O Declínio da Erudição

Já escrevi sobre isso antes em algum lugar, mas o tema acaba de retornar à minha cabeça.  Hoje conversei com uma pessoa conhecida que me comentava sobre o nível de um candidato a uma posição em uma universidade norte-americana.  Eu já havia intuído que se tratava de alguém com bem pouca densidade intelectual, e nessa conversa eu tive a confirmação.  A essa altura, esse tipo de coisa não me deixa nem um pouco surpreso.  Depois de conhecer muita gente em universidades na Europa, no Brasil e nos EUA, minha disposição normal é a de sempre esperar muito pouco.  Quando o sujeito consegue resumir uma ou duas teses de Foucault ou mencionar um livro de McLuhan eu já fico até bastante satisfeito… Na verdade, eu diria mesmo que no Brasil nós estamos bastante bem em comparação com o cenário internacional (pelo menos nas áreas que conheço).  Mas não deixa de ser uma situação preocupante.  O que se pode esperar dos professores e pesquisadores que estão por aí e que formarão as gerações futuras?  Naturalmente, existem as exceções (que confirmam a regra) e proporcionam alguma esperança diante de cenário tão sombrio.  Na área de comunicação, eu poderia citar vários nomes de colegas que nada deixam a dever a alguns “pop stars” internacionais da academia. Essas são pessoas verdadeiramente apaixonadas pelo que fazem, que amam o conhecimento e gostam de ensinar, ler e escrever.  Por outro lado, no Brasil e lá fora, vejo certas figuras serem incensadas sem entender o que existe de fato por trás delas capaz de atrair tanta atenção.  Intriga-me constatar como é fácil enganar as audiências universitárias.  E paira no ar a insistente questão: como estaremos daqui a algum tempo, digamos, uns 20 anos? Pois a situação não parece estar melhorando com o tempo; possivelmente o contrário.  Não é sem razão que eu vivo batendo na tecla da formação humanística.  É ótimo que o sujeito saiba bastante sobre um determinado assunto, mas isso não basta para lhe garantir nenhum papel relevante no domínio da produção de conhecimento.  É vital que a paixão pelo saber não seja monogânica! Quanto mais vagabundo e “galinha” em termos do seu amor pelo saber for o cidadão, mais chances ele terá de produzir um pensamento inovador.  Afinal, não foram exatamente assim todos os pensadores e mestres que marcaram indelevelmente nossa cultura?  Este ano se comemora o centenário do nascimento de Marshall McLuhan, e na Transmediale 2011, em Berlin, se organizaram vários eventos em sua homenagem. Como Flusser, McLuhan era um “Bodenlos” (sem solo), um obsceno amante de vários campos do saber.  E também como o exilado de Praga, McLuhan tomava riscos enormes, não tinha medo de errar, e só por causa disso conseguiu acertar tanto.  Além disso, mesmo seus erros são interessantes. A Transmediale lançou aqui a versão (inédita) de 1954 de Counterblast, um tipo de obra que, hoje, pouquíssimos professores universitários e pesquisadores teriam coragem de escrever.  No sábado, Baruch Gottlieb vai organizar uma montagem de vídeos onde Flusser e McLuhan se confrontam, acompanhada de uma encenação que porá os dois gigantes em debate.  Grande idéia, pois não é à toa que Flusser já foi comparado (mais de uma vez) ao autor canadense.  Óbvio, esses são casos extremos, e não estou dizendo que temos que ser todos como Flusser ou McLuhan.  Quando leio um cara como Gilbert Durand, por exemplo, eu me sinto tão insignificante que fico com vontade de me esconder debaixo da mesa.  Mas que hoje nos falta um pouquinho mais de empenho e ambição, isso falta!  Atualmente, quando o cara fala direitinho uma língua estrangeira, já se acha a última Coca-Cola do deserto…  Porque a ignorância é freqüentemente acompanhada de falta de senso crítico.  Ser ignorante não é uma vergonha, querer persistir nela sim.  Por isso é um bom exercício espiritual meditar sobre os grandes mestres, como Gadamer, Foucault ou George Steiner: diante deles eu me sinto uma ameba, e isso me impulsiona sempre para frente.  Eu sei que vivemos em uma época que não favorece o tempo lento da leitura, a dedicação cuidadosa ao aprendizado.  As exigências de produtividade dos órgãos de fomento nos levam a escrever sem conseguir parar para ler.  As demandas da vida cotidiana na sociedade “eletrônica” nos colocam em uma situação bastante diferente daquela de Heidegger, fechado em sua cabana na Floresta Negra, cortando lenha e lendo livros de filosofia. Mas será que não conseguimos ao menos alçar a vista um pouquinho mais para cima?  Eu sei ainda que muita gente (pasmen, inclusive na academia!) não gosta da palavra erudição.  Acham que ser erudito é sempre ser pretensioso; pensam que querer saber muito é um delírio narcisista.  Enfim, julgam os que têm curiosidade insaciável e acumulam saber com a medida mesquinha de seu próprio caráter.  Mas vamos, pois, colocar os pés no chão e falar sobre os extremos: o que realmente assusta é que tem gente por aí assumindo cátedras universitárias sem conseguir concatenar duas frases.  O problema, hoje, já não é se o sujeito é erudito ou não.  O problema é se ele sabe concordância verbal e nominal.  Eu não estou exagerando.  Vejo isso todos os dias.  Portanto, meu caro colega: se você é professor, estudante de mestrado ou doutorado, em primeiro lugar reconheça sua monumental ignorância.  Em seguida, encontre um modelo e procure mirar-se nele.  Provavelmente você não alcaçará as alturas estratosféricas de seu ídolo (principalmente se for alguém do calibre de um Heidegger).  Mas certamente estará disposto a levar mais a sério a carreira que escolheu seguir e isso o tornará um bom professor ou pesquisador. É assim que tudo começa.  Quem não tem ídolos, quem não acredita em nada nunca vai conseguir acreditar em si mesmo.  Como disse Paracelso, “quem nada conhece, nada ama”. E depois que você acumular todo esse magnífico conhecimento, para que exatamente ele vai te servir?  Para NADA, absolutamente nada.  Pois o saber, assim como a arte, a filosofia e o amor não tem nenhuma função prática.  Mas sem eles, a vida fica muito mais chata.  Óbvio, muitíssimas pessoas irão passar sua existência inteira absolutamente felizes e bem resolvidas, sem nunca terem ouvido falar no “imperativo categórico” ou na teoria da informação de Shannon.  Mas não é deles que estou falando aqui.  Falo desses seres estranhos, alienígenas, sempre mal resolvidos e complexados que são os curiosos insaciáveis.  Essas pobres criaturas estão condenadas ao martírio de uma sede sem fim.  Mas também têm o privilégio de desfrutar de um dos maiores prazeres da vida humana, além do chocolate.  Pois pensar é uma aventura incomparável, uma satisfação que chega a ser de ordem erótica!  E lembre: não importa o tamanho do livro que você leia, mas sim o prazer que ele proporciona.

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