Vilém Flusser: Autor e Autoridade

O que segue abaixo é uma tradução (naturalmente sujeita à revisão) de um texto inédito de Flusser encontrado nos arquivos da Universität der Künste.  A tradução foi feita a partir de um texto datilografado em alemão.  É possível que – como Flusser costumava fazer – existam versão do texto em outras línguas, mas ainda não consegui verificar isso no arquivo.  Há pequenos erros (que busquei corrigir) e certas obscuridades, que uma outra versão ajudaria a dirimir.  Entretanto, dada a atualidade das questões discutidas, achei que valeria a pena disponibilizar este ensaio no blog.  Como boa parte do que Flusser escreveu, este texto tem um sabor profético – e pode contribuir de algum modo para um conjunto de debates que têm sido travados nos últimos meses, especialmente no contexto brasileiro.

p.s: em segundo momento, retornei ao blog e fiz uma nova revisão do texto, com pequenas alterações.  Ivana Bentes perguntou-me sobre a data em que o texto foi escrito e, infelizmente, não há referências no “original” (que é, na verdade e ironicamente, uma cópia xerox de três folhas datilografadas).  Contudo, pode-se traçar esse tema em diversos outros momentos da trajetória de Flusser, inclusive no que considero sua “obra” mais madura (na verdade, a transcrição das aulas do seminário que ele proferiu em Bochum, em 1991).  Neste livro, publicado apenas em alemão, Flusser desenvolve mais claramente suas opiniões.  Por exemplo:

“Vou tentar mostrar que não se pode criar nenhuma informação ex-nihilo, mas antes que tudo o que fazemos se limita a manipular informações recebidas” (Ich werde versuchen zu zeigen, dass keine Information ex nihilo geschaffen werden kann, sondern, dass alles, was wir tun, sich darauf begrenzt, erworbene Informationen zu manipulieren, p. 28).

Em breve, irei ampliar essa discussão e apresentar outras referências que permitam uma visão mais detalhada da perspectiva de Flusser sobre a autoria no contexto da cultura eletrônica/digital.  O que posso afirmar desde já é que (também como o grande teórico da mídia alemão Friedrich Kittler) Flusser desenvolveu uma reflexão altamente crítica da noção de autoria e das ressonâncias caracteristicamente ‘autoritárias’ e ‘religiosas’ desse conceito.

Vilém Flusser: “Autor e Autoridade”

Segundo a Deutsche Welle, o tema dos direitos autorais na Alemanha tem se colocado na ordem do dia face às chamadas “copyshops”, e, efetivamente, tanto do ponto de vista jurídico como econômico.  O fato de que os textos (mas também igualmente sons e imagens) são multiplicados arbitrariamente e sem controle ameaça a posição legal e econômica do produtor (por exemplo, o escritor, o fotógrafo, o compositor) e seus distribuidores (por exemplo, editores ou fabricantes de discos).  Esta é, sem dúvida, uma questão importante.  Importante também, contudo, é uma outra questão que vem à baila.  Nomeadamente, a assim chamada “crise da autoridade”.  E ela surge nesse contexto de um modo que permite apreendermos o que tem de essencial.

Ambas as palavras, “autor” e “autoridade”, derivam do verbo “augere”, que em alemão significa aproximadamente “acumular” (anwachsen). Ressoam, porem, nesse significado não apenas a idéia da multiplicação, mas também a de confiança.  Um exemplo pode ilustrar isso: Rômulo é o “autor” do estado, pois ele imprimiu-lhe o impulso do crescimento, e é assim o fundamento e o solo no qual o estado se enraíza.  Ele é o “fundador” do estado, o “multiplicador das riquezas”, mas também a raiz da qual o estado continuamente se alimenta.  As “autoridades” romanas tinham, portanto, uma dupla função: elas fomentavam o impulso do autor, elas o “ad-ministravam”, eram “ministras”; mas eram também vias de retorno, uma ponte de volta ao autor (“pontifices”, “Magister”).  O ministério das autoridades era a “tradição”,  a continuidade; o magistério das autoridades era a “religião”, religação.  As autoridades eram os homens de confiança, garantidores dos autores, e o autor era a garantia do estado Roma.  Ambos, autor e autoridade, eram em sua origem segundo o conceito da tradição e da religião, o conceito da crença (“fides”).  Desse modo, em sentido etimológico, a crise da autoridade é uma crise de confiança (“credibility gap”), uma crise da crença.

Mas, conforme mostra a discussão referente aos direitos de autores face aos “copyshops”, a crise da autoridade não se origina apenas da crise da crença no sentido etimológico. A incontrolável multiplicação, a cópia sem limites (de “copia” = transbordamento) indica que a autoridade no sentido de “promotora do impulso” se tornou supérflua.  As coisas se dão por si só, automaticamente, e não temos mais a necessidade de nenhum “ministro” e nenhuma “tradição”. E a fidelidade das cópias feitas, que correspondem ponto por ponto ao original (“origo” = fonte) demonstram que a autoridade, no sentido de “religação com a origem”, se tornou supérflua. Nós necessitamos apenas de originais e de aparatos de multiplicação. A autoridade está em crise, pois ela se tornou obsoleta.   O negócio dos distribuidores e dos provedores, do editor e dos fabricantes de discos, mas também dos ministérios e escolas, dos administradores e ideólogos, pode ser assumido por aparatos de multiplicação.

Nós só necessitamos ainda de originais e aparatos de multiplicação.  À primeira vista, tem-se a impressão de que não podemos passar sem autores.   Pois não são de certo os autores os iniciadores do original, seus fundadores, seus multiplicadores e suas raízes?  Portanto: não mais ministros e magistrados, mas sempre ainda Rômulos?  Por hora, isso pode ser pelo menos parcialmente correto, mas não por muito tempo.  Fotografias podem ser produzidas automaticamente por aparatos.  Computadores podem engendrar composições, e processadores de textos podem produzir livros.  Momentaneamente, esses originais automaticamente produzidos podem parecer bastante pobres (não todos), mas nos encontramos apenas no começo de um desenvolvimento.  Rômulo já não é mais absolutamente necessário.  O que é absolutamente necessário para o futuro provável é um impulsionador para o aparato que engendra os originais.  Esse impulsionador já não deve mais ser chamado de autor, mas antes de programador (atribuidor).  Fantasia-se freqüentemente, para um futuro distante, a introdução de programadores programados (na verdade, eles já existem hoje).  As “copyshops” demonstram que nós fundamentalmente necessitamos apenas de programas e aparatos multiplicadores, e que os autores desde há muito vêm se tornando supérfluos.  A autoridade está em crise, pois os autores, aos quais a primeira deveria garantir a fidelidade, se tornaram supérfluos (e de fato, não apenas autores como fotógrafos e escritores, mas também os elaboradores de constituições e “normas”, por assim dizer, os “founding fathers”, ou Marx ou Cristo).

Trata-se, no caso das “copy-shops”, de uma crise de autoridade no sentido de uma crise da crença.  Pois crença e fidelidade não são noções separáveis, assim como “fides”.  As cópias são automaticamente fiéis a seus originais, e no futuro os originais serão fiéis a seu programa.  A diferença entre original e cópia desaparecerá.  No processo de multiplicação se alcançará um grau de fidelidade no qual autor e autoridade, original e cópia, se dissolverão numa unidade inseparável, uma “unio mystica”,  no interior do programa e do aparato automático.  Essa crença sem limites é própria do aparato, não mais dos homens.  O próprio dos homens é programar os aparatos, deles se servir e fazer uso dos múltiplos por eles engendrados.  Em resumo: funcionar em e para uma “copyshop”.  Em uma tal situação, não existe para o homem nada em que se acredite, assim como nada em que não se creia (etwas nicht zu glauben).

A crise da autoridade (e dos autores) coloca-se em questão sob o título das “copy-shops”, mas não é remediável através dessa discussão.  A confiança nos autores e autoridades (por exemplo, nos escritores e editores, ou também nos legisladores e seus agentes) não pode ser reconquistada através de discussões ou eventuais mudanças nas atuais regras do jogo (por exemplo, da lei de copyright). Autores e autoridades já não são críveis, pois são redundantes.  A automaticidade é o “credibility gap”.  Para poder pôr realmente em questão o tema da autoridade (e do autor), deve-se colocá-lo a partir da informática.  Devemos traduzir o mito de Rômulo e a estrutura política de Roma em conceitos informáticos e cibernéticos.  Só então tornar-se-á visível o essencial: na programação e na multiplicação, já não se trata mais de “valores objetivos” (como lá, onde autores e autoridades funcionavam), mas antes de informações progressivamente livres de objeto.  Ninguém pode possuir essa espécie de informações deslizantes de documento para documento, pois elas não podem ser possuídas, não se deixam aprisionar em nenhum lugar, mas antes se alargam automaticamente.  Por isso, é insensato querer delas auferir dinheiro (a medida do “valor objetivo”).  Programadores não são autores que têm algo objetivo para vender, mas sim funcionários de um aparato que se auto-mantém.  Não existem mais autoridades, e sim meios que transmitem informações automaticamente.  Já não se trata mais de valores onde nenhuma raiz subsiste, onde tudo é “absurdo” e onde não existe nada em que se possa acreditar ou confiar.

Isso não constitui nenhum elogio ao Deus-Xerox, no qual autor e autoridade se dissolvem numa unidade mística, mas um obituário antecipado para a categoria em extinção “autor” (a autoridade não deve, todavia, ser necessariamente pranteada).  Falando abertamente: a despeito de tudo, Rômulo era preferível à Xerox.  Mas a “copy shop” não é provavelmente o lugar de se falar abertamente.  Portanto: “eu vim para enterrar Rômulo, não para louvá-lo”.

2 thoughts on “Vilém Flusser: Autor e Autoridade

  1. Uau!!! Fiquei muito feliz de ver que o Flusser fala desse assunto, e ainda mais feliz de ver como ele fala.
    Não sei o que dizer… só queria parabenizar e agradecer muitíssimo pelo trabalho nesse blog. =)

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