Vida Acadêmica e Modéstia

O que qualifica alguém para a vida acadêmica?  Por mais surpreendente que isso possa parecer, eu diria que não são apenas qualidades como a erudição ou as habilidades verbais.  Talvez sejam necessárias também outras características que estão “fora de moda” ou que temos vergonha de discutir fora de ambientes mais íntimos.  A modéstia seria um desses traços necessários.  Sim, admito que é muito fácil ser seduzido pelas estruturas adulatórias da vida acadêmica, e já tive meus momentos de fraqueza. Mas o que faço para combater essa tentação é pensar em algumas das minhas grandes referências e perceber a quantos anos-luz de distância me encontro de sua magnitude.  Como dizia Bernardo de Chartres, “somos anões nos ombros de gigantes”. É fato que títulos de qualquer espécie são altamente enganosos, e já encontrei doutores que mal sabiam escrever.  Por outro lado, existem aqueles que são realmente bons, mas permitem que isso lhes suba à cabeça de tal modo que se tornam seres humanos insuportáveis.  Um desses tipos (que tive o desprazer de conhecer) ocupou cargo muito alto nas hierarquias acadêmicas do país, mas não creio que tenha feito muitos amigos ou deixado saudades onde passou.  Outro exemplo foi o de um colega que, ao experimentar êxito meteórico, acabou tornando-se um chato de galocha, capaz de falar apenas de seu trabalho e inúmeras conquistas.  Talvez seja necessário certo senso de humor, inclusive para consigo mesmo.  Quem se leva muito a sério corre o risco de se tornar um extremista e, em alguns casos, beirando a psicopatia.  Eu procuro encontrar situações humoradas dentro dos ambientes normalmente sérios e antissépticos da academia.  E elas existem, colaborando para tornar a vida mais leve.  Como, por exemplo, aquela ocasião em que, numa vetusta instituição de pesquisa, o sujeito apresentou um trabalho sobre Heidegger acompanhado de um pandeiro (bom, Nietzsche dizia que só podia acreditar num deus que dançasse, por que não um filósofo sambista?).  Creiam-me, a vida acadêmica está recheada de momentos surreiais.  Senão, vejamos a narrativa abaixo, que escrevi há alguns anos atrás em um blog já extinto…

“Ninguém pode dizer que a vida acadêmica no Brasil é chata. Além da aventura dos baixos salários, da burocracia kafkiana e da falta de infra-estrutura e apoio estatal, o que obriga os pesquisadores daqui a serem mais criativos e “descolados” que os do estrangeiro, não nos faltam aqui várias outras fontes de diversão e entretenimento.  Uma delas é propiciada por certa “corrente epistemológica” que viceja em alguns departamentos e institutos de nossas universidades.  Essa corrente prega a libertação das “amarras” do “formalismo” que caracteriza os rituais acadêmicos e as práticas científicas tradicionais.  Não é incomum a gente se deparar com entusiasmados mestrandos e doutorandos ansiosos por “romper todos os paradigmas” e produzir uma tese ou dissertação com pretensões poéticas e libertárias.  Podemos perdoá-los por sua ingenuidade, atribuindo aos excessos da juventude ou à incompreensão do real significado do conceito de scholarship a culpa por essa falta de humildade acadêmica.  Fica difícil, porém, perdoar o professor que incutiu na cabeça do pobrezinho tamanho conjunto de fantasias egocêntricas e total ausência de bom senso.  Afinal, supõe-se que este último tenha maturidade intelectual para reconhecer o absurdo das pretensões que esse tipo de trabalho envolve.  Certamente é possível que apareça por aí um jovem gênio capaz de alçar vôos sem nenhuma preocupação com aquelas coisinhas insignificantes que são objeto, objetivos, problemas ou hipóteses.  Porém, como diz Umberto Eco, “sabe-se que quando um gênio desses surge na face da terra a humanidade não toma consciência dele de uma hora para outra; sua obra é lida e digerida durante alguns anos antes que se descubra a sua grandeza.  Como pretender que uma banca ocupada em examinar não uma, mas inúmeras teses, se aperceba imediatamente da magnitude desse corredor solitário?”.  Mas – hélas! –, na maioria das vezes não é com um desconhecido gênio que nos defrontamos, senão com mentes que foram alimentadas, por anos a fio, com esse enganoso discurso da ruptura, da originalidade e do relativismo “libertário”.  E por que afirmo que é descaradamente falso o tal discurso?  Em primeiro lugar porque qualquer cabeça razoavelmente sensata percebe de imediato a completa ausência de originalidade das teses e dissertações concebidas segundo tal modelo.  Geralmente, não vão muito além da repetição de uma série de chavões baseados em conceitos de autores como Foucault, Deleuze, Derrida e vários outros que compõem o idioleto epistemológico “fashionable” em nosso meio acadêmico.  Pobres franceses, que além de terem seus textos citados e recitados em simplificações ingênuas e servis, ainda têm, muitas vezes de suportar a imitação de seu “estilo” de escrita por parte dos jovens (e muitos não tão jovens) pós-graduandos que irão revolucionar a forma do mundo produzir conhecimento!  Seus espíritos são incessantemente convocados da tumba para justificar, com o mais tradicional dos argumentos, o magister dixit, a “originalidade” da ousada tese. Sem esses nomes não se faz nada. Ou Derri ou dá!  Em segundo lugar, a revolução proposta pelo trabalho assim concebido é de natureza extremamente singular, dado que ela só costuma alcançar o próprio autor do texto.  Em outras palavras, se algum dia alguém se der ao trabalho de ler essa contribuição ao progresso da humanidade, arquivada em alguma estante escondida das nossas bibliotecas universitárias, terá ainda de decifrar a hermética mensagem ali contida.  Isso porque, em sua pretensão de serem poéticos ou literários (ou precisamente de imitarem o estilo de seus mestres), os incompreendidos autores nos oferecem um texto que nossa limitada mente é absolutamente incapaz de entender.  Ou seria simplesmente por que não fazem sentido algum?  Tal possibilidade é verdadeiramente aterradora.  Mas talvez a ausência de sentido também seja um dos princípios regentes desse modelo não-formalista.  Ah, afinal de contas, se hipótese, objeto e problema já estão ultrapassados, então por que não lançar fora também essa coisa quadrada do sentido?!?  É realmente um golpe de gênio de nossos colegas revolucionários.  Evitam que os pentelhos formalistas venham lhes cobrar alguma coerência.  Assim eles podem ter sempre razão e acusar todo o resto do mundo de não captarem a profundida de suas falas. Recentemente li uma tese que seguia esse modelo de ponta a ponta. Como tese de doutorado era um trabalho ruim de literatura.  Logo percebi, contudo, que a culpa não era do doutorando, nitidamente um sujeito esforçado, sério e inteligente, mas de todo um sistema falacioso que não se cansa de propagar esse discurso e converter mentes com verdadeiro potencial em uvas passa retorcidinhas e condicionadas a responder toda questão com algum subterfúgio retórico. Foi uma experiência surrealista; por alguns instantes pensei estar sonhando.  Tentava, com grande esforço, captar algum fiapo de sentido, alguma explicação, alguma lógica no que estava sendo dito naquele espaço “acadêmico”.  Em lugar disso, escutava apenas algumas frases de efeito, meia-dúzia das mais previsíveis citações literárias e o elogio insistente da incoerência.  Confesso: ao lado de uma colega que compartilhava do meu estranhamento diante do peculiar trabalho de doutorado, comecei a sentir-me ignorante! Éramos encarados com um misto de superioridade e piedade complacente por parte daqueles que, na vanguarda do conhecimento, já haviam transcendido o mortal reino da lógica. Fiquei com vontade de citar algum autor, mas – maldição! – todo mundo já tinha usado Foucault, Deleuze, Marc Augé e Bruno Latour.  Daí passei para a literatura: Fernando Pessoa também já havia sido convocado (afinal, “navegar é preciso”), mas ainda restava muita gente: Guimarães Rosa, Lautréamont, Rimbaud, Baudelaire…. quem sabe algum bem obscuro, uma vingança da literatura contra esse seu mau uso: um Léon Bloy, um Felisberto Hernández, um Angelus Silesius!  Mas consegui me conter e fiquei calado.  Em algum momento teria de despertar do pesadelo.  Sim, amigos, eu sobrevivi.  Ainda não estou seguro quanto à extensão dos danos cerebrais, mas pretendo fazer uma tomografia em breve.  Nesse meio tempo, vou tentando retornar ao mundo real.  Um mundo no qual certamente não existe uma verdade absoluta, mas em que um mínimo de consenso em torno de nossas ficções é necessário para que possamos continuar dialogando e nos entendendo mutuamente.  Mas ainda me arrepio com a possibilidade de reviver a experiência.  É, prezados, o autismo intelectual é um dos vários divertimentos que tornam a vida na academia interessante.  Porém, o pensamento de que uma mente educada nos bancos das universidades deste país possa professá-lo com convicção também não deixa de ser assustador”.

Não nos iludamos.  Casos ainda mais dramáticos existem por aí.  Meninos, eu vi!  E como afirmo acima, não creio que culpa maior seja dos mestrandos e doutorandos que caem na armadilha da auto-complacência e da pretensão excessiva.  A responsabilidade principal é daqueles mais experientes, que, após anos e anos de leitura e vivência, ainda não conseguem perceber que o mundo é maior que seus umbigos.  Existem mestrandos e doutorandos melhores (e certamente mais modestos) que muitos professores por aí.  Mas muitos também são aqueles que, influenciados pelo mestre, adquirem seus vícios e equívocos.  Como dizia o velho Guimarães Rosa, “mestre não é só aquele que ensina, mas também que aprende”.  Nós corremos constantemente o risco de recair em ataques de frescura acadêmica e estrelismo.  Ninguém está imune.  É o perigo permanente de, como exprime uma amiga minha totalmente alheia (para sua felicidade) ao mundo acadêmico, tornar-se um “intelectual sebento”.  Nesses momentos, talvez ajude assistir a The Big Bang Theory


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Breve Relato de Pesquisa

De volta do intervalo de fim de ano, não poderia deixar de contar algumas novidades e recuperar o tempo perdido.  Em primeiro lugar, terminado o texto da Compós, comecei a me envolver mais ativamente com três projetos que deverão ser desdobrar em vários outros.  Dois são traduções de livros – um de filosofia e outro de “cibercultura” – e o terceiro ainda é cedo para divulgar.  Na verdade, os três estão entrelaçados de algum modo.  Paralelamente, no Arquivo Flusser, as surpresas continuam e me deixam cada vez mais convicto do extraordinário papel do autor da “Filosofia da Caixa Preta” no desenvolvimento das recentes teorias alemães de mídia.  Sobre sua influência na Alemanha, vale consultar o texto de Andreas Ströhl publicado no blog de Gustavo Bernardo. É curioso que tive de sair do Brasil para reencontrar o pensador (europeu/brasileiro) central para a proposta de “Cartografias da Cibercultura”.  Confesso que minhas primeiras impressões de Flusser (desde 1994 e mais intensamente a partir de 2008) foram mescladas.  Mesmo depois de assistir e legendar em português suas palestras compiladas no DVD “We Shall Survive in the Memory of Others”, ainda alimentava certa desconfiança em relação às boutades e afirmações bombásticas de Flusser.  Entretanto, depois de ler dezenas de seus textos nos arquivos e principalmente as falas publicadas em Kommunikologie weiter denken, minhas resistências cairam por terra.  Hoje descobri no arquivo o volume da Kunstforum que compila uma série de textos de homenagem póstuma ao filósofo.  Ali, Friedrich Kittler repete a retórica do prefácio de Kommunikologie, classificando Flusser como profeta da era midiática (“Die jüngsten Ohren konnten hören, was ein Prophet mit flammenden Brillengläsem und grauem Bart im allmählichen Verfertigen der Gedanken beim Reden erkannte”).  Incidentalmente, me divertiu encontrar, numa das cartas inéditas a Milton Vargas, algumas críticas que Flusser faz a “verbolatria” característica de certas vertentes do estudos comunicacionais no Brasil:  “os termos ‘mensagem’, ‘meio’, ‘significado’. ‘símbolo’ etc. são usados indiscriminadamente e consituem verdadeira diareia [sic] verbal mistificante” (27a).  É um pouco como a obsessão que nossas discussões recentes sobre epistemologia da comunicação apresentam em relação ao termo “mídia”.  Palavra mágica que garantiria a pertença de uma questão ou pesquisa ao campo da comunicação, ela nunca chegou a ser, entretanto, profundamente debatida e definida (ou, o que seria ainda melhor, questionada).  Mas deixemos isso de lado para fazer um resumo do avanço da investigação.  Minha pesquisa propunha mapear as novas teorias de mídia alemães com a aposta de que nelas se poderia encontrar uma tríade vital para o aperfeiçoamento e a renovação do fôlego dos estudos de cibercultura.  De fato, à medida que me enterro na bibliografia, a tríade materialidades, medialidades e temporalidades faz cada vez mais sentido.  E não é coincidência que os trabalhos sobre cibercultura que me parecem menos interessantes (e ultrapassados) se apoiam numa visão caracterizada, precisamente, por vetores que se podem traduzir em imaterialidade, mídia e atemporalidade.  Vivemos agora já um momento bem diferente daquele da emergência das tecnologias digitais, quando se falava intensamente na “desmaterialização” do corpo e na “virtualização” do mundo no ciberespaço.  Esse novo cenário nos conduziu também à necessidade de questionar a noção de mídia enquanto uma realidade pronta, claramente delineável e imutável (melhor, assim, falar em “medialidades”), bem como a insistência em uma visão deshistoricizada da cibercultura.  Hoje, multiplicam-se os estudos que procuram adotar perspectivas genealógicas e/ou arqueológicas para o surgimento dos fenômenos ciberculturais.  Em lugar de apenas imaginar futuros possíveis (na maioria das vezes triunfalistas), faltava traçar origens, buscar fundamentos e encontrar o novo no antigo – como sugere Zielinski.  Todavia, se tais perspectivas constituem parte essencial do conjunto heterogêneo de autores e teorias que temos definido como “estudos de mídia alemães”, eles podem ser encontrados também com cada vez maior freqüência em diversos outros cenários.  O que distingue o caso alemão é a clareza e profundidade com que tais eixos foram adotados como vetores de pesquisa.  Pode ser, também, que as perspectivas mais interessantes para os estudos de cibercultura em anos vindouros se encontre em outros territórios, em contextos e autores que (como Jussi Parikka) souberam absorver as boas lições dos alemães e refiná-las.  Pode ser até que os ventos de renovação nas terras germânicas estejam começando a perder suas forças.  Claudia Breger, em seu artigo “Gods, German Scholars, and the Gift of Greece: Friedrich Kittler’s Philhellenic Fantasies”, faz interessantes e reveladoras críticas à singular mudança de rumo na obra de Kittler em anos recentes (representada pelos trabalhos publicados principalmente a partir de Vom Griechenland).  O certo é que ainda temos muito a ganhar (em termos teóricos) se empreendermos um estudo sério dos autores alemães.  A dificuldade, naturalmente, ainda é a barreira lingüística.  Contamos apenas com uma meia dúzia de traduções dos scholars mais importantes em português ou inglês.  Mas Flusser é um bom começo.  Como eu já afirmei em outros lugares, Flusser é considerado, na Alemanha, um autor “alemão”, um precursor das novas teorias de mídia por aqui.  Efetivamente, existem boas razões para isso, dada a relação de Flusser com a língua e a cultura alemã – bem como o fato de que esse intelectual continuamente exilado encontrou mais abrigo e acolhida aqui do que na terra onde viveu por mais de 30 anos.  Nesse sentido, não estará na hora de fazermos uma “mea culpa teórica”? Já seria alentador se começássemos pelo menos a ler sua obra em português…

Os números de 2010

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Uau.

Números apetitosos

Imagem de destaque

Um Boeing 747-400 transporta 416 passageiros. Este blog foi visitado cerca de 12,000 vezes em 2010. Ou seja, cerca de 29 747s cheios.

Em 2010, escreveu 30 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 49 artigos. Fez upload de 8 imagens, ocupando um total de 7mb.

O seu dia mais activo do ano foi 11 de março com 837 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Os Segredos de Sucesso da Vida Acadêmica.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram twitter.com, facebook.com, erickfelinto.com, networkedblogs.com e doctorzamalek2.wordpress.com

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por ivana bentes avatar, carpintaria das coisas, coisas filosoficas, graham harman e carpintaria

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

Os Segredos de Sucesso da Vida Acadêmica março, 2010
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Essa Coisa que Sou agosto, 2009
4 comentários

3

Harman, the Other Prince of Networks maio, 2010
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Meus Livros (1) agosto, 2009
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Bruno Latour, o Príncipe das Redes maio, 2010
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