que, independentemente do tema central, deverá interessar a todos os que pesquisam ou trabalham com cibercultura em seus múltiplos desdobramentos.  De fato, eu chegaria ao ponto de arriscar que é um dos melhores trabalhos no campo de cibercultura nos últimos 20 anos (o livro é de 2007).  Isso porque Digital Contagions consegue a façanha de ser várias coisas ao mesmo tempo, realizando todas de maneira igualmente bem sucedida!  Em primeiro lugar (especialmente em sua introdução) é uma excelente apresentação a duas das mais instigantes perspectivas de pesquisa em comunicação nos dias de hoje, representadas pelo pensamento de Friedrich Kittler e Siegfried Zielisnki – ambas, diga-se de passagem, constituintes dessa complexa e estranha categoria que nomeamos provisoriamente “teoria da mídia alemã”.  Em segundo lugar, é um estudo que conjuga extraordinariamente bem a mais densa armadura teórica com uma pesquisa empírica séria e exaustiva, sem falar num estilo de escrita inteiramente desprovido de afetação e hermetismo.  Em terceiro lugar, representa uma síntese harmônica daquilo que de mais interessante e inovador encontramos na reflexão filosófica e antropológica a respeito da sociedade e da tecnologia.  Por suas páginas passeiam referências bem fudamentadas e bem costuradas a Foucault, Deleuze, Latour, Heidegger e muitos outros – sem que com isso percamos de vista em momento algum a singularidade do autor Jussi Parikka e o foco de sua atenção na história dos vírus de computador.  Finalmente, é um livro em que a paixão do autor pela investigação científica e por seu tema de pesquisa transparece em um estilo de escrita sedutor e agradável.  Em outras palavras, trata-se de um estudo acadêmico que se lê como um romance (mesmo em suas seções mais aridamente teóricas), e que dificilmente se consegue pôr de lado até a última linha.  De fato, o trabalho se revelou tão útil desde suas primeiras formulações que me permitiu enxergar algo que estava nitidamente diante dos meus olhos o tempo todo, e, contudo, permaneceu invisível até agora.  Com seu enfoque decididamente kittleriano (mas temperado de Deleuze e De Landa), Parikka me fez perceber a inutilidade do conceito de formação cultural para definir a cibercultura.  Por que seria ele necessário, efetivamente, quando a noção kittleriana de “discourse networks” (Aufschreibesysteme) já responde de forma inteiramente adequada tal demanda teórica?  A melhor maneira de tematizar a cibercultura é como uma rede discursiva estruturada material e linguisticamente.  Na certeira explicação de John Johnston citada por Parikka em uma nota do livro,

“Kittler deploys the term to designate the archive of what is inscribed by a culture at a particular moment in time. The notion of the discourse network points to the fact that at any given cross-sectional moment in the life of a culture, only certain data (and no other) are selected, stored, processed, transmitted or calculated, all else being ‘noise’ (…) In other words, on the basis of this particular selection of data not only perceptions, ideas, and concepts – all that is coded as meaningful in short – but also as system authorizing some subjects as senders and others as receivers of discourse is instituted” (p. 27, nota 11).

Mais que isso, porém, o livro de Parikka representa uma perfeita e clara enunciação do tipo de programa de pesquisa que pretendo defender (e de que, creio, necessitamos hoje desesperadamente).  Sua articulação epistemológica e seu paideuma teórico demonstram que a atitude interdisciplinar não é uma escolha, senão uma necessidade implacável da produção de conhecimento neste início de milênio.  Isso que autores como Latour também têm reafirmado à exaustão – e Digital Contagions articula sinteticamente – ainda constitui tema polêmico em nosso ambiente intelectual.  O “campo da comunicação”, com qualquer recorte que se pretenda, inclusive o centrado na ingênua e problemática noção de mídia, só existe como ficção teórica útil para o sustento de determinado modelo de fomento (econômico) à pesquisa.  O que não significa dizer que a abordagem de obras como a de Parikka não possa ser entendida como comunicacional.  Em lugar da ficção “geográfica” (o “campo”), proponho, portanto, a ficção de certo olhar comunicacional, passível de direcionamento aos mais diferentes temas e problemas.  Mas essa é questão para maior desenvolvimento em outro contexto.  Graças ao texto de Parikka, fui capaz ainda de depurar meus últimos pudores em relação ao papel a ser cumprido pela atividade teórica (mais especificamente, neste contexto, do “arqueólogo da mídia”) no pensamento de Zielinski.  Em consonância com as propostas do primeiro e do último, sempre me incomodou a noção tradicional do analista distante e divorciado de seu objeto, mero diagnosista de situações culturais.  Todavia, os vôos de Zielinski em Tiefenzeit der Medien ainda me perturbavam por sua abertura desafiadora à fantasia e à imaginação.  Acontece que, na situação teórico-cultural em que nos encontramos hoje, não apenas a posição do detached researcher tornou-se completamente insustentável, senão também que ele claramente é convocado a tomar partido e sugerir historiografias alternativas e narrativas heteronômicas saplicadas de exercícios imaginativos.  Não é sem razão, por exemplo, que a ficção científica se tornou tema de pesquisa tão importante nas Humanidades em anos recentes.  A ficção constitui uma forma de articulação discursiva que permite tratar de assuntos desprezados por instâncias “mais nobres” da produção de saber e poder da sociedade, como a ciência, por exemplo.  Como diz Parikka,

“Media archaeology should not only track the majoritarian understanding of the discourses and dispositifs of digital culture, but also aim to follow the detours and experiments that remain virtual, yet real, in the shadows of the actuality of hegemonic understanding” (p. 24).

Essa atitude ativa do teórico, que ao mesmo tempo reconhece sua incapacidade de abarcar o todo da complexidade tecno-cultural contemporânea,

“accentuates the active position of the author, not as a demi-urge but as a conveyor of preindividual force fields” (p. 24).

Afinal, também seria de extrema ingenuidade pressupôr que os fatos sociais se dão de forma independente das narrativas filosóficas, populares ou teóricas elaboradas em seu entorno.  O desafio que, hoje, autores como Latour (e antes dele, Simondon e outros) nos colocam é o de uma fundamental reestruração de nossas pedagogias tradicionais.

Enfim, Digital Contagions é leitura obrigatória não apenas porque se debruça sobre um tema importantíssimo (e quase que inteiramente esquecido) da cultura digital, senão também por que o faz segundo um programa de pesquisa absolutamente necessário para todos que desejem evitar a mesmice das pedagogias oficiais e a inanidade das pesquisas empíricas não informadas por boas idéias e teorias.

O que podemos aprender da “Teoria da Mídia Alemã”?

Em primeiro lugar, permitam-me um breve, mas importante, exercício de desmitologização: não há nada de mágico ou particularmente revolucionário nas idéias ou nos perfis dos autores que, muito liberalmente, têm sido definidos como integrantes de uma escola “alemã” dos estudos de mídia (e observem, por favor, o uso das aspas).  Nenhuma de suas obras trará uma resposta decisiva aos desafios tecnológicos ou comunicacionais que se nos apresentam neste início de milênio.  Nenhum de seus conceitos nos salvará das incertezas teóricas que nos têm acometido com cada vez maior freqüência.  Na minha sintomática falta de foco, não consigo me comprometer definitivamente com nenhuma corrente teórica determinada ou pensador de qualquer escola.  Entretanto, o tempo que recentemente venho dedicando aos alemães (ou melhor, à literatura sobre o tema em língua alemã) tem, naturalmente, justificativas bastante sólidas e deriva de um diagnóstico do estado do campo da comunicação no cenário brasileiro.  No Brasil, ainda que nos leiamos pouco, somos excelentes leitores dos autores francófonos.  Especificamente no horizonte da cibercultura, temos aprendido também a ler avidamente as referencias em língua inglesa.  Praticamente nada nos chega, entretanto, de outros domínios lingüísticos – por exemplo, o espanhol ou o italiano.  Com boa razão, eu imediatamente me interessei pelos autores italianos que Rüdiger me apresentou numa tarde fria em Porto Alegre.  Claro, não se trata apenas da necessidade de atravessar uma barreira lingüística (que, no caso da língua alemã, é bastante dramática!).   Mais que isso, trata-se de tentar expandir horizontes de referência e minimizar certas carências culturais.  Nesse sentido, o primeiro elemento que me chama atenção na teoria da mídia alemã é seu caráter profundamente conceitual, filosófico e abrangente (para não usar o infame adjetivo “interdisciplinar”).  Isso porque acredito que ainda sofremos de uma espécie de receio da teoria que nos submete freqüentemente à posição de meros “aplicadores” de idéias, usualmente em versões com “menos calorias” que nas originais.  Não vou entrar novamente na antiga – mas fundamental – discussão sobre os conflitos entre teoria e prática no campo da comunicação.  Quero apenas destacar como, mesmo no âmbito da pós-graduação, abordagens, cursos e programas de pesquisa mais “teóricos” costumam ser os menos populares e os mais freqüentes alvos dos olhares de desconfiança.  Acho que fazemos muito bem pesquisa empírica, e os estrangeiros têm bastante a aprender com nossas experiências em netnografia ou nossas análises das dinâmicas de redes sociais, por exemplo.  Mas também creio que ainda somos muito tímidos no que se refere a desenvolvimentos teóricos mais amplos e tentativas exploratórias de apreensão do espírito de época (Zeitgeist) atual.  Talvez me perguntem: mas ler outros autores estrangeiros irá colaborar para o desenvolvimento de teorias “brasileiras” mais ambiciosas?  Claro, falar em teorias qualificando-as por nacionalidades já é, por si só, um contra-senso.  Uma boa teoria não é “brasileira” ou “alemã”, mas a que melhor explica globalmente  diferentes conjuntos de fenômenos.  Isso não significa, porém, que uma teoria não possa ter um acento, uma inflexão cultural particular.  Em uma de suas entrevistas mais interessantes, Zielinski afirma que tem encontrado as idéias mais instigantes precisamente nos domínios marginais (cultural e geograficamente). Daí a razão de os dois últimos volumes da série Variantology terem se dedicado a investigar o mundo islâmico e a China.  Todavia, idéias não se constroem a partir do nada.  Não é possível elaborar um pensamento com acento brasileiro sem tomar em consideração o que bons autores alemães, franceses ou norte-americanos disseram sobre o tema.  Ao contrário do que afirmava nosso ex-ministro Rogério Magri, ler muito não prejudica nossa capacidade de desenvolver idéias próprias – muito pelo contrario!  Aliás, o que os autores alemães mais interessantes nos ensinam é como se pode ler maciçamente teorias importadas (no caso de Kittler, por exemplo, os pós-estruturalistas franceses) e delas extrair uma entonação única.  Adaptando uma conhecida sentença de Borges, após mais de dois milênios de teoria, o que nos resta é encontrar uma entonação própria no que já foi dito, desistindo, obviamente, de qualquer pretensão de originalidade radical.  Mas voltemos aos alemães.  Eu preciso, antes de tudo, reconhecer que muito do que se publica aqui com a chancela de “Medientheorie” ou “Medienphilosophie” é chato e quadrado.  Talvez até mais do que esperava inicialmente.  O resoluto fascínio alemão com a mídia e o excesso de manuais de Medientheorie parecem ter um impacto tanto positivo quanto negativo, no sentido em que, por vezes, as questões tendem a descambar para a superficialidade. Entretanto, pelo menos três autores se destacam decisivamente nesse cenário: Friedrich Kittler, Sybille Krämer e Siegfried Zielinski (talvez quatro, se considerarmos tudo o que Flusser escreveu em língua alemã).  Nesses autores, que apresentam proposições diferentes – e muitas vezes em conflito – encontramos alguns núcleos de idéias e percursos metodológicos capazes de oferecer uma contribuição importante ao cenário brasileiro.  E aqui entro na segunda razão pela qual os considero vitais para nós.  O cenário da teoria da comunicação no Brasil ainda é dominado por teorias de fundo essencialmente hermenêutico: semiótica, teorias de recepção, análise de conteúdo etc.  Tudo isso está muito bem, mas os alemães (e agora, a reboque, também alguns autores do contexto anglo-saxão) contribuem para uma complexificação do campo com seu interesse pelo tema da medialidade (e materialidade) e da historicidade da comunicação.  A definição de mídia – um conceito muito sabiamente questionado por Vinicius em sua fala no recente encontro da Abciber – é uma verdadeira obsessão por aqui.  Assim define, por exemplo, Stephan Münker, a Medienphilosophie como uma investigação sobre o conceito de meio e este, por sua vez, é de tal forma conceituado:

“Medien sind Dinge, die in ihrer Dinglichkeit nicht aufgehen; ihre mediale Idee transzendiert immer wieder die eigene Gegenständlichkeit – und überrascht, enttäuscht oder übertrifft die Erwartungen ihrer Nutzer” (p. 44).

O conceito de meio, que no Brasil já foi usado para propor os recortes “adequados” para o campo da comunicação, nunca foi todavia suficientemente explorado por aqui.  E como diz Münker, um meio sempre é mais do que aparenta, e sempre ultrapassa as expectativas de seus usuários.  Que os alemães, e especificamente autores como Kittler e Krämer, sejam extremamente “teóricos” (ou seja, quase não encontramos traços de investigações empíricas como fundo de seus trabalhos) não deveria nos assustar, acostumados que estamos às especiosas elucubrações dos franceses – de Baudrillard a Virilio e Sfez.  E vale atentar para o fato de que um dos maiores entusiastas e divulgadores do pensamento alemão é um ativista totalmente engajado com causas políticas e sociais ligadas às novas tecnologias: Geert Lovink.  Este último, aliás, também ainda pouco lido em terras tupiniquins, apesar de sua acessibilidade e de seu atraente engajamento “prático”.  Lovink é um ótimo exemplo de pensador totalmente antenado tanto com as realidades sociais e econômicas mais imediatas de seu entorno como das últimas e mais abstratas teorias sobre a cultura.  Prova viva de que uma coisa não confronta, mas sim complementa a outra.  Outro autor um pouco mais popular entre nós e que realiza casamento semelhante é Lev Manovich, simultaneamente realizador e pensador das mídias digitais – como, aliás, ocorre comumente na Alemanha (o exemplo de Peter Weibel é emblemático).  Mas se eu tiver mesmo que apontar o que me parece o ensinamento central do pensamento alemão para nós, eu diria que se encontra no cruzamento das esferas da cultura, da comunicação e da estética.  Devido a certo purismo atrasado de que sofremos aqui, a comunicação tende a ser apresentada como um domínio estanque, passível de investigação de forma desvinculada de suas relações com o contexto cultural ou suas implicações estéticas.  É alentador que na Compós exista um GT – apesar de algo marginal – intitulado “Comunicação e Experiência Estética”.  Pois para alguns comunicólogos no Brasil, “estética” e “arte” se incluem entre as palavras arroladas no index prohibitorum do discurso comunicacional.  Por outro lado, é tão absurdamente evidente a importância da dimensão estética dos fenômenos comunicacionais contemporâneos que tais preconceitos só podem ser explicados como da ordem de uma cegueira patológica.  Outra questão polêmica (e recordo-me aqui de discussões “longínquas” em eventos da Compôs de 2004 ou 2007) liga-se a temas como os do pós-humanismo, centrais aos estudos de cibercultura em todo o mundo, mas questionados como problemas “legítimos” da comunicação.  Em trabalho apresentado em Bauru, em 2006, eu já buscava “justificar” a inclusão do tema do pós-humanismo (Cf. “Posthuman.com: Cibercultura e Pós-Humanismo como Temas Comunicacionais”) no campo da comunicação.  Claro, em vários outros contextos acadêmicos tal justificativa não seria necessária.  Nos EUA, por exemplo, trata-se de um assunto abordado desde o domínio dos estudos literários ao da filosofia.  Nesta brilhante palestra em seminário recente na University of British Columbia, Geoffrey Winthrop-Young debate a importância do assunto e a contribuição dos alemães ao tema.  Aliás, o próprio seminário, realizado em abril deste ano, dá testemunho do destaque cada vez maior que as teorias alemães vêm alcançando no mundo anglo-saxão (ainda que ocasionalmente com sérias distorções).  Preciso, finalmente, reconhecer que ainda é cedo para distinguir com filigranas os aspectos das teorias de mídia alemães capazes de trazer contribuições decisivas para a cibercultura. Talvez o texto mais maduro sobre o assunto, neste momento, seja minha reflexão sobre o Vampyrotheutis de Flusser (disponível para download no menu abaixo e à direita). Ao final de meu estágio pós-doutoral em Berlin espero poder apresentar um relato mais complexo, detalhado e balanceado.  Uma coisa, porém, é certa: enquanto continuarmos a confundir uma realidade de ordem econômica e administrativa (o recorte dos campos do conhecimento, segundo, por exemplo, a tabela das áreas de conhecimento do CNPq) com um imperativo epistemológico, corremos o risco de perder aquilo que pode ser a entonação tipicamente brasileira de uma teoria sobre as novas mídias.  Afinal, como explora o trabalho de minha orientanda Helena Klang, não é precisamente o atravessamento de fronteiras e a digestão das diversidades que marcaram historicamente a contribuição do Brasil aos modernismos nacionais?