Programa de Curso no PPGC UERJ – Agosto 2011

Aqui se pode acessar a proposta preliminar do programa de curso que pretendo ministrar no PPGC a partir de agosto de 2011 e que tem como eixo central o pensamento alemão sobre mídia.

p.s: ops!  É verdade, fizeram um comentário aqui me alertando para isso: eu estou tão animado com o passado que tinha escrito acima 2001 em vez de 2011.  Está corrigido.  Mas 2001 até que foi um bom ano, né não?  (além de ser o ano tema do filme do Kubrik, “2001, uma Odisséia no Espaço”).

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Vilém Flusser – Seres de um outro Mundo (Wesen aus einer anderen Welt)

O texto abaixo é mais um manuscrito inédito encontrado no arquivo Flusser (catalogado sob o número 2400).  Sem data, o que é possível dizer é que se trata de trabalho importantíssimo no contexto da obra de Flusser, e provavelmente contemporâneo do Vampyroteuthis Infernalis.  Aliás, basta ler o texto com algum cuidado para se perceber como estão aqui, em germe, as idéias que serão desenvolvidas na obra escrita em parceria com Louis Bec.  Para mim, ele representa um exemplo extraordinário de como Flusser captou as energias mentais da cultura em questões que, nos anos 80 e 90, apenas começavam a se anunciar – e que, pouco mais tarde, se consubstanciariam nas chamadas filosofias da animalidade e no tema do pós-humanismo.  Para quem conhece bem tais temas, a atualidade do pequeno ensaio é impressionante.  Ao lado das cartas a Milton Vargas e Dora, ele constitui peça-chave para a interpretação dessa singular obra do autor de Filosofia da Caixa Preta, mas, perdido na confusão do arquivo, não foi mencionado por ninguém até o momento – nem mesmo no competente estudo de Paola Bozzi (Vilém Flusser: dal Soggetto al Progetto).  Como de costume, trata-se de original datilografado que não sofreu revisão cuidadosa, o que dificulta muito o trabalho de tradução.  Mas creio que meus possíveis equívocos não chegarão a comprometer o entendimento do ensaio.

Vilém Flusser – “Seres de um outro Mundo”

A humanidade se prepara para abandonar a Terra e vagar pelo espaço.  E nesse processo, ela é conduzida pela ânisa de romper o isolamento da espécie humana e entrar em contato com outros seres.  Os motivos restantes para a exploração espacial são, assim me parece, secundários ou forçados.  O combustível dos foguetes é o temor da diminuta insignificância dos seres que se chamam de “homens” e que se sabem solitários e abandonados em meio aos gigantescos abismos da noite, aprisionados a um corpo secundário do incospícuo sistema solar e em insensato giro ao redor deste.  O natural repouso no fundamento que mantinha o mundo íntegro, a fé, foi irremediavelmente perdida, e os homens agora gravitam apenas em direção à morte.  Assim, buscam eles libertar-se desse vórtex e se lançar no vazio do espaço, na duvidosa esperança de em algum lugar encontrar paragem junto a seres alienígenas.  A astronáutica é apenas uma das muitas vias de escape nas quais se encontra a abatida humanidade nos dias de hoje.  Que  essa fuga no espaço em busca de outros seres é vã, e que disso temos, ou deveríamos ter, pleno saber, é o que quero demonstrar.

Se o lote do homem é diminuto, mesmo comparado às enormes medidas do nosso limitado mundo, por outro lado ele não está só, mas é, como sabemos, membro daquela família que compõe a vida em nosso planeta.  A humanidade representa apenas uma das milhões de espécies de animais e plantas que povoam a Terra, e compartilha com elas não apenas a matéria da qual são compostas – o protoplasma -, senão também uma história e um destino comuns.  Todas essas espécies se formaram, no obscuro passado, do mesmo caldo primordial.  Trata-se, em todas elas,  de complicadas reações químicas de uns poucos elementos químicos no interior de um fluido viscoso, o mesmo protoplasma.  E esses processos podem se desenrolar apenas em um espectro relativamente pequeno de temperatura e pressão.  Fora desses estreitos limites, o protoplasma se congela, evapora, explode ou se comprime. Essas diferentes espécies de protoplasma organizado, essas protozoa, plantas e animais, no decorrer de sua existência, que acompanhou apenas uma pequena parte da história da Terra, tomaram parte comum no destino do planeta – e esse destino influenciou a todas de modo fundamental.  Todas as erupções vulcânicas, catástrofes metereológicas, desvios do eixo terrestre, colisões com meteoros, raios solares e cósmicos, enfim, todos os destinos da Terra, foram suportados igualmente por todas as formas de vida. As formas de vida estão em estreita e ininterrupta conexão umas com as outras, elas vivem em conjunto, umas a partir das outras e em interação mútua (mit-, und von-, und aufeinander), e formam um tecido fechado no qual se atribui a cada espécie um nicho vital e natural.  Muitas das espécies vivem em luta entre si, ou então se alimentam de outras e alimentam a outras, muitas vivem em cooperação simbiótica, muitas têm como seu destino existir em cadeias invisíveis ligadas a outras.  Uma alteração (mutação) de uma espécie tem como conseqüência uma gradativa alteração de todas as outras.

A humanidade está longe de poder vislumbrar a totalidade das espécies e o labirinto de suas relações, muito menos de compreendê-las.  Inteiras províncias da vida, por exemplo os mares profundos ou os micro-organismos, ainda encontram-se em grande parte encobertas (verschleirt) para nós.  O homem começa apenas a arriscar os primeiros e hesitantes passos de uma iluminação das conexões biológicas.  A maioria das espécies e seus destinos são para nós um mistério.  Seria, porém, equivocado pretender que o conhecimento dessas espécies desconhecidas pudesse nos aproximar de uma compreensão.  Existem espécies que nós conhecemos muito bem, com as quais permanecemos em contato diário, mas que permanecem para nós totalmente incompreensíveis; por exemplo, os insetos construtores de colônias.  Não obstante nosso exato conhecimento dessas espécies e nossa cotidiana luta ou cooperação com eles, não temos nenhum tipo de contato interior, nenhuma espécie de simpatia, e seu mundo encontra-se quase que completamente fechado para nós.  A situação com nossos mais próximos parentes, os primatas, não é essencialmente diferente.  Em verdade, podemos até um limitado grau penetrar no mundo dos chipamzés ou gorilas, e eles no nosso.  Mas estamos longe de uma real e frutífera comunicação entre as espécies, ao menos no sentido em que usamos a palavra “comunicação”.  Estranhamente, o parentesco biológico não é a melhor garantia para o entendimento, e com a espécie canina obtivemos nossos maiores êxitos.  De todas as espécies, conseguimos os melhores resultados comunicativos com os cães, que não se encontram em relação de parentesco tão próxima conosco.  Indivíduos humanos e cães podem entrar em uma conexão espiritual que rompe em alto grau a crosta entre as espécies.  Mas isso é o mais extremo que a humanidade conseguiu em termos de sair de seu isolamento condicionado pela espécie.  Se existem entre as espécies restantes outras pontes capazes de realizar semelhante ligação, nós não o sabemos, dado que nada delas entendemos.

Nós reagimos ao fracasso da comunicação com o fluxo da vida através de presunção (Überhebung).  Nós empurramos a culpa para as outras espécies e nos autopromovemos.  Nós afirmamos que as outras espécies não podem nos compreender, pois encontram-se muito profundamente abaixo de nós.  Disfarçamos nossa frustração por meio do desprezo de todas as outras espécies.  Sim, nós chegamos ao ponto de proclamar um abismo, não apenas gradativo, mas principial, entre nós e todos os restantes seres vivos.  O homem, assim declaramos, é em princípio diferente e mais nobre que todas as outras criaturas.  Em nosso fundamental desconhecimento das outras espécies, esta afirmação é irrefutável.  Nós não conhecemos quase nada daquilo que chamamos de “vida da alma” nas outras espécies, e podemos assim afirmar, sem penalidade, que a nossa é a mais elevada ou que os outros seres não possuem nenhuma.  Mas uma observação das organizações anatômicas, biológicas ou sociais das outras espécies demonstra, penso eu, que nossa arrogância é risível – já que estas, para dizê-lo delicadamente, em nada são inferiores a nossa.  Em outras palavras, nós consideramos excluída a possibilidade de uma autêntica comunicação ou conversação com as restantes formas de vida por elas serem inarticuladas, e não por admitir que não tivemos êxito em encontrar uma língua comum.  O mesmo também vale do outro lado: também as formigas ou os galináceos não tiveram êxito em inventar um dicionário formiga-homem.  Pode-se imaginar que conseqüências adviriam dessa invenção.  A experiência antiquíssima (uralte) de uma espécie distante, porém aparentada, estaria à nossa disposição.  Provavelmente uma penetração dessas em nosso mundo seria de tal significado que nenhum de nosso conceitos, vivências e valores permaneceria intocado.  Com isso, nós alargaríamos nosso mundo em dimensões inauditas.  Uma conversação com uma única espécie diferente (fremden Art) alteraria nossa própria espécie de modo fundamental.  E o que então significaria, então, se começássemos a conversar com diversas espécies?  Todavia devemos provavelmente descartar uma tal esperança, dada sua aparência completamente fantástica; ninguém parece entretê-la a sério.  Mas a esperança de uma conversação com seres hipotéticos de outro mundo é supostamente menos fantástica.  Não será isso uma prova da insanidade da humanidade contemporânea?  Presumamos que esses seres de fato existam; que algo que pudesse ser definido como “vida” no mais amplo sentido se desenrolasse sobre Vênus, Marte ou um satélite de Júpiter.   Algo assim seria para nós naturalmente desproporcionalmente estrangeiro, como um polvo gigante (Riesenpolyp) ou mesmo um pinheiro.  Entrar em conversação com algo assim seria muito mais difícil do que com uma ameba ou com o patógeno do Tifo.  O agente do Tifo nos é próximo orgânica, histórica e geograficamente, ao passo que o habitante de Vênus é celestialmente distante (himmelweit fern), no sentido literal da palavra.  Parece-me que é hora de explodir e desmascarar a inanidade dessa expectativa equivocada.  A espeança de que o habitante de Vênus entre em contato com o astronauta em gramática indo-européia, ou seja, com substantivos, verbos, cópulas e pronomes, pressupõe que ele tenha uma história em comum com a humanidade; que tenha arado o campo com os mesmos cavalos e plantado milho; que tenha sobrevivido à mesma Era do Gelo.  Mas esse ser hipotético não tem em comum com a humanidade a catástrofe que se deu entre o Siluriano e o Devoniano.

Não, a assim chamada Astrobiologia é um subterfúgio.  É a tentativa de camuflar a perdida fé num sentido da vida através de uma diluição e rarefação do conceito de “vida”.  É um escapismo.  A humanidade se propõe fugir de si mesma em direção às estrelas.  E este é, de todo modo, o sentido do assim chamado progresso.

Anúncio: Palestra na Medienhaus Universität der Künste

Se alguém estiver por Berlim e quiser assistir minha palestra na Universität der Künste (20/05), 15:00 h, Medienhaus in Kleistpark:

For those who read Portuguese, here is the text (Flusser Studies)

“Of Animals and Stones: From Benjamin’s ‘Unmensch’ to Flusser’s “Bichos'” (Posthumanism and the Metaphor of Natural History)”

Abstract:

Vilém Flusser’s Vampyroteuthis Infernalis reenacts and actualizes the time-honored tradition of a mental experiment that purports to efface the boundaries between man and animal.  This ancient conceptual device, known in the baroque times as physica naturalis, seeks to illuminate the world of culture by means of its approximation with the world of nature.  Instead of opposing poles, nature and culture become reflecting mirrors where man can acknowledge his ties to nature and the animal kingdom.  More than just a rhetorical trope, the so-called allegory of natural history comprises what could be defined as a “philosophy of animality”, espoused by thinkers such as Walter Benjamin, Gilbert Simondon and Jacques Derrida.  In the Vampyroteuthis, Flusser resorts to a strange marine creature in order to elaborate a sophisticated meditation on human existence and our relationship with the technological apparatuses we incessantly devise.  The goal of this paper is to examine the recent history of the allegory, tracing its developments in the works of contemporary scholars, such as Siegfried Zielinski, Manuel de Landa and Vilém Flusser himself.  Moreover, it investigates the applicability of the “philosophy of animality” within the field of film theory, suggesting an approach to filmic experience that focuses on the “material” aspects of cinema and regards the spectator’s body as a site for the translation of images into affect and sensation.

Erick Felinto is a full professor in the Department of Media Studies at the State University of Rio de Janeiro. He is the author of five books on topics such as cyberculture, cinema studies and comparative literature. He holds a masters degree in Communication Theory from the Federal University of Rio and a PhD in Romance Languages and Linguistics from UCLA (University of California, Los Angeles). He is currently a postdoctoral fellow at the Universität der Künste Berlin.

Vilém Flusser: Autor e Autoridade

O que segue abaixo é uma tradução (naturalmente sujeita à revisão) de um texto inédito de Flusser encontrado nos arquivos da Universität der Künste.  A tradução foi feita a partir de um texto datilografado em alemão.  É possível que – como Flusser costumava fazer – existam versão do texto em outras línguas, mas ainda não consegui verificar isso no arquivo.  Há pequenos erros (que busquei corrigir) e certas obscuridades, que uma outra versão ajudaria a dirimir.  Entretanto, dada a atualidade das questões discutidas, achei que valeria a pena disponibilizar este ensaio no blog.  Como boa parte do que Flusser escreveu, este texto tem um sabor profético – e pode contribuir de algum modo para um conjunto de debates que têm sido travados nos últimos meses, especialmente no contexto brasileiro.

p.s: em segundo momento, retornei ao blog e fiz uma nova revisão do texto, com pequenas alterações.  Ivana Bentes perguntou-me sobre a data em que o texto foi escrito e, infelizmente, não há referências no “original” (que é, na verdade e ironicamente, uma cópia xerox de três folhas datilografadas).  Contudo, pode-se traçar esse tema em diversos outros momentos da trajetória de Flusser, inclusive no que considero sua “obra” mais madura (na verdade, a transcrição das aulas do seminário que ele proferiu em Bochum, em 1991).  Neste livro, publicado apenas em alemão, Flusser desenvolve mais claramente suas opiniões.  Por exemplo:

“Vou tentar mostrar que não se pode criar nenhuma informação ex-nihilo, mas antes que tudo o que fazemos se limita a manipular informações recebidas” (Ich werde versuchen zu zeigen, dass keine Information ex nihilo geschaffen werden kann, sondern, dass alles, was wir tun, sich darauf begrenzt, erworbene Informationen zu manipulieren, p. 28).

Em breve, irei ampliar essa discussão e apresentar outras referências que permitam uma visão mais detalhada da perspectiva de Flusser sobre a autoria no contexto da cultura eletrônica/digital.  O que posso afirmar desde já é que (também como o grande teórico da mídia alemão Friedrich Kittler) Flusser desenvolveu uma reflexão altamente crítica da noção de autoria e das ressonâncias caracteristicamente ‘autoritárias’ e ‘religiosas’ desse conceito.

Vilém Flusser: “Autor e Autoridade”

Segundo a Deutsche Welle, o tema dos direitos autorais na Alemanha tem se colocado na ordem do dia face às chamadas “copyshops”, e, efetivamente, tanto do ponto de vista jurídico como econômico.  O fato de que os textos (mas também igualmente sons e imagens) são multiplicados arbitrariamente e sem controle ameaça a posição legal e econômica do produtor (por exemplo, o escritor, o fotógrafo, o compositor) e seus distribuidores (por exemplo, editores ou fabricantes de discos).  Esta é, sem dúvida, uma questão importante.  Importante também, contudo, é uma outra questão que vem à baila.  Nomeadamente, a assim chamada “crise da autoridade”.  E ela surge nesse contexto de um modo que permite apreendermos o que tem de essencial.

Ambas as palavras, “autor” e “autoridade”, derivam do verbo “augere”, que em alemão significa aproximadamente “acumular” (anwachsen). Ressoam, porem, nesse significado não apenas a idéia da multiplicação, mas também a de confiança.  Um exemplo pode ilustrar isso: Rômulo é o “autor” do estado, pois ele imprimiu-lhe o impulso do crescimento, e é assim o fundamento e o solo no qual o estado se enraíza.  Ele é o “fundador” do estado, o “multiplicador das riquezas”, mas também a raiz da qual o estado continuamente se alimenta.  As “autoridades” romanas tinham, portanto, uma dupla função: elas fomentavam o impulso do autor, elas o “ad-ministravam”, eram “ministras”; mas eram também vias de retorno, uma ponte de volta ao autor (“pontifices”, “Magister”).  O ministério das autoridades era a “tradição”,  a continuidade; o magistério das autoridades era a “religião”, religação.  As autoridades eram os homens de confiança, garantidores dos autores, e o autor era a garantia do estado Roma.  Ambos, autor e autoridade, eram em sua origem segundo o conceito da tradição e da religião, o conceito da crença (“fides”).  Desse modo, em sentido etimológico, a crise da autoridade é uma crise de confiança (“credibility gap”), uma crise da crença.

Mas, conforme mostra a discussão referente aos direitos de autores face aos “copyshops”, a crise da autoridade não se origina apenas da crise da crença no sentido etimológico. A incontrolável multiplicação, a cópia sem limites (de “copia” = transbordamento) indica que a autoridade no sentido de “promotora do impulso” se tornou supérflua.  As coisas se dão por si só, automaticamente, e não temos mais a necessidade de nenhum “ministro” e nenhuma “tradição”. E a fidelidade das cópias feitas, que correspondem ponto por ponto ao original (“origo” = fonte) demonstram que a autoridade, no sentido de “religação com a origem”, se tornou supérflua. Nós necessitamos apenas de originais e de aparatos de multiplicação. A autoridade está em crise, pois ela se tornou obsoleta.   O negócio dos distribuidores e dos provedores, do editor e dos fabricantes de discos, mas também dos ministérios e escolas, dos administradores e ideólogos, pode ser assumido por aparatos de multiplicação.

Nós só necessitamos ainda de originais e aparatos de multiplicação.  À primeira vista, tem-se a impressão de que não podemos passar sem autores.   Pois não são de certo os autores os iniciadores do original, seus fundadores, seus multiplicadores e suas raízes?  Portanto: não mais ministros e magistrados, mas sempre ainda Rômulos?  Por hora, isso pode ser pelo menos parcialmente correto, mas não por muito tempo.  Fotografias podem ser produzidas automaticamente por aparatos.  Computadores podem engendrar composições, e processadores de textos podem produzir livros.  Momentaneamente, esses originais automaticamente produzidos podem parecer bastante pobres (não todos), mas nos encontramos apenas no começo de um desenvolvimento.  Rômulo já não é mais absolutamente necessário.  O que é absolutamente necessário para o futuro provável é um impulsionador para o aparato que engendra os originais.  Esse impulsionador já não deve mais ser chamado de autor, mas antes de programador (atribuidor).  Fantasia-se freqüentemente, para um futuro distante, a introdução de programadores programados (na verdade, eles já existem hoje).  As “copyshops” demonstram que nós fundamentalmente necessitamos apenas de programas e aparatos multiplicadores, e que os autores desde há muito vêm se tornando supérfluos.  A autoridade está em crise, pois os autores, aos quais a primeira deveria garantir a fidelidade, se tornaram supérfluos (e de fato, não apenas autores como fotógrafos e escritores, mas também os elaboradores de constituições e “normas”, por assim dizer, os “founding fathers”, ou Marx ou Cristo).

Trata-se, no caso das “copy-shops”, de uma crise de autoridade no sentido de uma crise da crença.  Pois crença e fidelidade não são noções separáveis, assim como “fides”.  As cópias são automaticamente fiéis a seus originais, e no futuro os originais serão fiéis a seu programa.  A diferença entre original e cópia desaparecerá.  No processo de multiplicação se alcançará um grau de fidelidade no qual autor e autoridade, original e cópia, se dissolverão numa unidade inseparável, uma “unio mystica”,  no interior do programa e do aparato automático.  Essa crença sem limites é própria do aparato, não mais dos homens.  O próprio dos homens é programar os aparatos, deles se servir e fazer uso dos múltiplos por eles engendrados.  Em resumo: funcionar em e para uma “copyshop”.  Em uma tal situação, não existe para o homem nada em que se acredite, assim como nada em que não se creia (etwas nicht zu glauben).

A crise da autoridade (e dos autores) coloca-se em questão sob o título das “copy-shops”, mas não é remediável através dessa discussão.  A confiança nos autores e autoridades (por exemplo, nos escritores e editores, ou também nos legisladores e seus agentes) não pode ser reconquistada através de discussões ou eventuais mudanças nas atuais regras do jogo (por exemplo, da lei de copyright). Autores e autoridades já não são críveis, pois são redundantes.  A automaticidade é o “credibility gap”.  Para poder pôr realmente em questão o tema da autoridade (e do autor), deve-se colocá-lo a partir da informática.  Devemos traduzir o mito de Rômulo e a estrutura política de Roma em conceitos informáticos e cibernéticos.  Só então tornar-se-á visível o essencial: na programação e na multiplicação, já não se trata mais de “valores objetivos” (como lá, onde autores e autoridades funcionavam), mas antes de informações progressivamente livres de objeto.  Ninguém pode possuir essa espécie de informações deslizantes de documento para documento, pois elas não podem ser possuídas, não se deixam aprisionar em nenhum lugar, mas antes se alargam automaticamente.  Por isso, é insensato querer delas auferir dinheiro (a medida do “valor objetivo”).  Programadores não são autores que têm algo objetivo para vender, mas sim funcionários de um aparato que se auto-mantém.  Não existem mais autoridades, e sim meios que transmitem informações automaticamente.  Já não se trata mais de valores onde nenhuma raiz subsiste, onde tudo é “absurdo” e onde não existe nada em que se possa acreditar ou confiar.

Isso não constitui nenhum elogio ao Deus-Xerox, no qual autor e autoridade se dissolvem numa unidade mística, mas um obituário antecipado para a categoria em extinção “autor” (a autoridade não deve, todavia, ser necessariamente pranteada).  Falando abertamente: a despeito de tudo, Rômulo era preferível à Xerox.  Mas a “copy shop” não é provavelmente o lugar de se falar abertamente.  Portanto: “eu vim para enterrar Rômulo, não para louvá-lo”.

Cartographies of Media Archaeology

Just to register the nice mention by friend Jussi Parikka in the last post of his blog: http://mediacartographies.blogspot.com/2011/05/vilem-flusser-post-historical-and.html (which, by the way, I recommend to all my students).  He told me once that Flusser had never caught his attention. Well, now Jussi might finally become infected with the “Flusser-bug”.  By the way, he has just landed a new job at the University of Southhampton and I wish him the best of luck.

Simondon and Media Archaeology: Notes for a Study on The Life of Objects

Simondon’s “Du Mode d’Existence des Objets Techniques”, like all great works of theory, is eminently criticizable.   In fact, people frequently make the mistake of treating such works as religious treatises, which in no way does justice to them.  These monuments of thought not only welcome criticism, but also demand it, as if they had some inbuilt mechanism that allows their perpetual revision and improvement.  To quote one of Benjamin’s most interesting ideas, every masterpiece (be it literary or philosophical) has its survival and renewal (Überleben) guaranteed by the work of the translator and the critic.  This is even truer in the case of a book like “Du Mode d’Existence…”, published in 1958 and thus long before the impact of digital technologies.  On the other hand, if some of Simondon’s secondary assertions deserve revision in light of the emergence of new technologies, his fundamental theses still apply to our current situation.  For me, the most significant contribution of this work is a perspective on the process of technological evolution that is, to a large extent, autonomous in regards to external factors.  The “laws” of technological innovation follow the demands of a rigorously internal necessity, as if apparatuses would ‘evolve by themselves’ – not unlike what happens with living beings[1].  In other words, Simondon’s theory of “concretization” (the process whereby technological objects become increasingly more “synergetic”) suggests that devices become more efficient and evolved as their components begin to act in mutual cooperation performing several tasks at the same time.  But this is not the history of a uniform and linear evolution.  It is rather a complex trajectory, characterized by ruptures and discontinuities.  I even suspect that – if we read him carefully – Simondon provides us with some insights that are not so different from those of media archaeology.  Let us consider, for instance, the following affirmation: “Several abandoned technical objects are unfinished inventions that remain an open virtuality (une virtualité ouverte) and can be retrieved, prolonged within another domain, according to their deep intentions, their technical essence” (p. 40).  One cannot but wonder if Siegfried Zielinski had Simondon in mind when he wrote his Tiefenzeit der Medien (something that I forgot to ask him in our last conversation).  In fact, Zielinski’s proposition consists fundamentally in a “variantology of the media” capable of recovering the potentialities of failed or forgotten old technologies.  Zielinski not only criticizes the (already worn-out) rhetoric of the novelty that is so characteristic of the discourses on digital technologies, but also pledges for “dramaturgies of difference” (Dramaturgien der Differenz) that would enable us to fight the growing tendencies to uniformization and padronization of the media system.  By the way, both thinkers are granted a prominent position in Jussi Parikka’s brilliant last book (Insect Media: an Archaeology of Animals and Technology, University of Minnesota Press, 2010).  In that sense, Yves Deforge’s posface to “Du Mode d’Existence…” is of the utmost importance for media archaeologists.  In an attempt to revise and update Simondon’s work, Deforge repeatedly discusses the necessity of a historical approach to technology that takes our technological past very seriously.  This approach is “familiar to those who study phenomena that develop over long periods of time (…) something that we call ‘the systemic study of the thin temporal layers’” (italics mine, p. 306).  Curiously employing a term that has recently been receiving a great deal of attention – “object ontology” (l’idée d’une ontologie de l’objet)[2] – Deforge discusses how this perspective might help us recuperate past ideas and projects in order to engender new solutions “in the light of a hypothetical future system” (p. 309).  There is a lot more that could be said about “Du Mode d’Existence…” in regard of the emergence of new digital technologies and some contemporary approaches to media theory, but that is the project for a paper that shall hopefully materialize in the next few weeks.


[1] This is, of course, an oversimplification, but I believe it to be faithful to the essence of Simondon’s arguments.

[2] The expression “object ontology” is used in connection to thinkers such as Simondon, Moles and Denielou, whose works announce what we could nowadays define as a form of  “object-oriented” philosophical approach.