Breve Esclarecimento

Parece que tem gente achando pedante eu ter passado a escrever em inglês no meu blog.  Em função disso, talvez valha a pena esclarecer alguns pontos:

1. Trata-se de um blog de pesquisa (ainda que ocasionalmente eu escreva sobre temas pessoais), e meu interesse é levar os resultados desse trabalho ao público mais amplo possível. Infelizmente, o português não é a língua ideal para isso. Assim como na Idade Média o latim era a língua da academia, hoje essa língua é o inglês.  Esse é um dado incontornável da realidade em que vivemos e nenhum nacionalismo raivoso ou xenofobia linguística vai mudar isso. A Capes, o CNPq e o caramba a quatro nos enchem o saco o tempo todo com o discurso da internacionalização, e isso implica passar a escrever e publicar em inglês (tanto artigo em periódicos internacionais como nos ambientes virtuais onde divulgamos nossa pesquisa).  Claro, seria muito mais conveniente e fácil escrever em português, minha língua nativa, com a qual eu tenho uma relação absolutamente amorosa e confortável.  Todavia, tanto no Facebook como no Twitter, existe um número razoável de pessoas não falantes do português que acompanham meus posts, entre os quais vários pesquisadores com os quais tenho parcerias acadêmicas (ops! Acabei de perceber que dizer isso vai parecer pedante…). Eu gostaria que eles fossem capazes de entender o que escrevo, ao menos de vez em quando.

2. O cara que me acha pedante por escrever em inglês, com certeza vai continuar me achando pedante por um monte de outras razões: porque falo alemão, porque sorrio pouco, porque não faço salamaleques, porque gosto e faço propaganda da filosofia, porque curto citar autores obscuros e sei lá mais o quê… A questão é que se eu começar a me preocupar muito com isso, vou ter de passar a filtrar tudo que digo.  E o problema é que eu falo do que me apaixona, e não consigo não ser coerente com as minhas obsessões. Obviamente, ninguém é obrigado a compartilhá-las. Ninguém é forçado a assistir a minhas aulas, me seguir no Twitter ou ler meu blog – muito menos gostar de mim.  Se o sujeito tiver pelo menos uma mente aberta e estiver disposto a escutar meus argumentos por alguns minutos eu já fico muito satisfeito.

3. No fundo, no fundo, quem quer ser popular não faz a opção pela vida acadêmica.  A suprema felicidade é encontrar mais de 10 pessoas que tenham lido um texto nosso. Livro acadêmico não é best-seller.  No dia em que um Canclini estiver ganhando mais dinheiro que um Paulo Coelho ou pegando mais mulher que o Neymar, poderemos ter certeza de que fomos transportados misteriosamente para um universo paralelo radicalmente diferente do nosso. Todavia, gosto de acreditar que os temas que pesquiso – e em especial, agora, o pensamento de Vilém Flusser, esse excepcional pensador que viveu entre nós por mais de 30 anos – tem algum valor.  O feedback que venho recebendo por email ou mesmo aqui no blog me dá indicações disso. E realmente me agrada a ideia de compartilhar alguns achados com outras pessoas que infelizmente não compreendem o português.

4. And yet, and yet…para não dizerem que, além de pedante, eu sou também radical, farei um esforço para postar aqui nas duas línguas.  Com certeza, isso não vai mudar a opinião do cara que me acha metido, mas talvez assim ele se sinta motivado a prestar mais atenção nos temas cuja discussão eu venho propondo. Isso, sim, é que é realmente importante.

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