Flusser: pai das novas teorias de mídia?

Descobri Flusser por volta de 1994, ao ler seu pequeno ensaio “Esperando por Kafka” publicado na revista Cadernos do Mestrado do PPG de Literatura Comparada da UERJ.  Para os estudantes, a revista – da qual participei por um breve período – representava uma oportunidade ímpar de realizar algo por conta própria.  Afinal, ela era completamente editorada pelos alunos do programa, sem nenhuma interferência dos docentes ou de instâncias administrativas da UERJ.  E sei de pessoas que até hoje procuram alguns dos raros exemplares da revista contendo textos de autores nunca traduzidos no Brasil em outra forma.  Na época em que li o texto, começava a estruturar o esboço da minha tese de doutorado e sabia que Kafka teria um papel importante no trabalho.  Lembro-me da forte impressão que o texto de Flusser me causou.  Eu já havia lido muita coisa sobre Kafka, mas nada tão intenso, vital e original.  Espantava-me nunca antes ter ouvido falar desse tal de Flusser.  Infelizmente, teriam que se passar mais de dez anos para que viesse a reencontrá-lo.  Nesse período, aproximadamente entre 1994 e 2004, Flusser experimentou uma espécie de pequena “renascença” no cenário acadêmico brasileiro – e isso, há que se reconhecer o mérito, graças principalmente aos esforços de Gustavo Bernardo (por um tempo colega meu no doutorado de Literatura Comparada) e Norval Baitello.  Depois de minha estada na América do Norte, contudo, uma série de circunstâncias me levaram a esquecer o Flusser.  A principal delas foi o retorno a meu campo de origem, a comunicação, onde Flusser só começou a reaparecer mais tarde.  Claro, essas conexões entre literatura e comunicação (universos pelos quais Flusser transitava com tranqüilidade, assim como a filosofia e a antropologia) sempre foram corriqueiras, tanto no cenário brasileiro como internacional.  Todavia, mesmo hoje ainda somos bastante tímidos em transgredir decisivamente as “fronteiras” entre esses domínios acadêmicos.  Mas o caso é que Flusser permaneceu durante muitos anos quase que completamente esquecido no país, e ainda hoje ainda não recebe um décimo da atenção que merece.  Depois de sua breve renascença, o pensador conquistou alguns novos admiradores na comunicação e na literatura, voltando em seguida a cair em relativo esquecimento.  São Paulo, por uma série de razões evidentes, é o estado onde ele desfruta de maior popularidade.  Mas não é difícil entender porque Flusser continua sendo tão pouco estudado no Brasil, país onde ele viveu por mais de 30 anos.  Como diz Zielinski em Tiefenzeit der Medien, “Para a academia estabelecida, seu pensamento, caracterizado por saltos mentais entre as disciplinas, é inaceitável mesmo hoje”.  Se Flusser, portanto, já é em essência um pensador marginal, muito mais difícil seria sua assimilação nas universidades brasileiras, extremamente conservadoras no que diz respeito à instituição disciplinar.  Reencontrei Flusser somente depois de começar a me interessar pelas teorias de mídia alemães.  À medida que conhecia o cenário dos estudos de mídia na Alemanha, espantava-me com a expressividade de Flusser na literatura sobre o tema.  Aqui, praticamente não se encontra manual de teoria da comunicação que não o mencione extensamente (uso o termo sem grande rigor.  Na Alemanha, não existe algo inteiramente equivalente ao que no Brasil se conhece como “teoria da comunicação”).  Entretanto, foi apenas após minha chegada a Berlin que consegui ter um panorama mais preciso dessa espantosa popularidade de Flusser.  Na sua apresentação às palestras de Flusser na Bochum Universität, Friedrich Kittler o define como profeta das novas mídias (um qualificativo que boa parte da literatura em alemão retoma continuamente).  Com uma admiração que contrasta com a reserva característica do espírito germânico, assim define Kittler a performance do pensador nas célebres palestras de Bochum: “das barbas do profeta saíam palavras como relâmpagos, pois elas sempre eram ao mesmo tempo juízos” (Aus dem Bart des Propheten kamen Worte wie Blitze, weil sie immer auch Urteile waren).  A partir das muitas referências a Flusser e de certos desenhos estruturais das novas teorias de mídia alemães, começava a esboçar-se uma hipótese ousada, mas na qual me custa cada vez menos acreditar.  Não seria Flusser o grande “pai” desse rico e dinâmico Renascimento do pensamento comunicacional na Alemanha?  Se isso tiver algum fundamento, então estaremos diante de um fenômeno efetivamente impactante: da marginal cidade de Praga, fugindo do nazismo, surge um autor que se fixa em outro território marginal, apenas para anos mais tarde retornar ao umbigo do mundo por via da nação com a qual ele sempre entreteve as mais complexas e contraditórias relações. Foi sonho de Flusser por longo tempo tornar-se um teórico reconhecido na Alemanha, o que finalmente ele conseguiu (não seria isso uma espécie de “vingança simbólica” pelo massacre de boa parte de sua família pelos nazistas?).  Para Zielinski, os territórios marginais – não apenas geográficos, naturalmente, senão também os do pensamento – são precisamente os loci onde se pode encontrar as forças mais criativas e os potenciais mais ricos das dinâmicas culturais e tecnológicas.  Seu “Tempo Profundo da Mídia” é simultaneamente um exercício teórico temporal e topográfico, no qual Praga possui lugar de destaque.  Mas em que sentido não seria absurdo afirmar que Flusser está na origem das novas teorias de mídia alemães? (e, por conseqüência, internacionais, já que, hoje, o centro do interesse acadêmico global parece apontar cada vez mais para terras germânicas, o que se expressa na enorme popularidade de autores como Kittler, Zielinski e Gumbrectht).  Farei uma exposição bastante esquemática nas linhas abaixo, mas sem dúvida se trata de tema que retomarei com bastante fôlego em futuro próximo:

1. o olhar histórico de Flusser sobre o presente baseava-se numa perspectiva de longa duração (um “tempo profundo”, para usar o termo de Zielisnki), onde o passado cumpria papel determinante como estrutura comparativa e contrastiva.  A abordagem de Flusser era a de uma femonenologia temperada de história.  Suas referências fundamentais, especialmente Heidegger, formaram boa parte do arcabouço teórico sustentando as novas teorias de mídia.  Essa perspectiva histórica, fundada numa concepção que privilegia as rupturas e descontinuidades, está na base da nova Mediengeschichte alemã – que, naturalmente, muitíssimo deve também a Foucault;

2. acredito que Flusser foi um importante precursor dos filosofemas pós-humanistas, na forma como eles se expressam em boa parte dos teóricos alemães de hoje, especialmente Kittler.  Já apontei para isso em meu ensaio sobre o Vampyrotheutis, mas trata-se de tema recorrente em toda sua obra.  Em um manuscrito inédito do Arquivo (“Wesen aus einen anderen Welt”), Flusser critica o antropocentrismo que nos afasta de outras espécies e nos impede de compreendê-las: ”Nós disfarçamos nossa frustração por meio da desconsideração de todas as outras espécies” (Wir tarnen unsere Frustration durch Verachtung aller übrigen Arten).  No Vampyroteuthis, o autor assume a posição desse outro radical que é o animal (um dos mais estranhos de todos os animais), numa estratégia narrativa não fundamentalmente diversa da empregada por Manuel de Landa, anos mais tarde, em seu The War in the Age of Intelligent Machines;

3. Flusser foi um pensador profundamente interessado no tema da materialidade, especialmente dos meios.  Paola Bozzi foi quem melhor definiu esse traço flusseriano: “Sua meta é uma diligente comunicação tátil do pensamento com seu objeto como consciente reação ao caráter dominante do significar: portanto, nada de filosofar ‘com o martelo’, mas antes a utopia de um conhecimento não violento, que ‘nasce inteiramente do contato com os objetos’”.  Isso o inscreve em certo paradigma epistemológico que é hoje compartilhado por praticamente todas as novas teorias de mídia, especialmente no programa de pesquisa das “materialidades da comunicação” (Gumbrecht et alii);

4. tenho forte convicção de que certos procedimentos e princípios da arqueologia da mídia foram herdados de Flusser.  Por exemplo, o fascínio com o tema do “achado fortuito” (Zielinski), que encontramos, entre outros lugares, muito bem discutido em sua entrevista com Florian Rötzer incluída em Absolute Vilém Flusser;

5. Em meados dos anos 80, Flusser publicava extensivamente na conceituada Leonardo sobre suas visões a respeito das conexões entre arte, ciência, comunicação e tecnologia.  Aliás, de Leonardo da Vinci ele afirmava ter tomado a noção de fantasia essata, mescla entre saber e imaginação (arte) com que buscava caracterizar seu procedimento teórico.  Todos esses temas formam, naturalmente, um pano de fundo extremamente contemporâneo – e é na Alemanha precisamente onde encontramos com extrema clareza a conjugação de tais universos de pensamento (em Peter Weibel, por exemplo, ou mesmo em Zielinski).

As notas acima são superficiais e fragmentárias.  Obviamente, há muito mais a ser dito sobre a recepção de Flusser na Alemanha.  E acredito que os anos vindouros irão celebrar, finalmente, a internacionalização de Flusser como um dos mais fundamentais pensadores da mídia e da tecnologia em todos os tempos.  O que me provoca certa sensação de estranheza é o percurso que percorri para chegar a Flusser.  Do Brasil, tive de ir para a Alemanha apenas para reencontrar esse pensador, que é, em tantas dimensões de sua obra, profundamente “brasileiro”.  Parti com a proposta de examinar a frágil noção de cibercultura (fragilidade que as teses alemães confirmaram), encontrei Kitttler, Zielinski e Ernst, apenas para, no fim, redescobrir Flusser.  Essa é uma história que ainda está para ser escrita, mas é sem dúvida, uma história característica do “tempo profundo da mídia”.

pós-escrito: hoje, ao ler o pós-escrito de Silvia Wagnermaier a Kommunikologie weiter denken, percebo mais uma das estranhas coincidências (“sincronicidades”?) que me levaram aos fluxos flusserianos.  Em “Vampyrotheutis, a Segunda Natureza do Cinema”, eu abordava o documentário de Davi Le Brun sobre  Ernst Haeckel (“Protheus”, 2004) e aproximava o ensaio-ficção de Flusser de algumas idéias desse naturalista de fins do século XIX.  No texto de Wagnermaier, descubro que Flusser tomara precisamente de Haeckel uma de suas idéias fundamentais: a de que a ontogênese repete a filogênese.  A história desses encontros estranhos (com Haeckel e com o “Museu da Tecnologia Jurássrica”) tem que ser objeto de outro post.  Senão acabo ficando sem histórias para contar…

2 thoughts on “Flusser: pai das novas teorias de mídia?

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  2. Excelente o seu post!

    Flusser foi disruptivo por sua transdisciplinaridade (atravessavando as disciplinas), foi um transgressor, nunca aceitou insígnias academicistas (muito comum entre os titulados da USP), foi um professor inovador e sua vida foi marcada por uma trajetória singular. Como o Vltava, ele era repleto de vieses que levavam, sempre, para algum belo recanto.

    Sobre o fragmento, o que eu gosto é que ele representa pensamentos nômades e, principalmente, articulação subjetiva, desejante. Como na poesia, o fragmento nos remete às presenças dentro do universo autoral. Muito bom Erick felinto!

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