Vilém Flusser – Seres de um outro Mundo (Wesen aus einer anderen Welt)

O texto abaixo é mais um manuscrito inédito encontrado no arquivo Flusser (catalogado sob o número 2400).  Sem data, o que é possível dizer é que se trata de trabalho importantíssimo no contexto da obra de Flusser, e provavelmente contemporâneo do Vampyroteuthis Infernalis.  Aliás, basta ler o texto com algum cuidado para se perceber como estão aqui, em germe, as idéias que serão desenvolvidas na obra escrita em parceria com Louis Bec.  Para mim, ele representa um exemplo extraordinário de como Flusser captou as energias mentais da cultura em questões que, nos anos 80 e 90, apenas começavam a se anunciar – e que, pouco mais tarde, se consubstanciariam nas chamadas filosofias da animalidade e no tema do pós-humanismo.  Para quem conhece bem tais temas, a atualidade do pequeno ensaio é impressionante.  Ao lado das cartas a Milton Vargas e Dora, ele constitui peça-chave para a interpretação dessa singular obra do autor de Filosofia da Caixa Preta, mas, perdido na confusão do arquivo, não foi mencionado por ninguém até o momento – nem mesmo no competente estudo de Paola Bozzi (Vilém Flusser: dal Soggetto al Progetto).  Como de costume, trata-se de original datilografado que não sofreu revisão cuidadosa, o que dificulta muito o trabalho de tradução.  Mas creio que meus possíveis equívocos não chegarão a comprometer o entendimento do ensaio.

Vilém Flusser – “Seres de um outro Mundo”

A humanidade se prepara para abandonar a Terra e vagar pelo espaço.  E nesse processo, ela é conduzida pela ânisa de romper o isolamento da espécie humana e entrar em contato com outros seres.  Os motivos restantes para a exploração espacial são, assim me parece, secundários ou forçados.  O combustível dos foguetes é o temor da diminuta insignificância dos seres que se chamam de “homens” e que se sabem solitários e abandonados em meio aos gigantescos abismos da noite, aprisionados a um corpo secundário do incospícuo sistema solar e em insensato giro ao redor deste.  O natural repouso no fundamento que mantinha o mundo íntegro, a fé, foi irremediavelmente perdida, e os homens agora gravitam apenas em direção à morte.  Assim, buscam eles libertar-se desse vórtex e se lançar no vazio do espaço, na duvidosa esperança de em algum lugar encontrar paragem junto a seres alienígenas.  A astronáutica é apenas uma das muitas vias de escape nas quais se encontra a abatida humanidade nos dias de hoje.  Que  essa fuga no espaço em busca de outros seres é vã, e que disso temos, ou deveríamos ter, pleno saber, é o que quero demonstrar.

Se o lote do homem é diminuto, mesmo comparado às enormes medidas do nosso limitado mundo, por outro lado ele não está só, mas é, como sabemos, membro daquela família que compõe a vida em nosso planeta.  A humanidade representa apenas uma das milhões de espécies de animais e plantas que povoam a Terra, e compartilha com elas não apenas a matéria da qual são compostas – o protoplasma -, senão também uma história e um destino comuns.  Todas essas espécies se formaram, no obscuro passado, do mesmo caldo primordial.  Trata-se, em todas elas,  de complicadas reações químicas de uns poucos elementos químicos no interior de um fluido viscoso, o mesmo protoplasma.  E esses processos podem se desenrolar apenas em um espectro relativamente pequeno de temperatura e pressão.  Fora desses estreitos limites, o protoplasma se congela, evapora, explode ou se comprime. Essas diferentes espécies de protoplasma organizado, essas protozoa, plantas e animais, no decorrer de sua existência, que acompanhou apenas uma pequena parte da história da Terra, tomaram parte comum no destino do planeta – e esse destino influenciou a todas de modo fundamental.  Todas as erupções vulcânicas, catástrofes metereológicas, desvios do eixo terrestre, colisões com meteoros, raios solares e cósmicos, enfim, todos os destinos da Terra, foram suportados igualmente por todas as formas de vida. As formas de vida estão em estreita e ininterrupta conexão umas com as outras, elas vivem em conjunto, umas a partir das outras e em interação mútua (mit-, und von-, und aufeinander), e formam um tecido fechado no qual se atribui a cada espécie um nicho vital e natural.  Muitas das espécies vivem em luta entre si, ou então se alimentam de outras e alimentam a outras, muitas vivem em cooperação simbiótica, muitas têm como seu destino existir em cadeias invisíveis ligadas a outras.  Uma alteração (mutação) de uma espécie tem como conseqüência uma gradativa alteração de todas as outras.

A humanidade está longe de poder vislumbrar a totalidade das espécies e o labirinto de suas relações, muito menos de compreendê-las.  Inteiras províncias da vida, por exemplo os mares profundos ou os micro-organismos, ainda encontram-se em grande parte encobertas (verschleirt) para nós.  O homem começa apenas a arriscar os primeiros e hesitantes passos de uma iluminação das conexões biológicas.  A maioria das espécies e seus destinos são para nós um mistério.  Seria, porém, equivocado pretender que o conhecimento dessas espécies desconhecidas pudesse nos aproximar de uma compreensão.  Existem espécies que nós conhecemos muito bem, com as quais permanecemos em contato diário, mas que permanecem para nós totalmente incompreensíveis; por exemplo, os insetos construtores de colônias.  Não obstante nosso exato conhecimento dessas espécies e nossa cotidiana luta ou cooperação com eles, não temos nenhum tipo de contato interior, nenhuma espécie de simpatia, e seu mundo encontra-se quase que completamente fechado para nós.  A situação com nossos mais próximos parentes, os primatas, não é essencialmente diferente.  Em verdade, podemos até um limitado grau penetrar no mundo dos chipamzés ou gorilas, e eles no nosso.  Mas estamos longe de uma real e frutífera comunicação entre as espécies, ao menos no sentido em que usamos a palavra “comunicação”.  Estranhamente, o parentesco biológico não é a melhor garantia para o entendimento, e com a espécie canina obtivemos nossos maiores êxitos.  De todas as espécies, conseguimos os melhores resultados comunicativos com os cães, que não se encontram em relação de parentesco tão próxima conosco.  Indivíduos humanos e cães podem entrar em uma conexão espiritual que rompe em alto grau a crosta entre as espécies.  Mas isso é o mais extremo que a humanidade conseguiu em termos de sair de seu isolamento condicionado pela espécie.  Se existem entre as espécies restantes outras pontes capazes de realizar semelhante ligação, nós não o sabemos, dado que nada delas entendemos.

Nós reagimos ao fracasso da comunicação com o fluxo da vida através de presunção (Überhebung).  Nós empurramos a culpa para as outras espécies e nos autopromovemos.  Nós afirmamos que as outras espécies não podem nos compreender, pois encontram-se muito profundamente abaixo de nós.  Disfarçamos nossa frustração por meio do desprezo de todas as outras espécies.  Sim, nós chegamos ao ponto de proclamar um abismo, não apenas gradativo, mas principial, entre nós e todos os restantes seres vivos.  O homem, assim declaramos, é em princípio diferente e mais nobre que todas as outras criaturas.  Em nosso fundamental desconhecimento das outras espécies, esta afirmação é irrefutável.  Nós não conhecemos quase nada daquilo que chamamos de “vida da alma” nas outras espécies, e podemos assim afirmar, sem penalidade, que a nossa é a mais elevada ou que os outros seres não possuem nenhuma.  Mas uma observação das organizações anatômicas, biológicas ou sociais das outras espécies demonstra, penso eu, que nossa arrogância é risível – já que estas, para dizê-lo delicadamente, em nada são inferiores a nossa.  Em outras palavras, nós consideramos excluída a possibilidade de uma autêntica comunicação ou conversação com as restantes formas de vida por elas serem inarticuladas, e não por admitir que não tivemos êxito em encontrar uma língua comum.  O mesmo também vale do outro lado: também as formigas ou os galináceos não tiveram êxito em inventar um dicionário formiga-homem.  Pode-se imaginar que conseqüências adviriam dessa invenção.  A experiência antiquíssima (uralte) de uma espécie distante, porém aparentada, estaria à nossa disposição.  Provavelmente uma penetração dessas em nosso mundo seria de tal significado que nenhum de nosso conceitos, vivências e valores permaneceria intocado.  Com isso, nós alargaríamos nosso mundo em dimensões inauditas.  Uma conversação com uma única espécie diferente (fremden Art) alteraria nossa própria espécie de modo fundamental.  E o que então significaria, então, se começássemos a conversar com diversas espécies?  Todavia devemos provavelmente descartar uma tal esperança, dada sua aparência completamente fantástica; ninguém parece entretê-la a sério.  Mas a esperança de uma conversação com seres hipotéticos de outro mundo é supostamente menos fantástica.  Não será isso uma prova da insanidade da humanidade contemporânea?  Presumamos que esses seres de fato existam; que algo que pudesse ser definido como “vida” no mais amplo sentido se desenrolasse sobre Vênus, Marte ou um satélite de Júpiter.   Algo assim seria para nós naturalmente desproporcionalmente estrangeiro, como um polvo gigante (Riesenpolyp) ou mesmo um pinheiro.  Entrar em conversação com algo assim seria muito mais difícil do que com uma ameba ou com o patógeno do Tifo.  O agente do Tifo nos é próximo orgânica, histórica e geograficamente, ao passo que o habitante de Vênus é celestialmente distante (himmelweit fern), no sentido literal da palavra.  Parece-me que é hora de explodir e desmascarar a inanidade dessa expectativa equivocada.  A espeança de que o habitante de Vênus entre em contato com o astronauta em gramática indo-européia, ou seja, com substantivos, verbos, cópulas e pronomes, pressupõe que ele tenha uma história em comum com a humanidade; que tenha arado o campo com os mesmos cavalos e plantado milho; que tenha sobrevivido à mesma Era do Gelo.  Mas esse ser hipotético não tem em comum com a humanidade a catástrofe que se deu entre o Siluriano e o Devoniano.

Não, a assim chamada Astrobiologia é um subterfúgio.  É a tentativa de camuflar a perdida fé num sentido da vida através de uma diluição e rarefação do conceito de “vida”.  É um escapismo.  A humanidade se propõe fugir de si mesma em direção às estrelas.  E este é, de todo modo, o sentido do assim chamado progresso.

Da Teoria da Comunicação às Teorias de Mídia (Compós 2011)

Pretendia postar aqui alguns trechos do texto que será submetido ao GT “Comunicação e Cibercultura” da Compós em 2011, mas ao ler novamente as regras da Compós sobre ineditismo acabei desistindo.  Ainda que só se caracterize a quebra do ineditismo por meio da publicação integral do texto, resolvi não arriscar.  De todo modo, trata-se possivelmente do texto mais polêmico que já apresentei à Compós e tem um tom panfletário que eu mesmo não costumo apreciar (com raras exceções) em trabalhos alheios.  As razões desse tom são muitas e demandaria tempo explicá-las aqui.  O que posso dizer é que o artigo faz uma dura crítica às discussões sobre Teoria da Comunicação no Brasil e sugere revitalizar tais debates com uma injeção de “cibercultura”.  Devo dizer, porém, que os termos “comunicação” e “cibercultura” (ainda que eu goste do segundo) me soam problemáticos.  Aliás, no artigo eu argumento que talvez “estudos de mídia” – nome do novo curso de graduação da UFF – seja um termo melhor que “estudos de comunicação” ou “teoria da comunicação”.  Naturalmente, discordâncias terminológicas refletem divergências de ordem mais profunda, de natureza ideológica e epistemológica.  Eu posso entender quem aprecia a “comunicação” e até mesmo, em parte, a necessidade obsessiva de usar o termo em títulos de artigos ou projetos de pesquisa (para se marcar, diante dos órgãos de fomento, a legítima pertença do autor ao “campo”).  Não tenho nenhuma resistência radical quanto à palavra, exceto, talvez, o fato de que não acredite muito em alguns dos sentidos que ela implica.  Ou melhor, a minha resistência se dirige especificamente a concepções mais clássicas da comunicação como processo de transmissão de sentido de um emissor A para um receptor B (onde o meio, por exemplo, aparece simplesmente como aparato “transparente” para a condução de sentidos).  Ninguém irá me convencer, contudo, de que esta concepção, por quadrada que seja, não possui ainda bastante força e crédito entre nós.  Como considero o “campo” um espaço plural, constantemente atravessado por diversas disputas simbólicas, acho válida a convivência entre diferentes interpretações do conceito de “comunicação”.  Todavia, as concepções centradas na dimensão hermenêutica da comunicação são absolutamente dominantes no campo.  Alguém precisava defender a pobre e oprimida dimensão material e não-hermenêutica dos processos comunicacionais.  Voltando ao problema das terminologias, eu lembro bem que numa das avaliações iniciais que a Capes fez do projeto do PPGC UERJ aparecia uma crítica ao termo “cultura material”, usado numa ementa de uma das disciplinas propostas.  Um avaliador implicava com a expressão e perguntava o que poderia significar essa conjunção de palavras aparentemente contraditórias.  Ok, vamos abstrair o fato de que na arqueologia (e posteriormente, na antropologia) o uso de tal expressão é mais antigo do que andar para a frente.  Em uma montanha de trabalhos recentes, que mesmo o mais rigoroso delimitador de fronteiras disciplinares consideraria “de comunicação”, “material culture”, “culture matérielle” ou “materielle Kultur” passaram a fazer parte do idioleto teórico corrente.  Isso mostra, precisamente, que a terminologia científica não é imune aos ditames históricos ou mesmo às modas intelectuais de cada período e lugar.  Afinal, não estamos hoje no Brasil completamente fascinados com os termos “dispositivo” e “não-lugar”, que há 30 anos atrás não fariam nenhum sentido?  Com “comunicação” e seus múltiplos sentidos, não é muito diferente.  É um termo que, aliás, se usa bem menos em outros ambientes intelectuais.  Bom, o resumo da história é que o artigo da Compós precisava ser provocativo.  Seu objetivo é desestailizar aqueles blocos de sentido que se tornam “congelados” na estruturação das redes discursivas sobre a produção do conhecimento em um campo.  Minhas razões são simetricamente opostas às do avaliador mencionado acima.  Quero pôr em cheque “comunicação”, “sentido” e “meio” não por parecerem termos ousados, “pouco científicos” ou excessivamente inovadores, mas exatamente pelo contrário, devido ao perigo de se transformarem em entidades imóveis, fixas e platonicamente definidas ad aeternum.  Não se trata de um gesto tolo de rebeldia jovem (bom, talvez para a academia eu ainda seja jovem), mas de dar uma sacudida nas coisas.  Ezra Pound dizia que o poeta é a “antena da raça”. Ora, eu acredito que o pesquisador deve ser, com muito mais razão, “uma antena da raça”.  Tem que estar antenado com o que se passa no mundo e os ventos que sopram através dos tempos.  Não significa abdicar do passado (algo a que minha formação fortemente humanística resistira ardentemente), mas procurar outras e novas formas de enxergá-lo.  Eu tenho a impressão de que, no Brasil, a teoria da comunicação necessita de uma boa sacudida.  Naturalmente, eu posso oferecer apenas um pequeno soprinho, mas convido quem tiver um mínimo de interesse teórico a soprar junto.  O GT de Epistemologia da Compós tem feito constantes apelos de engajamento a pesquisadores interessados em questões teóricas.  Eu mesmo tenho vontade de voltar a participar (como fiz em 2004, se não em engano), mas por enquanto continuo no GT de Cibercultura, já que estou na condição de vice-coordenador, ao lado do Alex…