Autoria, Cultura Digital, Minc e Caetanês

“É porque acho que devemos respeitar os direitos autorais. Sem concessões. A internet que se vire. Ela e toda sua multidão de internautas em blogs e redes sociais que se vejam na situação de introjetar as leis da vida off-line, a nossa vida. Daqui de fora, podemos exigir” (Caetano Velloso)

Há algo estranho no reino da Holanda (antes era na Dinamarca).  Se ainda era algo ambígua a retirada da licensa Creative Commons do site do Minc, agora não parecem restar muitas dúvidas quanto à posição da ministra Ana de Holanda em relação a temas como direito autoral e acesso a bens culturais.  Na verdade, fica difícil evitar a impressão de que Ana de Holanda está deliberadamente esbofeteando os defensores da cultura livre (e toda a política cultural do governo Lula).  Que outra explicação haveria para a reprodução desastrada do infeliz texto de Caetano no site do Minc?  Convenhamos: alguém lembra um ministério que em tão pouco tempo de atuação tenha conseguido cometer tantas gafes?  Será que nenhum acessor do MINC percebeu, antes de publicar o libelo, as alfinetadas que o músico dava em Lula?  Era mesmo necessário que alguém voltasse lá mais tarde e convenientemente “editasse” o texto, deixando apenas sua primária e patética defesa de um modelo ultrapassado de direito autoral? Ops, alguém realmente dormiu no ponto…  E em meio a toda a turbulência, Ana de Holanda mantém-se incompreensivelmente silenciosa, como se pairasse divinamente acima de tudo isso.  Pode ser uma curiosa expressão de wishful thinking: “se ficarmos quietinhos aqui, depois de um tempo esses chatos vão se cansar e nos deixar em paz…”  Mas vamos ao texto de Caetano.  Nada contra o artista, sem dúvida um dos grandes criadores da história da música brasileira.  Porém, infelizmente, isso não o qualifica a tecer análises sobre nenhum dos pontos abordados no texto – a respeito dos quais ele demonstra o mais absoluto desconhecimento.  Aliás, numa comparação bastante realista, eu diria que Caetano entende tanto de internet quanto eu entendo de geometria das estruturas hiper-espaciais.  O problema é que no Brasil, o sujeito que leu mais de cinco livros e consegue colocar três palavras em seqüência sintaticamente correta já é considerado um “intelectual”.  E por mais que eu simpatize com o Caetano e aprecie sua música, já não consigo mais me divertir com as expressões pitorescas do “caetanês”.  A melhor parte do artigo, evidentemente, é aquela onde ele confessa: “como todos, sinto-me perdido”.  A mais infeliz, naturalmente, são as linhas finais que reproduzi acima.  Citando algumas leituras de rodapé do Lessig e do Keen, ele chega à fantástica conclusão de que a realidade deve se curvar ao que ele acha ser o certo.  “A internet que se vire”.  Aliás, esqueci também de mencionar o tremendo ato falho da frase em que ele reconhece ser Keen um “moralista de tom panfletário”, mas que no essencial “tem razão”.  Estranhos tempos esses em que os antigos defensores da liberdade dão razão aos “moralistas panfletários” (ou será que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”?).  Mas o mais perturbador é efetivamente a segurança com que Caetano esfumaça toda a complexidade dos debates em torno das questões discutidas com seu simples “ainda acho que…”.  Ora, será possível que alguém inteligente como Caetano ache realmente que a “internet vai se virar”?  Será que ele pensa que milhões de internautas plugados em um gigantesco banco de dados mundial vai se conformar com um modelo de posse e distribuição cultural inteiramente inadequado às realidades desse admirável mundo novo digital?  Seria como eu ir para a rua e gritar: “olha, todo mundo, por favor parem imediatamente de usar Bitorrent, Emule, Limewire ou quaisquer software de compartilhamento!  O Caetano exige!” – e esperar que alguém me atendesse.  Será realmente que ele se acha capaz de conseguir aquilo que nenhuma das majors (de Hollywood a todas as grandes gravadoras) conseguiu até agora? Não posso crer que se trata de ingenuidade ou séria disfunção cognitiva, mas o fundamento desse raciocínio realmente me escapa.  Talvez esse libelo de Caetano seja, na verdade, um grito de desespero diante da inevitabilidade das mudanças que estão por vir.  Pois se há um elemento que unifica os detratores da cultura comum é seu pânico diante do novo.  Que outra razão poderíamos encontrar por trás dos risíveis desmandos do Minc?  O paradoxo dessa situação é que quanto mais se percebe a impossibilidade de frear o avanço dos tempos, mais intensamente se resiste contra eles.  Por mais truculenta e desagradável que possa ter sido a invasão de copiadoras em universidades públicas pela Polícia Federal, não se pode evitar também a impressão de que se trata de uma farsa com tonalidades cômicas.  Pois, no fundo, todos sabem, inclusive os donos de editoras, que tudo não passa de um grande teatro completamente inócuo.  É nesse mesmo registro que devemos ler o texto de Caetano.  Pois efetivamente ele não é mais que um componente desse vasto jogo cênico servindo para oferecer a certas esferas de autoridade (aqui lembrando, naturalmente, a conexão etimológica das palavras “autor” e “autoridade”) algum tipo de conforto simbólico.  Ora, bem nos escuros recônditos de sua alminha assustada, até mesmo o ECAD sabe disso.  Pois não há outro modo de explicar, em meio ao calor de toda essa polêmica, a ampla divulgação de sua meta de cobrar dos blocos de rua os direitos sobre as marchinhas que vierem a usar.  Ou será que eles não imaginavam que essa atitute iria lhes conquistar a virulenta antipatia de toda a sociedade carioca?  É no momento do fôlego final que o moribundo mais fortemente se agarra ao último fiapo de vida. E agora me pego pensando que os autores que mais decididamente deixaram sua “marca” foram precisamente os que mais questionaram o rótulo de “autor”.  Gente como Flusser, Borges e Kafka, que já pressentiam, desde há muitos anos, a corrosão progressiva desse conceito.  Mas isso é tema para outra conversa.  E dado o atual clima de desespero das instâncias conservadoras da cultura, oprtunidades para entabulá-la não faltarão…

4 thoughts on “Autoria, Cultura Digital, Minc e Caetanês

  1. Pingback: Tweets that mention Autoria, Cultura Digital, Minc e Caetanês « Carpintaria das Coisas -- Topsy.com

  2. Ai, quanta bobagem… alguém explica pra ele, por favor, o que é possível de encontrar na internet. Milhões de informações sobre milhões de assuntos. E de graça. Alguém fala, vai, por favor.

  3. Mais um excelente texto aqui no blog.
    Para curtir mais pérolas do “caetânes” é só ler sua coluna aos domingos no Globo.
    No último domingo, por exemplo, ele tratou de diferenciar os leitores de seu antigo blog e os de sua atual coluna dominical. Acho que dá para imaginar quão interessante foi o texto.

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