Arquivo Flusser

Há algo de mágico nos arquivos e nas antigas bibliotecas.  É essa sensação de tocar algo que já não está mais presente, de alcançar magicamente fragmentos do passado que ficaram preservados em pequenas cápsulas do tempo.  Os arquivos e as antigas bibliotecas têm um efeito hipnótico sobre mim.  Não senti nada disso no famoso Grünes Gewölbe de Dresden, que se encontra hoje explorado e artificializado demais.  Contudo, fiquei completamente estasiado com a biblioteca do mosteiro de Strahov, em Praga, autêntico gabinete de curiosidades barroco.  Infelizmente, estava em reforma e um pouco descaracterizado, mas mesmo assim foi uma das experiências mais impressionantes que tive em Praga, cidade natal de Flusser.  Por outro lado, aqui em Berlin finalmente consegui visitar o Arquivo Flusser, o que acabou se revelenado um pouco porblemático, pois agora não consigo mais sair de lá.  O arquivo funciona ao público somente às terças-feiras, de 14:30 às 17:30h.  Todavia, pesquisadores podem, a critério da gerência do arquivo (e, conseqüentemente, de Zielinski) ter acesso diário ao acervo.  Retornei lá ontem e fiquei o dia inteiro folheando as dezenas de pastas com textos publicados e inéditos do filósofo tcheco-brasileiro.  Claro, me interessam, prioritariamente, os trabalhos não publicados, textos que Flusser diligentemente datilografou em sua máquina de escrever em pelo menos quatro línguas, português, alemão, francês e inglês.  Depois de tentar entender, graças ao auxílio gentil do Ricardo Novaes e da Claudia Becker, o complexo sistema de catalogação do arquivo, resolvi seguir o caminho “zielinskiano” dos achados fortuitos e comecei a folhear as pastas ao acaso.  Além da coleção de textos, quase todos cópias xerográficas dos “originais” que ainda estão em Colônia (“original”, aqui, é um termo relativo, já que se trata de cópias carbonos de páginas datilografadas), o arquivo contém também uma parte da biblioteca pessoal de Flusser – o que é interessante em se tratando de mapear algumas de suas influências.  Nos anos 90, criou-se um sistema de classificação por línguas e ordem alfabética que não é o melhor do mundo, mas funciona.  Claudia está envolvida agora no difícil trabalho de reestruturar essa classificação.  O pior é que a catalogação em formato eletrônico existe, mas encontra-se no HD de um antigo Macintosh e ainda não se conseguiu extraí-lo de lá, pois a tecnologia já não existe mais (zip disk, etc).  Um legítimo problema de “arqueologia da mídia” e tema de alguns artigos que li recentemente sobre a perenidade da informação digitalmente armazenada.  Enquanto um livro pode durar centenas ou milhares de anos, se supõe que a informação armazenada num disco ótico ou magnético não resista mais que 100 anos (possivelmente menos).  Interessante paradoxo, não?  No primeiro dia, devo ter lido uns 10 textos nessas quatro línguas, mas o que me chamou atenção, de fato, foram duas análises críticas (escritas em inglês) contendo resenhas editoriais sobre dois livros de teoria da comunicação publicados nos anos 70.  Um deles era “A Comunicação do Grotesco”, de Muniz Sodré, que Flusser elogia vivavemte (“to prove this very interesting, and probably correct, thesis”…”The essay is very good…”).  O outro, com a economia que lhe era característica, Flusser destrói completamente em apenas uma página.  “I don’t think it should be published”, conclui ele solicitando ao recipiente da carta que não divulgue seu conteúdo.  Ler Flusser, ainda mais a matéria seminal representada por esses vários textos não publicados, é uma surpresa constante.  A cada texto, minha admiração pelo autor (assim como minhas perplexidades) só aumenta.  Folheei as páginas da “tradução” em português que ele fez para o Vampyroteuthis Infernalis e pude perceber claramente que, em Flusser, traduzir é mesmo recriar, é incorporar o espírito da língua – algo que ele fazia com perfeição em sua condição de Bodenlos (sem solo, desterrado).  Várias passagens da versão brasileira são mais elaboradas e interessantes que no texto alemão.  A passagem sobre o tema do nojo (der Ekel rekapituliert die Phylogenese) tem desenvolvimentos interessantíssimos em português.  Só um pensador muito livre e com a tremenda densidade intelectual de Flusser poderia escrever uma complexa meditação sobre a civilização ocidental tomando como referência as rodas de automóveis, como fez no inédito “Motor Cars”.  Certamente, todos que vierem ao arquivo buscando informação sobre Flusser serão bem recebidos.  Claudia é uma estudante de doutorado simpaticíssima, que compartilha com Zielinski (e muitos outros na Alemanha) uma tal paixão por Flusser que por vezes beira a religião.  Divulgar sua obra é, para todos eles, uma missão.  O objetivo do Arquivo, a longo prazo, é digitalizar todo o acervo e disponibilizá-lo livremente na internet.  Todo esse respeito pela obra de um pensador que viveu mais de 30 anos no Brasil num país onde ele sequer morou (não obstante seus vínculos conflitivos, mas intensos, com a cultura alemã) não deixa de surpreender.  Flusser trocou o Brasil pela Europa nos anos 70, possivelmente em função da ditatura militar.  Mas é bem provável que um fator coadjuvante dessa decisão tenha sido a reforma universitária da USP, que acabou eliminando-o dos quadros docentes da instituição.  Pois é, Flusser não tinha “títulos” acadêmicos.  É uma história triste, mas sintomática de alguns problemas que ainda enfrentamos no Brasil.  Quem sabe, seu destino não será como o de Borges, reconhecido na Argentina somente após sua completa aclamação na França?

2 thoughts on “Arquivo Flusser

  1. Erick, seu caminho é Histórico, vai deixar muita gente perplexa no Brasil, tenho certeza. Ainda quero vistitar o Flusserarchiv, com você, em janeiro.

  2. Pingback: Flusser, McLuhan, Benjamin: reflexões sobre mídia, técnica e cultura

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