Digital Contagions: uma Obra que “contagia”

Digital Contagions: a Media Archaeology of Computer Viruses entrou definitvamente para a minha lista das leituras mais férteis, enriquecedoras e fascinantes dos últimos tempos.  E digo isso com a convicção de alguém que não tem um interesse especial pelo tema dos vírus de computador.  Parikka escreveu uma obra que, independentemente do tema central, deverá interessar a todos os que pesquisam ou trabalham com cibercultura em seus múltiplos desdobramentos.  De fato, eu chegaria ao ponto de arriscar que é um dos melhores trabalhos no campo de cibercultura nos últimos 20 anos (o livro é de 2007).  Isso porque Digital Contagions consegue a façanha de ser várias coisas ao mesmo tempo, realizando todas de maneira igualmente bem sucedida!  Em primeiro lugar (especialmente em sua introdução) é uma excelente apresentação a duas das mais instigantes perspectivas de pesquisa em comunicação nos dias de hoje, representadas pelo pensamento de Friedrich Kittler e Siegfried Zielisnki – ambas, diga-se de passagem, constituintes dessa complexa e estranha categoria que nomeamos provisoriamente “teoria da mídia alemã”.  Em segundo lugar, é um estudo que conjuga extraordinariamente bem a mais densa armadura teórica com uma pesquisa empírica séria e exaustiva, sem falar num estilo de escrita inteiramente desprovido de afetação e hermetismo.  Em terceiro lugar, representa uma síntese harmônica daquilo que de mais interessante e inovador encontramos na reflexão filosófica e antropológica a respeito da sociedade e da tecnologia.  Por suas páginas passeiam referências bem fudamentadas e bem costuradas a Foucault, Deleuze, Latour, Heidegger e muitos outros – sem que com isso percamos de vista em momento algum a singularidade do autor Jussi Parikka e o foco de sua atenção na história dos vírus de computador.  Finalmente, é um livro em que a paixão do autor pela investigação científica e por seu tema de pesquisa transparece em um estilo de escrita sedutor e agradável.  Em outras palavras, trata-se de um estudo acadêmico que se lê como um romance (mesmo em suas seções mais aridamente teóricas), e que dificilmente se consegue pôr de lado até a última linha.  De fato, o trabalho se revelou tão útil desde suas primeiras formulações que me permitiu enxergar algo que estava nitidamente diante dos meus olhos o tempo todo, e, contudo, permaneceu invisível até agora.  Com seu enfoque decididamente kittleriano (mas temperado de Deleuze e De Landa), Parikka me fez perceber a inutilidade do conceito de formação cultural para definir a cibercultura.  Por que seria ele necessário, efetivamente, quando a noção kittleriana de “discourse networks” (Aufschreibesysteme) já responde de forma inteiramente adequada tal demanda teórica?  A melhor maneira de tematizar a cibercultura é como uma rede discursiva estruturada material e linguisticamente.  Na certeira explicação de John Johnston citada por Parikka em uma nota do livro,

“Kittler deploys the term to designate the archive of what is inscribed by a culture at a particular moment in time. The notion of the discourse network points to the fact that at any given cross-sectional moment in the life of a culture, only certain data (and no other) are selected, stored, processed, transmitted or calculated, all else being ‘noise’ (…) In other words, on the basis of this particular selection of data not only perceptions, ideas, and concepts – all that is coded as meaningful in short – but also as system authorizing some subjects as senders and others as receivers of discourse is instituted” (p. 27, nota 11).

Mais que isso, porém, o livro de Parikka representa uma perfeita e clara enunciação do tipo de programa de pesquisa que pretendo defender (e de que, creio, necessitamos hoje desesperadamente).  Sua articulação epistemológica e seu paideuma teórico demonstram que a atitude interdisciplinar não é uma escolha, senão uma necessidade implacável da produção de conhecimento neste início de milênio.  Isso que autores como Latour também têm reafirmado à exaustão – e Digital Contagions articula sinteticamente – ainda constitui tema polêmico em nosso ambiente intelectual.  O “campo da comunicação”, com qualquer recorte que se pretenda, inclusive o centrado na ingênua e problemática noção de mídia, só existe como ficção teórica útil para o sustento de determinado modelo de fomento (econômico) à pesquisa.  O que não significa dizer que a abordagem de obras como a de Parikka não possa ser entendida como comunicacional.  Em lugar da ficção “geográfica” (o “campo”), proponho, portanto, a ficção de certo olhar comunicacional, passível de direcionamento aos mais diferentes temas e problemas.  Mas essa é questão para maior desenvolvimento em outro contexto.  Graças ao texto de Parikka, fui capaz ainda de depurar meus últimos pudores em relação ao papel a ser cumprido pela atividade teórica (mais especificamente, neste contexto, do “arqueólogo da mídia”) no pensamento de Zielinski.  Em consonância com as propostas do primeiro e do último, sempre me incomodou a noção tradicional do analista distante e divorciado de seu objeto, mero diagnosista de situações culturais.  Todavia, os vôos de Zielinski em Tiefenzeit der Medien ainda me perturbavam por sua abertura desafiadora à fantasia e à imaginação.  Acontece que, na situação teórico-cultural em que nos encontramos hoje, não apenas a posição do detached researcher tornou-se completamente insustentável, senão também que ele claramente é convocado a tomar partido e sugerir historiografias alternativas e narrativas heteronômicas saplicadas de exercícios imaginativos.  Não é sem razão, por exemplo, que a ficção científica se tornou tema de pesquisa tão importante nas Humanidades em anos recentes.  A ficção constitui uma forma de articulação discursiva que permite tratar de assuntos desprezados por instâncias “mais nobres” da produção de saber e poder da sociedade, como a ciência, por exemplo.  Como diz Parikka,

“Media archaeology should not only track the majoritarian understanding of the discourses and dispositifs of digital culture, but also aim to follow the detours and experiments that remain virtual, yet real, in the shadows of the actuality of hegemonic understanding” (p. 24).

Essa atitude ativa do teórico, que ao mesmo tempo reconhece sua incapacidade de abarcar o todo da complexidade tecno-cultural contemporânea,

“accentuates the active position of the author, not as a demi-urge but as a conveyor of preindividual force fields” (p. 24).

Afinal, também seria de extrema ingenuidade pressupôr que os fatos sociais se dão de forma independente das narrativas filosóficas, populares ou teóricas elaboradas em seu entorno.  O desafio que, hoje, autores como Latour (e antes dele, Simondon e outros) nos colocam é o de uma fundamental reestruração de nossas pedagogias tradicionais.

Enfim, Digital Contagions é leitura obrigatória não apenas porque se debruça sobre um tema importantíssimo (e quase que inteiramente esquecido) da cultura digital, senão também por que o faz segundo um programa de pesquisa absolutamente necessário para todos que desejem evitar a mesmice das pedagogias oficiais e a inanidade das pesquisas empíricas não informadas por boas idéias e teorias.

2 thoughts on “Digital Contagions: uma Obra que “contagia”

  1. Erick, obrigada pela dica. Vou procurar imediatamente esse livro. Que coisa, uma temporada na alemanha dá mesmo toda a tranquilidade do mundo para lermos coisas novas… o tempo aqui – mesmo em berlim – é bem mais distendido do que no brasil.

  2. Pingback: Tweets that mention Digital Contagions: uma Obra que “contagia” « Carpintaria das Coisas -- Topsy.com

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