Flusser: Sobre a Liberdade (de Kommunikologie weiter denken)

Segue abaixo a tradução que fiz às pressas da passagem “Von der verlorenen Freiheit I: Sünde” (da liberdade perdida I: pecado), do livro Kommunikologie weiter denken.  Achei que valia a pena o investimento de tempo verter em português esse texto tão belo e curioso do livro que só existe em alemão.  Sugestões e opiniões seráo bem vindas, claro.

Que conceitos de liberdade nós perdemos?  Para começo de conversa, havia um conceito de liberdade como revolta contra o destino.  Existe um destino que diz: cada coisa tem seu devido lugar.  Quando me afasto do devido lugar, sou penalizado por isso.  Cada afastamento é um crime, um pecado.  Mas eu posso fazê-lo.  Está de algum modo inscrito na ordem das coisas que eu posso revoltar-me.  Talvez por que no mundo existem aberturas.  Não estou contando nenhuma antiquíssima história, falo de me fabula narratur. Tudo está prescrito, tudo é circular, tudo é fechado.  Não há nada de novo sob o sol.  Cada coisa a seu tempo.  Mas existem aberturas.  Por meio desses buracos, o transcendente pode penetrar e produzir assombro; o imanente pode desejar dali saltar e estender-se.  Com nossa lógica, é difícil compreender a idéia de intervenção.  Quando o Pantocrator ou Deus cria o mundo, por que decide ainda intervir nele?  Terá cometido algum erro?  Por que o sol parou sobre o vale de Jotapá?  Em síntese, o que é o milagre (*)?  Não é o milagre um indício da má programação?  Não se costuma pensar assim, naturalmente, em um mundo mágico.  O assombro dá ao mundo um sentido.  O mundo é uma esfera de motivos, tudo é motivado.  Os motivos se entrecruzam.  Existe um motor imóvel, que colocou o Todo nos trilhos.  Dir-se-ia que (tudo) funciona, mas existem brechas.  Para dizê-lo aristotelicamente; existe, por um lado, uma enteléquia, nós queremos sair disso, e por outro lado, existe uma hierofania, que irrompe de fora. O que penetra a partir do ‘de fora’ é conhecidamente o filho mais belo da fé.  O que se lança para fora é o pecado, a hybris, que almeja sair de seu lugar.  Liberdade é portanto sinônimo de pecado.  Nossa cultura possui duas raízes, a grega e a judaica.  Os conceitos são semelhantes, hybris e chet, pecado.  Eles são, todavia, diferentemente coloridos.  A hybris é heróica.  Quando me sobrepasso, sou um herói. O heróico, ainda que condenado à derrota – os heróis devem, naturalmente, ser realocados e penalizados -, é, porém, assombroso.  Algo irradia dos heróis.  O contrário do heroísmo é a filosofia.  No interior da totalidade da filosofia encontra-se esse legado epicurista: juntar-se ao destino é sabedoria.  Não apenas sabedoria, mas também virtude, areté.  O contrário da hybris é areté, ou seja, saber o lugar ao qual pertence o homem, e não almejar dele sair.  Inteiramente diferente se passa com os judeus, entre os quais a coisa não é tão bonita.  Deus criou o mundo com o objetivo de pô-lo à disposição do homem.  Sobre ele reina o homem como imagem e semelhança de Deus.  De modo que o homem possa reinar, Deus foi compelido a dar-lhe a liberdade.  Liberdade significa a possibilidade de pecar.  O homem traz ao mundo a possibilidade de pecar.  Talvez essa não seja uma interpretação muito ortodoxa.  O homem é feito da terra.  Adama significa terra, Adam significa homem.  Após Deus ter modelado a terra à sua imagem, inspirou nela o espírito, ruach.  Essa é a origem da escritura.  Barro, barro mesopotâmico, foi de algum modo modelado em um tijolo.  E nele o homem inscreveu o espírito na forma de escritura cuneiforme.  Adão é uma tábua de escritura cuneiforme.  Ali está, portanto, essa imagem e semelhança de Deus, que tem em si o hálito, ruach, pneuma, spiritus, e é livre para pecar ou não.  Para a surpresa de todos envolvidos, ele peca quando diferencia.  Daí deve ele pecar.  Ele não pode senão pecar, depois de ter se decidido.  Diferenciar (unterscheiden) contém decidir (entscheiden).  Adão e Eva consideram e entram então no estado do dever-pecar.  Com isso, toda a criação é questionada.  Pois para que terá Deus criado o mundo?  Para inscrever sua imagem ali e deixá-lo em estado do “não-poder-senão-pecar” (Nichts-als-Sündigen- Könnens)?  Desse modo, deve Deus, desafortunadamente (leider Gottes), fazer-se a si próprio homem.  Ao se tornar homem, libera Deus os homens do pecado, mas também os priva da liberdade.  A liberdade aparece, então, como um perigo ameaçador.  O crente que crê em Cristo está liberado do decidir, do diferenciar e do pecado.  Ele é absolutamente condicionado (unfrei: “não-livre”).  Ele não pode mais pecar, pecare non posset.  Essa é uma forma estranha, e nem sempre presente, de experimentar a liberdade.  Mas nós a possuímos em nosso interior.  Nós ainda temos a sensação de que a liberdade tem um sabor amargo.

(*) – em alemão, Wunder significa tanto “milagre” quanto “assombro”, “maravilha”.  Esse duplo sentido é importante no presente texto, mas difícil de preservar em português.

6 thoughts on “Flusser: Sobre a Liberdade (de Kommunikologie weiter denken)

  1. Curioso Erick, parece que todos nós, inevitavelmente segundo as leis da criação da Natureza, incluindo-se aí a constituição do Homem, estamos sujeitos a parâmetros inquestionáveis, a paradigmas fixos, referentes ao que supostamente seja “Norma”, “Certo” ou “Errado”-

    Destino que que é? Algo previamente programado, a despeito de nossas vontades ou veleidades?

    Algo que não admite sua construção prórpria, gradual e mutante, conforme nossas escolhas, caminhos percorridos ou atalhos experimentados?

    Pecado, Deus meu, que palavra hirta, taxidermizada, imantada de conceitos e velhos preconceitos que nos aprisionam e impedem edificação de desejos e leis aladas.

    Sair da circularidade previsível e comportamental de ações commoditizadas nos torna “Errantes” Pecadores” – seres “Ciganos, diaspóricos e na contramão das normas”…
    E portanto indivíduos livres…

    E por conseguinte Heróis ( Não àqueles wagnerianos, empoderados, hitleristas, mas heróis passiveis do castigo advindo da ousada ânsia de diferenciação dos demais indivíduos…)

    O Herói reluz e é sentenciado por isso; e é expurgado do “agradável convívio com as personas sociais” .

    O Herói rasga a máscarados ditames e inquestionáveis preconceitos milenares para revelar um rosto que é só seu.

    E abandona a teatralidade das repetições, que se amontoam pelos palcos da vida para bradar sem receios:

    EU EXISTO E SOU ÚNICO em minhas peculiaridades!

    Mas ainda há juízes medievo-críticos, sentenças sórdidas
    e algozes travestidos em capatazes, que ostentam
    o poder de fazer rolar, cadafalsos abaixo,
    as CABEÇAS DA LIBERDADE.

    Parabéns pela tradução, pelo texto e pela reflexão que o mesmo me provocou.
    Muitas saudades!

  2. Erick, legal que você postou esse texto. Vê-se que o pensamento de Flusser tem muitas raízes, e vai em muitas direções. Temos que discutir mais sobre a visão dele de Cristo.

    “Escritura” não é “Escrita”?

    abraços

  3. (Meu amigo, resolvi transcrever para o seu blog este meu recentíssimo post afixado em sua página no facebook)

    Li e reli sua tradução:denso, provocativo, e riquíssimo este excerto sobre Liberdade… hoje felizmente, não “pecamos”…

    Estamos todos “livres” escolhendo nos atrelar “compulsiva e crescentemente ” aos mágicos e inebriantes “destinos “, que os deuses das novas tecnologias nos reservam a cada minuto.

    Esgotaram-se portanto os milagres, os assombros, os espantos…

    E se avassala viralmente e sequiosidade se sermos a cada dia mais geeks…

    Fruindo “livremente” de tsunamis de gadgets que atrofiam nossos neurônios, reflexões, e naturalmente decisões.

    Viva a liberdade máxima de sermos títeres, manipulados sinuosamente pelo destino do frenesi contemporâneo…

    E o que é o melhor: tudo acontece sem que nos apercebamos dos fatos e pseudo escolhas à nossa volta!

    Esta sim é a sorridente “face de uma suposta liberdade” que nos acena.

    E em direção da qual nos movemos, para prazerosamente e volitivamente abraçá-la…

    Eis um inegável exemplo de faz de conta pirandelliano…rs

  4. Pingback: Flusser, McLuhan, Benjamin: reflexões sobre mídia, técnica e cultura

  5. super texto e tradução impecável pelo rítmo. Li escutando o adagietto da Sinfonia 5 de Mahler e ficou ainda melhor.

    o texto sempre me remete ao pai atávico da horda selvagem (Totem e Tabu): liberdade/”gozo pleno” do pai, rebelião dos filhos, comilança, o luto pela morte do pai e a consequente melancolia introduzindo a legitimação do desejo (gozo pleno interditado)…

    … e profano penetrando as fissuras para produzir um distanciamento no lugar comum, ou seja, comunizar o sagrado para produzir a transcendência.

    Gostei muito do assombro e o “desejo de extensão” (salto) do imanente.

    grandiosa abordagem… adorei.

    Danillo

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