O que podemos aprender da “Teoria da Mídia Alemã”?

Em primeiro lugar, permitam-me um breve, mas importante, exercício de desmitologização: não há nada de mágico ou particularmente revolucionário nas idéias ou nos perfis dos autores que, muito liberalmente, têm sido definidos como integrantes de uma escola “alemã” dos estudos de mídia (e observem, por favor, o uso das aspas).  Nenhuma de suas obras trará uma resposta decisiva aos desafios tecnológicos ou comunicacionais que se nos apresentam neste início de milênio.  Nenhum de seus conceitos nos salvará das incertezas teóricas que nos têm acometido com cada vez maior freqüência.  Na minha sintomática falta de foco, não consigo me comprometer definitivamente com nenhuma corrente teórica determinada ou pensador de qualquer escola.  Entretanto, o tempo que recentemente venho dedicando aos alemães (ou melhor, à literatura sobre o tema em língua alemã) tem, naturalmente, justificativas bastante sólidas e deriva de um diagnóstico do estado do campo da comunicação no cenário brasileiro.  No Brasil, ainda que nos leiamos pouco, somos excelentes leitores dos autores francófonos.  Especificamente no horizonte da cibercultura, temos aprendido também a ler avidamente as referencias em língua inglesa.  Praticamente nada nos chega, entretanto, de outros domínios lingüísticos – por exemplo, o espanhol ou o italiano.  Com boa razão, eu imediatamente me interessei pelos autores italianos que Rüdiger me apresentou numa tarde fria em Porto Alegre.  Claro, não se trata apenas da necessidade de atravessar uma barreira lingüística (que, no caso da língua alemã, é bastante dramática!).   Mais que isso, trata-se de tentar expandir horizontes de referência e minimizar certas carências culturais.  Nesse sentido, o primeiro elemento que me chama atenção na teoria da mídia alemã é seu caráter profundamente conceitual, filosófico e abrangente (para não usar o infame adjetivo “interdisciplinar”).  Isso porque acredito que ainda sofremos de uma espécie de receio da teoria que nos submete freqüentemente à posição de meros “aplicadores” de idéias, usualmente em versões com “menos calorias” que nas originais.  Não vou entrar novamente na antiga – mas fundamental – discussão sobre os conflitos entre teoria e prática no campo da comunicação.  Quero apenas destacar como, mesmo no âmbito da pós-graduação, abordagens, cursos e programas de pesquisa mais “teóricos” costumam ser os menos populares e os mais freqüentes alvos dos olhares de desconfiança.  Acho que fazemos muito bem pesquisa empírica, e os estrangeiros têm bastante a aprender com nossas experiências em netnografia ou nossas análises das dinâmicas de redes sociais, por exemplo.  Mas também creio que ainda somos muito tímidos no que se refere a desenvolvimentos teóricos mais amplos e tentativas exploratórias de apreensão do espírito de época (Zeitgeist) atual.  Talvez me perguntem: mas ler outros autores estrangeiros irá colaborar para o desenvolvimento de teorias “brasileiras” mais ambiciosas?  Claro, falar em teorias qualificando-as por nacionalidades já é, por si só, um contra-senso.  Uma boa teoria não é “brasileira” ou “alemã”, mas a que melhor explica globalmente  diferentes conjuntos de fenômenos.  Isso não significa, porém, que uma teoria não possa ter um acento, uma inflexão cultural particular.  Em uma de suas entrevistas mais interessantes, Zielinski afirma que tem encontrado as idéias mais instigantes precisamente nos domínios marginais (cultural e geograficamente). Daí a razão de os dois últimos volumes da série Variantology terem se dedicado a investigar o mundo islâmico e a China.  Todavia, idéias não se constroem a partir do nada.  Não é possível elaborar um pensamento com acento brasileiro sem tomar em consideração o que bons autores alemães, franceses ou norte-americanos disseram sobre o tema.  Ao contrário do que afirmava nosso ex-ministro Rogério Magri, ler muito não prejudica nossa capacidade de desenvolver idéias próprias – muito pelo contrario!  Aliás, o que os autores alemães mais interessantes nos ensinam é como se pode ler maciçamente teorias importadas (no caso de Kittler, por exemplo, os pós-estruturalistas franceses) e delas extrair uma entonação única.  Adaptando uma conhecida sentença de Borges, após mais de dois milênios de teoria, o que nos resta é encontrar uma entonação própria no que já foi dito, desistindo, obviamente, de qualquer pretensão de originalidade radical.  Mas voltemos aos alemães.  Eu preciso, antes de tudo, reconhecer que muito do que se publica aqui com a chancela de “Medientheorie” ou “Medienphilosophie” é chato e quadrado.  Talvez até mais do que esperava inicialmente.  O resoluto fascínio alemão com a mídia e o excesso de manuais de Medientheorie parecem ter um impacto tanto positivo quanto negativo, no sentido em que, por vezes, as questões tendem a descambar para a superficialidade. Entretanto, pelo menos três autores se destacam decisivamente nesse cenário: Friedrich Kittler, Sybille Krämer e Siegfried Zielinski (talvez quatro, se considerarmos tudo o que Flusser escreveu em língua alemã).  Nesses autores, que apresentam proposições diferentes – e muitas vezes em conflito – encontramos alguns núcleos de idéias e percursos metodológicos capazes de oferecer uma contribuição importante ao cenário brasileiro.  E aqui entro na segunda razão pela qual os considero vitais para nós.  O cenário da teoria da comunicação no Brasil ainda é dominado por teorias de fundo essencialmente hermenêutico: semiótica, teorias de recepção, análise de conteúdo etc.  Tudo isso está muito bem, mas os alemães (e agora, a reboque, também alguns autores do contexto anglo-saxão) contribuem para uma complexificação do campo com seu interesse pelo tema da medialidade (e materialidade) e da historicidade da comunicação.  A definição de mídia – um conceito muito sabiamente questionado por Vinicius em sua fala no recente encontro da Abciber – é uma verdadeira obsessão por aqui.  Assim define, por exemplo, Stephan Münker, a Medienphilosophie como uma investigação sobre o conceito de meio e este, por sua vez, é de tal forma conceituado:

“Medien sind Dinge, die in ihrer Dinglichkeit nicht aufgehen; ihre mediale Idee transzendiert immer wieder die eigene Gegenständlichkeit – und überrascht, enttäuscht oder übertrifft die Erwartungen ihrer Nutzer” (p. 44).

O conceito de meio, que no Brasil já foi usado para propor os recortes “adequados” para o campo da comunicação, nunca foi todavia suficientemente explorado por aqui.  E como diz Münker, um meio sempre é mais do que aparenta, e sempre ultrapassa as expectativas de seus usuários.  Que os alemães, e especificamente autores como Kittler e Krämer, sejam extremamente “teóricos” (ou seja, quase não encontramos traços de investigações empíricas como fundo de seus trabalhos) não deveria nos assustar, acostumados que estamos às especiosas elucubrações dos franceses – de Baudrillard a Virilio e Sfez.  E vale atentar para o fato de que um dos maiores entusiastas e divulgadores do pensamento alemão é um ativista totalmente engajado com causas políticas e sociais ligadas às novas tecnologias: Geert Lovink.  Este último, aliás, também ainda pouco lido em terras tupiniquins, apesar de sua acessibilidade e de seu atraente engajamento “prático”.  Lovink é um ótimo exemplo de pensador totalmente antenado tanto com as realidades sociais e econômicas mais imediatas de seu entorno como das últimas e mais abstratas teorias sobre a cultura.  Prova viva de que uma coisa não confronta, mas sim complementa a outra.  Outro autor um pouco mais popular entre nós e que realiza casamento semelhante é Lev Manovich, simultaneamente realizador e pensador das mídias digitais – como, aliás, ocorre comumente na Alemanha (o exemplo de Peter Weibel é emblemático).  Mas se eu tiver mesmo que apontar o que me parece o ensinamento central do pensamento alemão para nós, eu diria que se encontra no cruzamento das esferas da cultura, da comunicação e da estética.  Devido a certo purismo atrasado de que sofremos aqui, a comunicação tende a ser apresentada como um domínio estanque, passível de investigação de forma desvinculada de suas relações com o contexto cultural ou suas implicações estéticas.  É alentador que na Compós exista um GT – apesar de algo marginal – intitulado “Comunicação e Experiência Estética”.  Pois para alguns comunicólogos no Brasil, “estética” e “arte” se incluem entre as palavras arroladas no index prohibitorum do discurso comunicacional.  Por outro lado, é tão absurdamente evidente a importância da dimensão estética dos fenômenos comunicacionais contemporâneos que tais preconceitos só podem ser explicados como da ordem de uma cegueira patológica.  Outra questão polêmica (e recordo-me aqui de discussões “longínquas” em eventos da Compôs de 2004 ou 2007) liga-se a temas como os do pós-humanismo, centrais aos estudos de cibercultura em todo o mundo, mas questionados como problemas “legítimos” da comunicação.  Em trabalho apresentado em Bauru, em 2006, eu já buscava “justificar” a inclusão do tema do pós-humanismo (Cf. “Posthuman.com: Cibercultura e Pós-Humanismo como Temas Comunicacionais”) no campo da comunicação.  Claro, em vários outros contextos acadêmicos tal justificativa não seria necessária.  Nos EUA, por exemplo, trata-se de um assunto abordado desde o domínio dos estudos literários ao da filosofia.  Nesta brilhante palestra em seminário recente na University of British Columbia, Geoffrey Winthrop-Young debate a importância do assunto e a contribuição dos alemães ao tema.  Aliás, o próprio seminário, realizado em abril deste ano, dá testemunho do destaque cada vez maior que as teorias alemães vêm alcançando no mundo anglo-saxão (ainda que ocasionalmente com sérias distorções).  Preciso, finalmente, reconhecer que ainda é cedo para distinguir com filigranas os aspectos das teorias de mídia alemães capazes de trazer contribuições decisivas para a cibercultura. Talvez o texto mais maduro sobre o assunto, neste momento, seja minha reflexão sobre o Vampyrotheutis de Flusser (disponível para download no menu abaixo e à direita). Ao final de meu estágio pós-doutoral em Berlin espero poder apresentar um relato mais complexo, detalhado e balanceado.  Uma coisa, porém, é certa: enquanto continuarmos a confundir uma realidade de ordem econômica e administrativa (o recorte dos campos do conhecimento, segundo, por exemplo, a tabela das áreas de conhecimento do CNPq) com um imperativo epistemológico, corremos o risco de perder aquilo que pode ser a entonação tipicamente brasileira de uma teoria sobre as novas mídias.  Afinal, como explora o trabalho de minha orientanda Helena Klang, não é precisamente o atravessamento de fronteiras e a digestão das diversidades que marcaram historicamente a contribuição do Brasil aos modernismos nacionais?

 

5 thoughts on “O que podemos aprender da “Teoria da Mídia Alemã”?

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