Da Teoria da Comunicação às Teorias de Mídia (Compós 2011)

Pretendia postar aqui alguns trechos do texto que será submetido ao GT “Comunicação e Cibercultura” da Compós em 2011, mas ao ler novamente as regras da Compós sobre ineditismo acabei desistindo.  Ainda que só se caracterize a quebra do ineditismo por meio da publicação integral do texto, resolvi não arriscar.  De todo modo, trata-se possivelmente do texto mais polêmico que já apresentei à Compós e tem um tom panfletário que eu mesmo não costumo apreciar (com raras exceções) em trabalhos alheios.  As razões desse tom são muitas e demandaria tempo explicá-las aqui.  O que posso dizer é que o artigo faz uma dura crítica às discussões sobre Teoria da Comunicação no Brasil e sugere revitalizar tais debates com uma injeção de “cibercultura”.  Devo dizer, porém, que os termos “comunicação” e “cibercultura” (ainda que eu goste do segundo) me soam problemáticos.  Aliás, no artigo eu argumento que talvez “estudos de mídia” – nome do novo curso de graduação da UFF – seja um termo melhor que “estudos de comunicação” ou “teoria da comunicação”.  Naturalmente, discordâncias terminológicas refletem divergências de ordem mais profunda, de natureza ideológica e epistemológica.  Eu posso entender quem aprecia a “comunicação” e até mesmo, em parte, a necessidade obsessiva de usar o termo em títulos de artigos ou projetos de pesquisa (para se marcar, diante dos órgãos de fomento, a legítima pertença do autor ao “campo”).  Não tenho nenhuma resistência radical quanto à palavra, exceto, talvez, o fato de que não acredite muito em alguns dos sentidos que ela implica.  Ou melhor, a minha resistência se dirige especificamente a concepções mais clássicas da comunicação como processo de transmissão de sentido de um emissor A para um receptor B (onde o meio, por exemplo, aparece simplesmente como aparato “transparente” para a condução de sentidos).  Ninguém irá me convencer, contudo, de que esta concepção, por quadrada que seja, não possui ainda bastante força e crédito entre nós.  Como considero o “campo” um espaço plural, constantemente atravessado por diversas disputas simbólicas, acho válida a convivência entre diferentes interpretações do conceito de “comunicação”.  Todavia, as concepções centradas na dimensão hermenêutica da comunicação são absolutamente dominantes no campo.  Alguém precisava defender a pobre e oprimida dimensão material e não-hermenêutica dos processos comunicacionais.  Voltando ao problema das terminologias, eu lembro bem que numa das avaliações iniciais que a Capes fez do projeto do PPGC UERJ aparecia uma crítica ao termo “cultura material”, usado numa ementa de uma das disciplinas propostas.  Um avaliador implicava com a expressão e perguntava o que poderia significar essa conjunção de palavras aparentemente contraditórias.  Ok, vamos abstrair o fato de que na arqueologia (e posteriormente, na antropologia) o uso de tal expressão é mais antigo do que andar para a frente.  Em uma montanha de trabalhos recentes, que mesmo o mais rigoroso delimitador de fronteiras disciplinares consideraria “de comunicação”, “material culture”, “culture matérielle” ou “materielle Kultur” passaram a fazer parte do idioleto teórico corrente.  Isso mostra, precisamente, que a terminologia científica não é imune aos ditames históricos ou mesmo às modas intelectuais de cada período e lugar.  Afinal, não estamos hoje no Brasil completamente fascinados com os termos “dispositivo” e “não-lugar”, que há 30 anos atrás não fariam nenhum sentido?  Com “comunicação” e seus múltiplos sentidos, não é muito diferente.  É um termo que, aliás, se usa bem menos em outros ambientes intelectuais.  Bom, o resumo da história é que o artigo da Compós precisava ser provocativo.  Seu objetivo é desestailizar aqueles blocos de sentido que se tornam “congelados” na estruturação das redes discursivas sobre a produção do conhecimento em um campo.  Minhas razões são simetricamente opostas às do avaliador mencionado acima.  Quero pôr em cheque “comunicação”, “sentido” e “meio” não por parecerem termos ousados, “pouco científicos” ou excessivamente inovadores, mas exatamente pelo contrário, devido ao perigo de se transformarem em entidades imóveis, fixas e platonicamente definidas ad aeternum.  Não se trata de um gesto tolo de rebeldia jovem (bom, talvez para a academia eu ainda seja jovem), mas de dar uma sacudida nas coisas.  Ezra Pound dizia que o poeta é a “antena da raça”. Ora, eu acredito que o pesquisador deve ser, com muito mais razão, “uma antena da raça”.  Tem que estar antenado com o que se passa no mundo e os ventos que sopram através dos tempos.  Não significa abdicar do passado (algo a que minha formação fortemente humanística resistira ardentemente), mas procurar outras e novas formas de enxergá-lo.  Eu tenho a impressão de que, no Brasil, a teoria da comunicação necessita de uma boa sacudida.  Naturalmente, eu posso oferecer apenas um pequeno soprinho, mas convido quem tiver um mínimo de interesse teórico a soprar junto.  O GT de Epistemologia da Compós tem feito constantes apelos de engajamento a pesquisadores interessados em questões teóricas.  Eu mesmo tenho vontade de voltar a participar (como fiz em 2004, se não em engano), mas por enquanto continuo no GT de Cibercultura, já que estou na condição de vice-coordenador, ao lado do Alex…

One thought on “Da Teoria da Comunicação às Teorias de Mídia (Compós 2011)

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