A Arte da Conversação

Lendo a crônica do meu amigo Juremir Machado esta semana no Correio do Povo, dei-me conta do quanto sinto falta do tipo de conversa que ele relata ali.  Como diz Juremir, “nada melhor do que falar sobre Heidegger num café da manhã de hotel”.  Ainda mais com Ernildo Stein, grande especialista na obra do filósofo.  Mas a verdade é que o cotidiano da academia nos oferece muito menos oportunidades para esse tipo de conversas do que poderíamos imaginar à primeira vista.  Esta semana participei do congresso da Abrestética, cujo tema foi “Vilém Flusser: 20 anos Depois”.  Pela primeira vez em muitos anos, em meio aos filósofos e teóricos da literatura, “senti-me em casa”.  Claro, Ouro Preto é uma cidade que convida a esse tipo de conversação sem utilidade, poética, cheia de devaneio e de admiração pelas ideias e autores que a gente aprecia.  Num dos dias do evento, sentei-me à mesa de um restaurante com alguns professores da UFOP.  Foi um almoço delicioso, não tanto pela comida mineira, quanto pelo papo, que foi da fenomenologia à grandeza de Grande Sertão: Veredas e à poesia de Carlos Drummond de Andrade – e  isso temperado com aquela mineirice que enriquece toda conversação regada por uma boa cachacinha. Os colegas da UFOP não somente eram pessoas agradáveis e simpáticas, mas também muito lidas e apaixonadas.  Não eram apenas conhecedores de seus “campos” filosóficos específicos, mas leitores curiosos de boa literatura e espectadores entusiasmados de bom cinema.  É verdade que existem muitas razões para ingressar na academia.  E certamente, a maior delas não é o gosto pela poesia ou pelo exercício do pensamento.  Mas os que o fazem motivados pela paixão das ideias tendem a viver uma existência solitária.  Sim, eu sei que é apenas um queixume de alguém que, na ingenuidade da juventude, formou uma imagem excessivamente romântica da vida acadêmica.  Não teria sentido algum questionar meus colegas que não fizeram a mesma opção ou que têm, por exemplo, uma atitude mais pragmática e objetiva em relação às suas carreiras.  A vida é múltipla, e todas as suas possibilidades são bem vindas.  Mas tenho que ser fiel às minhas crenças; tenho que dar algum sentido àquilo que faço (e o único sentido palpável da vida é aquele que nós mesmos lhe atribuímos).  E eu só consigo enxergar sentido nessa profissão (tão desvalorizada e mal remunerada) quando ela se liga ao espanto filosófico com o mundo e a curiosidade insaciável pelas grandes ideias da historia humana.  Claro, o evento também foi excelente, tanto do ponto de vista da organização como da qualidade das conferências.  Conheci Rainer Guldin, grande flusseriano suíço, e mais um batalhão de outros pesquisadores alemães interessados no filósofo tcheco-brasileiro (quase todos falando ou pelo menos entendendo português, o que me deixava extremamente embaraçado de fustigar seus ouvidos com meu sofrível alemão).  Achava que o polêmico tema da minha fala – o pós-humanismo em Flusser – seria recebido com reservas e até virulentas críticas entre os filósofos e literatos.  Por incrível que pareça, trata-se de tema que mesmo no meu campo de trabalho, a comunicação, ainda gera polemica e sorrisos irônicos.  Em vez disso, recebi elogios efusivos e apertos de mão. Terminado o evento, sentamo-nos em um café, eu e Rainer Guldin, Joachim Michael e Dirk-Michael Hennrich, e conversamos sobre literatura e os magníficos gadgets da Apple.  Foi uma conversa divertida.  E os falantes nativos ainda tiraram sarro de mim quando tentei explicar como agora é possível interagir com o novo software do iPhone 4s (o “Siri”) por meio de voz, mas pronunciei “Handy” (celular) quase como “Hände” (mãos). “Talk to the hand”, brincou o Guldin, lembrando uma expressão norte-americana.  Do outro lado da mesa, o Gustavo Bernardo, colega dos tempos de doutorado e flusseriano de carteirinha.  Fiquei com vontade de reencontrar essas pessoas.  Por que na academia é assim: a gente faz amigos sazonais.  Conhecemos pessoas fantásticas, desenvolvemos relações fortes, mas encontramos com elas apenas uma ou duas vezes por ano, durante os congressos.  E isso funciona como mais um mecanismo para despertar nosso interesse nesses eventos.  Às vezes o que acontece fora dos debates nas sessões de apresentações (em mesas de bar, por exemplo) é ainda mais enriquecedor e interessante.  Eu sei que tem muita gente que acha esse tipo de conversas chato ou pretensioso.  E realmente existem indivíduos – eles abundam na academia – que gostam de cuspir referências e citações para se exibir.  Mas há também, sem dúvida alguma, os que falam de tais assuntos porque realmente gostam, porque são apaixonados, seja pela literatura, seja pela filosofia ou o cinema.  E, sinceramente, não é melhor gostar e falar de tais coisas do que se limitar, sempre e sempre, ao small talk?  Então dane-se quem acha esse tipo de conversa pretensiosa ou aborrecida.  Por que de small talk não existe carência no mundo.  Não é à toa que Flusser falava sobre a decadência da conversação em conversa fiada…

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Breve Taxonomia dos Textos Acadêmicos

Sigamos o conselho borgiano: em lugar de multiplicar autores e realizar extensas biografias ou exercícios de exegese do gênio, por que não imaginar simplesmente que toda a literatura universal é resultado de um escritor único e anônimo e fazer a psicologia desse complexo homme de lettres?  Melhor ainda, pensemos numa versão atualizada dessa ideia e a apliquemos especificamente ao campo da textualidade acadêmica.  Basta imaginar os textos dos pesquisadores e teóricos como produtos de um único computador dotado de diferentes rotinas de mecanismos generativos capazes de produzir escritos (em série), a partir de determinados pressupostos e estruturas semânticas.  Assim teríamos uma tipologia dos variados textos, com seus maneirismos particulares e sua infindável repetição de chavões.  Eis, portanto, o primeiro esboço de uma tal possível taxonomia:

1.  O “filósofo de botequim” – o texto do filósofo de botequim se caracteriza por sua dupla pretensão de ser simultaneamente poesia e teoria (mais a primeira que a segunda), fracassando miseravelmente, porém, em ambos os quesitos.  Seu pecado não é pretender que o texto acadêmico tenha valor literário – o que seria bastante louvável -, mas trocar raciocínios por efeitos discursivos e boutades.  Não costuma citar muitos autores, mas aprecia usar frases de Nietzsche, Deleuze ou Derrida, especialmente as de caráter mais enigmático.  Não quer explicar nada, mas produzir hermetismos que pareçam sedutores – ao mesmo tempo veiculando a impressão de que leu mais que apenas um ou dois livros inteiros desses autores.  Para ser ainda mais chique, usa palavras e até cita bibliografias em alemão, não obstante ser incapaz de compreender qualquer vocábulo nesse idioma. Vejamos um exemplo: “o rizomático de Deleuze nos faz adentrar as veredas do múltiplo, produzindo encontros felizes e devires inesperados…a ‘diferância’ derridiana assinala o infinito da linguagem; como diria Heidegger, ‘die Sprache ist das Haus des Seins'”….

2. O “artista-teórico” (ou “teórico-artista”)

Em suas apresentações normalmente se limita a apresentar slides (e, nesse aspecto, é irmão do ‘amigo dos gadgets’) de obras e performances, em exaustivas descrições de casos e exemplos, ao passo que nos seus artigos faz questão de escrever de modo a não fazer sentido.  É admirável sua capacidade de construir raciocínios com aparência de encadeamento lógico, mas inteiramente desprovidos de consequências consistentes.  Não sabe bem se quer ser pesquisador ou um criador, mas o melhor é fazer as duas coisas, de modo a garantir que pelo menos uma dê certo.  É adepto da “moda” (a moda de ser um “outsider”) e fiel aos autores sancionados como “esteticamente corretos”.   Cita com frequência, também, os próprios artistas, sabidamente os piores juízes de seu próprio afazer.  No fundo, no fundo, acha essa coisa da academia (e do pensamento lógico) um negócio chato e quadrado, mas como ser artista não é também métier dos mais fáceis, acaba recorrendo ao mercado de trabalho universitário.

3. O “amigo dos gadgets”

Sim, existe este novo gadget aqui, este novo videogame aqui, esta nova tecnologia aqui.  A atualidade é reduzida a uma série de casos que não são nunca explicados ou referidos a uma totalidade, mas permanece como resultado fragmentário do admirável mundo novo da técnica.  Que mais fazer senão exaltar o extraordinário progresso material que experimentamos?  Não se pode pensar sobre os gadgets, apenas admirá-los.  Não há como negar que suas apresentações são as mais atraentes (e mais contagiantes em seu entusiasmo infantil pelos brinquedos tecnológicos), mas seus textos são comumente chatos e sem vida.  Não se preocupam com o conceito, mas sim com a produção de espanto. Estão sempre up-to-date com os mais recentes aparatos, e às vezes até com os autores em voga no campo (tipo Henry Jenkins), mas não lêem nada que tenha sido escrito antes da década de 1980.

4. O apocalíptico de plantão

Este sofre do mal inverso.  Considera tudo que tenha sido realizado nos últimos 50 anos um perigo para a cultura e o já depauperado humanismo.  É geralmente erudito, mas só consegue pensar em moldes pré-determinados.  Seus autores de cabeceira são, obviamente, os frankfurtianos, mas despidos de toda possível contradição ou elogio ocasional ao presente status quo.  Seus textos são geralmente pesados, com longos parágrafos blocados e a constante repetição do termo “crítica”.  Gostam de usar consecutivos como “destarte” ou “ergo”, e em seu estilo não admitem nada que seja da ordem do humor  (no máximo uma ou outra ironia ácida).

5. O moderninho de plantão

Este se recusa a ler qualquer coisa que soe como “crítica”.  Considera chique ser “antenado” e “afirmativo” quanto ao presente.  Vê os apocalípticos como resquícios deploráveis de um mundo que já deveria estar há muito tempo enterrado.  Recusa-se mesmo a ler qualquer pensador que tenha pendores críticos. Gosta de citar fontes heterodoxas, como letras de músicas ou seriados de televisão e procura abordar os objetos normalmente desprezados pelos apocalípticos.  Seu vocabulário inclui de bom grado informalismos, e faz citação após citação (apenas dos mais recentes autores canônicos) sem nenhum pudor.

Obs: obviamente, nenhum de nós escapa inteiramente à sujeição a algum tipo de maneirismo.  Tenho consciência daqueles que impregnam meus textos, e alguns até me agradam (outros ainda não consigo evitar).  Mas em certos casos, a fidelidade às fórmulas prontas é realmente desalentadora.  A retórica do magister dixit, a formação dos “grupelhos” de interesse e a lógica discipular estão entre os maiores males da academia de hoje.  Escapar desses moldes deve ser desafio constante para nós, mas com cuidado para que a própria busca da independência e ‘originalidade’ não se torne, também, uma espécie de maneirismo.  As vanguardas que o digam.

Autoria, Cultura Digital, Minc e Caetanês

“É porque acho que devemos respeitar os direitos autorais. Sem concessões. A internet que se vire. Ela e toda sua multidão de internautas em blogs e redes sociais que se vejam na situação de introjetar as leis da vida off-line, a nossa vida. Daqui de fora, podemos exigir” (Caetano Velloso)

Há algo estranho no reino da Holanda (antes era na Dinamarca).  Se ainda era algo ambígua a retirada da licensa Creative Commons do site do Minc, agora não parecem restar muitas dúvidas quanto à posição da ministra Ana de Holanda em relação a temas como direito autoral e acesso a bens culturais.  Na verdade, fica difícil evitar a impressão de que Ana de Holanda está deliberadamente esbofeteando os defensores da cultura livre (e toda a política cultural do governo Lula).  Que outra explicação haveria para a reprodução desastrada do infeliz texto de Caetano no site do Minc?  Convenhamos: alguém lembra um ministério que em tão pouco tempo de atuação tenha conseguido cometer tantas gafes?  Será que nenhum acessor do MINC percebeu, antes de publicar o libelo, as alfinetadas que o músico dava em Lula?  Era mesmo necessário que alguém voltasse lá mais tarde e convenientemente “editasse” o texto, deixando apenas sua primária e patética defesa de um modelo ultrapassado de direito autoral? Ops, alguém realmente dormiu no ponto…  E em meio a toda a turbulência, Ana de Holanda mantém-se incompreensivelmente silenciosa, como se pairasse divinamente acima de tudo isso.  Pode ser uma curiosa expressão de wishful thinking: “se ficarmos quietinhos aqui, depois de um tempo esses chatos vão se cansar e nos deixar em paz…”  Mas vamos ao texto de Caetano.  Nada contra o artista, sem dúvida um dos grandes criadores da história da música brasileira.  Porém, infelizmente, isso não o qualifica a tecer análises sobre nenhum dos pontos abordados no texto – a respeito dos quais ele demonstra o mais absoluto desconhecimento.  Aliás, numa comparação bastante realista, eu diria que Caetano entende tanto de internet quanto eu entendo de geometria das estruturas hiper-espaciais.  O problema é que no Brasil, o sujeito que leu mais de cinco livros e consegue colocar três palavras em seqüência sintaticamente correta já é considerado um “intelectual”.  E por mais que eu simpatize com o Caetano e aprecie sua música, já não consigo mais me divertir com as expressões pitorescas do “caetanês”.  A melhor parte do artigo, evidentemente, é aquela onde ele confessa: “como todos, sinto-me perdido”.  A mais infeliz, naturalmente, são as linhas finais que reproduzi acima.  Citando algumas leituras de rodapé do Lessig e do Keen, ele chega à fantástica conclusão de que a realidade deve se curvar ao que ele acha ser o certo.  “A internet que se vire”.  Aliás, esqueci também de mencionar o tremendo ato falho da frase em que ele reconhece ser Keen um “moralista de tom panfletário”, mas que no essencial “tem razão”.  Estranhos tempos esses em que os antigos defensores da liberdade dão razão aos “moralistas panfletários” (ou será que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”?).  Mas o mais perturbador é efetivamente a segurança com que Caetano esfumaça toda a complexidade dos debates em torno das questões discutidas com seu simples “ainda acho que…”.  Ora, será possível que alguém inteligente como Caetano ache realmente que a “internet vai se virar”?  Será que ele pensa que milhões de internautas plugados em um gigantesco banco de dados mundial vai se conformar com um modelo de posse e distribuição cultural inteiramente inadequado às realidades desse admirável mundo novo digital?  Seria como eu ir para a rua e gritar: “olha, todo mundo, por favor parem imediatamente de usar Bitorrent, Emule, Limewire ou quaisquer software de compartilhamento!  O Caetano exige!” – e esperar que alguém me atendesse.  Será realmente que ele se acha capaz de conseguir aquilo que nenhuma das majors (de Hollywood a todas as grandes gravadoras) conseguiu até agora? Não posso crer que se trata de ingenuidade ou séria disfunção cognitiva, mas o fundamento desse raciocínio realmente me escapa.  Talvez esse libelo de Caetano seja, na verdade, um grito de desespero diante da inevitabilidade das mudanças que estão por vir.  Pois se há um elemento que unifica os detratores da cultura comum é seu pânico diante do novo.  Que outra razão poderíamos encontrar por trás dos risíveis desmandos do Minc?  O paradoxo dessa situação é que quanto mais se percebe a impossibilidade de frear o avanço dos tempos, mais intensamente se resiste contra eles.  Por mais truculenta e desagradável que possa ter sido a invasão de copiadoras em universidades públicas pela Polícia Federal, não se pode evitar também a impressão de que se trata de uma farsa com tonalidades cômicas.  Pois, no fundo, todos sabem, inclusive os donos de editoras, que tudo não passa de um grande teatro completamente inócuo.  É nesse mesmo registro que devemos ler o texto de Caetano.  Pois efetivamente ele não é mais que um componente desse vasto jogo cênico servindo para oferecer a certas esferas de autoridade (aqui lembrando, naturalmente, a conexão etimológica das palavras “autor” e “autoridade”) algum tipo de conforto simbólico.  Ora, bem nos escuros recônditos de sua alminha assustada, até mesmo o ECAD sabe disso.  Pois não há outro modo de explicar, em meio ao calor de toda essa polêmica, a ampla divulgação de sua meta de cobrar dos blocos de rua os direitos sobre as marchinhas que vierem a usar.  Ou será que eles não imaginavam que essa atitute iria lhes conquistar a virulenta antipatia de toda a sociedade carioca?  É no momento do fôlego final que o moribundo mais fortemente se agarra ao último fiapo de vida. E agora me pego pensando que os autores que mais decididamente deixaram sua “marca” foram precisamente os que mais questionaram o rótulo de “autor”.  Gente como Flusser, Borges e Kafka, que já pressentiam, desde há muitos anos, a corrosão progressiva desse conceito.  Mas isso é tema para outra conversa.  E dado o atual clima de desespero das instâncias conservadoras da cultura, oprtunidades para entabulá-la não faltarão…

O Declínio da Erudição

Já escrevi sobre isso antes em algum lugar, mas o tema acaba de retornar à minha cabeça.  Hoje conversei com uma pessoa conhecida que me comentava sobre o nível de um candidato a uma posição em uma universidade norte-americana.  Eu já havia intuído que se tratava de alguém com bem pouca densidade intelectual, e nessa conversa eu tive a confirmação.  A essa altura, esse tipo de coisa não me deixa nem um pouco surpreso.  Depois de conhecer muita gente em universidades na Europa, no Brasil e nos EUA, minha disposição normal é a de sempre esperar muito pouco.  Quando o sujeito consegue resumir uma ou duas teses de Foucault ou mencionar um livro de McLuhan eu já fico até bastante satisfeito… Na verdade, eu diria mesmo que no Brasil nós estamos bastante bem em comparação com o cenário internacional (pelo menos nas áreas que conheço).  Mas não deixa de ser uma situação preocupante.  O que se pode esperar dos professores e pesquisadores que estão por aí e que formarão as gerações futuras?  Naturalmente, existem as exceções (que confirmam a regra) e proporcionam alguma esperança diante de cenário tão sombrio.  Na área de comunicação, eu poderia citar vários nomes de colegas que nada deixam a dever a alguns “pop stars” internacionais da academia. Essas são pessoas verdadeiramente apaixonadas pelo que fazem, que amam o conhecimento e gostam de ensinar, ler e escrever.  Por outro lado, no Brasil e lá fora, vejo certas figuras serem incensadas sem entender o que existe de fato por trás delas capaz de atrair tanta atenção.  Intriga-me constatar como é fácil enganar as audiências universitárias.  E paira no ar a insistente questão: como estaremos daqui a algum tempo, digamos, uns 20 anos? Pois a situação não parece estar melhorando com o tempo; possivelmente o contrário.  Não é sem razão que eu vivo batendo na tecla da formação humanística.  É ótimo que o sujeito saiba bastante sobre um determinado assunto, mas isso não basta para lhe garantir nenhum papel relevante no domínio da produção de conhecimento.  É vital que a paixão pelo saber não seja monogânica! Quanto mais vagabundo e “galinha” em termos do seu amor pelo saber for o cidadão, mais chances ele terá de produzir um pensamento inovador.  Afinal, não foram exatamente assim todos os pensadores e mestres que marcaram indelevelmente nossa cultura?  Este ano se comemora o centenário do nascimento de Marshall McLuhan, e na Transmediale 2011, em Berlin, se organizaram vários eventos em sua homenagem. Como Flusser, McLuhan era um “Bodenlos” (sem solo), um obsceno amante de vários campos do saber.  E também como o exilado de Praga, McLuhan tomava riscos enormes, não tinha medo de errar, e só por causa disso conseguiu acertar tanto.  Além disso, mesmo seus erros são interessantes. A Transmediale lançou aqui a versão (inédita) de 1954 de Counterblast, um tipo de obra que, hoje, pouquíssimos professores universitários e pesquisadores teriam coragem de escrever.  No sábado, Baruch Gottlieb vai organizar uma montagem de vídeos onde Flusser e McLuhan se confrontam, acompanhada de uma encenação que porá os dois gigantes em debate.  Grande idéia, pois não é à toa que Flusser já foi comparado (mais de uma vez) ao autor canadense.  Óbvio, esses são casos extremos, e não estou dizendo que temos que ser todos como Flusser ou McLuhan.  Quando leio um cara como Gilbert Durand, por exemplo, eu me sinto tão insignificante que fico com vontade de me esconder debaixo da mesa.  Mas que hoje nos falta um pouquinho mais de empenho e ambição, isso falta!  Atualmente, quando o cara fala direitinho uma língua estrangeira, já se acha a última Coca-Cola do deserto…  Porque a ignorância é freqüentemente acompanhada de falta de senso crítico.  Ser ignorante não é uma vergonha, querer persistir nela sim.  Por isso é um bom exercício espiritual meditar sobre os grandes mestres, como Gadamer, Foucault ou George Steiner: diante deles eu me sinto uma ameba, e isso me impulsiona sempre para frente.  Eu sei que vivemos em uma época que não favorece o tempo lento da leitura, a dedicação cuidadosa ao aprendizado.  As exigências de produtividade dos órgãos de fomento nos levam a escrever sem conseguir parar para ler.  As demandas da vida cotidiana na sociedade “eletrônica” nos colocam em uma situação bastante diferente daquela de Heidegger, fechado em sua cabana na Floresta Negra, cortando lenha e lendo livros de filosofia. Mas será que não conseguimos ao menos alçar a vista um pouquinho mais para cima?  Eu sei ainda que muita gente (pasmen, inclusive na academia!) não gosta da palavra erudição.  Acham que ser erudito é sempre ser pretensioso; pensam que querer saber muito é um delírio narcisista.  Enfim, julgam os que têm curiosidade insaciável e acumulam saber com a medida mesquinha de seu próprio caráter.  Mas vamos, pois, colocar os pés no chão e falar sobre os extremos: o que realmente assusta é que tem gente por aí assumindo cátedras universitárias sem conseguir concatenar duas frases.  O problema, hoje, já não é se o sujeito é erudito ou não.  O problema é se ele sabe concordância verbal e nominal.  Eu não estou exagerando.  Vejo isso todos os dias.  Portanto, meu caro colega: se você é professor, estudante de mestrado ou doutorado, em primeiro lugar reconheça sua monumental ignorância.  Em seguida, encontre um modelo e procure mirar-se nele.  Provavelmente você não alcaçará as alturas estratosféricas de seu ídolo (principalmente se for alguém do calibre de um Heidegger).  Mas certamente estará disposto a levar mais a sério a carreira que escolheu seguir e isso o tornará um bom professor ou pesquisador. É assim que tudo começa.  Quem não tem ídolos, quem não acredita em nada nunca vai conseguir acreditar em si mesmo.  Como disse Paracelso, “quem nada conhece, nada ama”. E depois que você acumular todo esse magnífico conhecimento, para que exatamente ele vai te servir?  Para NADA, absolutamente nada.  Pois o saber, assim como a arte, a filosofia e o amor não tem nenhuma função prática.  Mas sem eles, a vida fica muito mais chata.  Óbvio, muitíssimas pessoas irão passar sua existência inteira absolutamente felizes e bem resolvidas, sem nunca terem ouvido falar no “imperativo categórico” ou na teoria da informação de Shannon.  Mas não é deles que estou falando aqui.  Falo desses seres estranhos, alienígenas, sempre mal resolvidos e complexados que são os curiosos insaciáveis.  Essas pobres criaturas estão condenadas ao martírio de uma sede sem fim.  Mas também têm o privilégio de desfrutar de um dos maiores prazeres da vida humana, além do chocolate.  Pois pensar é uma aventura incomparável, uma satisfação que chega a ser de ordem erótica!  E lembre: não importa o tamanho do livro que você leia, mas sim o prazer que ele proporciona.

Quem tem Medo da Teoria? (novamente, a doença da hiper-especialização)

Nos últimos anos, venho notando que os projetos de pesquisa apresentados aos cursos de mestrado e doutorado têm temas cada vez mais específicos.  Não digo bem recortados ou definidos, o que naturalmente constitui um pré-requisito de qualquer projeto bem elaborado.  Digo excessivamente fechados, a tal ponto de sufocarem qualquer espécie de pensamento mais ambicioso.  Na filosofia, por exemplo, seria algo como “a função da conjunção ‘dass’ na expressão lingüística do Wittgenstein de ‘Investigações Lógicas'”.  Certamente, tal tendência é precisamente o tipo de coisa que provoca orgasmos múltiplos em avaliadores da Capes.  Comigo, o efeito é o contrário: uma preocupante brochura intelectual que só um forte viagra teórico poderia curar.  Este ano, propositalmente, resolvi oferecer um dos cursos mais densos que poderia elaborar para o mestrado.  Resultado: três alunos inscritos.  A bem da verdade, as dimensões do PPGC da UERJ são bastante modestas, mas este é realmente um número atípico.  É fato também que a maioria dos estudantes não escolhe cursos pelo quesito ‘quem ensina’ ou pelo conteúdo em si, mas pelo tema geral e pelo dia da semana mais favorável.   “Novas Tecnologias e Formas de Vinculação Social”, por exemplo, sempre faz muito sucesso.  E por alguma razão, quartas e quintas são os dias mais populares (eu bem que tentei pegar a quinta, mas alguém foi mais rápido que eu).  Toda essa tendência à especialização seria sadável se pelo menos existissem algumas almas corajosas com sede de questões mais amplas.  Afinal, todos nós precisamos conhecer bem pelo menos um assunto.  Mas esses seres intrépidos estão em extinção, e encontrar um deles é como achar um dodô perdido em uma selva africana (para quem não sabe, um estranho pássaro extinto desde o século XVII).  Desse modo, já não se encontram propostas “globais” para contrabalançar as “locais”.  Mas qual é o maior perigo disso?  É que escolhendo, de cara, um tema altamente limitado, o sujeito passa por cima de todos os fundamentos necessários para desenvolver um pensamento relevante sobre qualquer coisa.  É como o caso clássico do cara que cita Deleuze a torto e a direito, mas desconhece quase qualquer noção histórica do pensamento filosófico que precedeu Deleuze.  Sim, é verdade que o caminho da amplitude é muito mais exigente, muito mais duro, muito mais sacrificado.  Mas nessa história, parece que alguns aspirantes à docência se esquecem de um dado elementar: a academia não é um passeio no jardim das delícias de Epicuro.  Como diz o austero Rüdiger, só os fortes sobrevivem.  Não existem mais bons concursos para doutor com menos de dez candidatos.  Nossos mestrados e doutorados, que na atual fase supostamente liberal da Capes, continuam se multiplicando, têm despejado todos os anos centenas de pós-graduandos no limitadíssimo mercado acadêmico brasileiro.  Pois é, somente os fortes sobrevivem.  É preciso reconhecer que parte da culpa por esse fechamento do saber se deve a um modelo de produção intelectual inteiramente formalista e baseado em “resultados” (seja lá o que quer que “resultado” signifique neste contexto).  Outra parte, entretanto, se deve simplesmente ao medo.  Medo da teoria, medo de vôos mais amplos, medo da complexidade do saber em seu estado “pós-moderno”.  Depois que escreveu “O Nome da Rosa”, Umberto Eco afirmou que as primeiras 100 páginas da novela serviam como um mecanismo de seleção natural.  Em outras palavras, ele estava interessado em falar apenas àqueles leitores que conseguissem superar o obstáculo desse começo mais difícil e árduo.  Elitismo?  Não creio.  Trata-se apenas de escolher para quem você quer se dirigir.  Todo pensamento e toda arte autêntica tem sempre um público específico.  Como dizia Borges, “os bons leitores são cisnes ainda mais raros que os bons escritores”.  Quem tem a pretensão de falar para todo mundo nunca irá dizer nada de realmente significativo.  Portanto, meus caros, escolham bem quem vocês irão ler e com que temas irão trabalhar.  E saibam que, na universidade, vocês serão sempre lidos e escutados por apenas meia dúzia de pessoas.  Se quiser ser popular, vá fazer aulas de creative writing com o Paulo Coelho. Enquanto isso, sigo aqui lendo Kittler, penando (e me deliciando) com cada linha de texto.  Apesar de todas as decepções que a vida acadêmica pode proporcionar, ainda imagino o paraíso na forma de uma biblioteca…

Cronemberg: o Cinema em Carne Viva

Em relação apenas indireta com a pesquisa, mas sem dúvida um evento importante, vale lembrar da mostra “O Cinema em Carne Viva”, organizado por Tadeu Capistrano na Caixa Cultural.  Minha fala aconteceu na terça-feira, dia 01, e o texto no qual se baseou pode ser lido aqui.  Naturalmente, ninguém pode estudar a questão dos impactos sociais e culturais das tecnologias midiáticas sem passear minimamente pela obra de Cronemberg.  O evento termina sábado, mas ainda dá para assistir às palestras do João Luiz (Vieira) e da Paula (Sibilia).

O Que Existe em um Nome?

O Nome deste blog presta homenagem ao título do livro de Graham Harman, Guerilla Metaphysics: Phenomenology and the Carpentry of Things.  Funcionando como um complemento de “The Testament of Dr. Mabuse“, meu blog pessoal, este aqui se dedica especificamente a meu tema de pesquisa atual e assuntos correlatos.  Ainda sem forma definida, ele irá se consolidando aos poucos.  Vamos ver como funciona.

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