Breve Relato de Pesquisa

De volta do intervalo de fim de ano, não poderia deixar de contar algumas novidades e recuperar o tempo perdido.  Em primeiro lugar, terminado o texto da Compós, comecei a me envolver mais ativamente com três projetos que deverão ser desdobrar em vários outros.  Dois são traduções de livros – um de filosofia e outro de “cibercultura” – e o terceiro ainda é cedo para divulgar.  Na verdade, os três estão entrelaçados de algum modo.  Paralelamente, no Arquivo Flusser, as surpresas continuam e me deixam cada vez mais convicto do extraordinário papel do autor da “Filosofia da Caixa Preta” no desenvolvimento das recentes teorias alemães de mídia.  Sobre sua influência na Alemanha, vale consultar o texto de Andreas Ströhl publicado no blog de Gustavo Bernardo. É curioso que tive de sair do Brasil para reencontrar o pensador (europeu/brasileiro) central para a proposta de “Cartografias da Cibercultura”.  Confesso que minhas primeiras impressões de Flusser (desde 1994 e mais intensamente a partir de 2008) foram mescladas.  Mesmo depois de assistir e legendar em português suas palestras compiladas no DVD “We Shall Survive in the Memory of Others”, ainda alimentava certa desconfiança em relação às boutades e afirmações bombásticas de Flusser.  Entretanto, depois de ler dezenas de seus textos nos arquivos e principalmente as falas publicadas em Kommunikologie weiter denken, minhas resistências cairam por terra.  Hoje descobri no arquivo o volume da Kunstforum que compila uma série de textos de homenagem póstuma ao filósofo.  Ali, Friedrich Kittler repete a retórica do prefácio de Kommunikologie, classificando Flusser como profeta da era midiática (“Die jüngsten Ohren konnten hören, was ein Prophet mit flammenden Brillengläsem und grauem Bart im allmählichen Verfertigen der Gedanken beim Reden erkannte”).  Incidentalmente, me divertiu encontrar, numa das cartas inéditas a Milton Vargas, algumas críticas que Flusser faz a “verbolatria” característica de certas vertentes do estudos comunicacionais no Brasil:  “os termos ‘mensagem’, ‘meio’, ‘significado’. ‘símbolo’ etc. são usados indiscriminadamente e consituem verdadeira diareia [sic] verbal mistificante” (27a).  É um pouco como a obsessão que nossas discussões recentes sobre epistemologia da comunicação apresentam em relação ao termo “mídia”.  Palavra mágica que garantiria a pertença de uma questão ou pesquisa ao campo da comunicação, ela nunca chegou a ser, entretanto, profundamente debatida e definida (ou, o que seria ainda melhor, questionada).  Mas deixemos isso de lado para fazer um resumo do avanço da investigação.  Minha pesquisa propunha mapear as novas teorias de mídia alemães com a aposta de que nelas se poderia encontrar uma tríade vital para o aperfeiçoamento e a renovação do fôlego dos estudos de cibercultura.  De fato, à medida que me enterro na bibliografia, a tríade materialidades, medialidades e temporalidades faz cada vez mais sentido.  E não é coincidência que os trabalhos sobre cibercultura que me parecem menos interessantes (e ultrapassados) se apoiam numa visão caracterizada, precisamente, por vetores que se podem traduzir em imaterialidade, mídia e atemporalidade.  Vivemos agora já um momento bem diferente daquele da emergência das tecnologias digitais, quando se falava intensamente na “desmaterialização” do corpo e na “virtualização” do mundo no ciberespaço.  Esse novo cenário nos conduziu também à necessidade de questionar a noção de mídia enquanto uma realidade pronta, claramente delineável e imutável (melhor, assim, falar em “medialidades”), bem como a insistência em uma visão deshistoricizada da cibercultura.  Hoje, multiplicam-se os estudos que procuram adotar perspectivas genealógicas e/ou arqueológicas para o surgimento dos fenômenos ciberculturais.  Em lugar de apenas imaginar futuros possíveis (na maioria das vezes triunfalistas), faltava traçar origens, buscar fundamentos e encontrar o novo no antigo – como sugere Zielinski.  Todavia, se tais perspectivas constituem parte essencial do conjunto heterogêneo de autores e teorias que temos definido como “estudos de mídia alemães”, eles podem ser encontrados também com cada vez maior freqüência em diversos outros cenários.  O que distingue o caso alemão é a clareza e profundidade com que tais eixos foram adotados como vetores de pesquisa.  Pode ser, também, que as perspectivas mais interessantes para os estudos de cibercultura em anos vindouros se encontre em outros territórios, em contextos e autores que (como Jussi Parikka) souberam absorver as boas lições dos alemães e refiná-las.  Pode ser até que os ventos de renovação nas terras germânicas estejam começando a perder suas forças.  Claudia Breger, em seu artigo “Gods, German Scholars, and the Gift of Greece: Friedrich Kittler’s Philhellenic Fantasies”, faz interessantes e reveladoras críticas à singular mudança de rumo na obra de Kittler em anos recentes (representada pelos trabalhos publicados principalmente a partir de Vom Griechenland).  O certo é que ainda temos muito a ganhar (em termos teóricos) se empreendermos um estudo sério dos autores alemães.  A dificuldade, naturalmente, ainda é a barreira lingüística.  Contamos apenas com uma meia dúzia de traduções dos scholars mais importantes em português ou inglês.  Mas Flusser é um bom começo.  Como eu já afirmei em outros lugares, Flusser é considerado, na Alemanha, um autor “alemão”, um precursor das novas teorias de mídia por aqui.  Efetivamente, existem boas razões para isso, dada a relação de Flusser com a língua e a cultura alemã – bem como o fato de que esse intelectual continuamente exilado encontrou mais abrigo e acolhida aqui do que na terra onde viveu por mais de 30 anos.  Nesse sentido, não estará na hora de fazermos uma “mea culpa teórica”? Já seria alentador se começássemos pelo menos a ler sua obra em português…

One thought on “Breve Relato de Pesquisa

  1. Muito legal, Erick! Que bom que você está aproveitando bem sua estadia na Alemanha! Melhor ainda para nós, apreciadores e estudiosos de Flusser e das teorias da mídia. Muito bem apontada sua observação de que estamos já bem distantes do momento da emergência das tecnologias digitais e que é importante repensar o conceito de mídia. Cabe agora aos pesquisadores de cá despertarem para isso também! Bjs

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