Flusser and Kafka: Bureaucratic Theology

Just finished reading Flusser’s essay on Kafka for a class I’ll teach next Thursday. I specially like Flusser’s idea of a God who not only loathes his creation, but also dislikes himself. How weird is the idea of a divine being who just sits impassive in his celestial office, lazily contemplating the daily tragedies of this sublunar world? Well, it’s not very different from the god of the gnostics (the so-called “theos agnostos”), with the particularity that Kafka’s deity is not only indifferent to mankind, but also despises it. If Lovecraft had a God it would certainly be like Kafka’s, like mighty Chtulhu sleeping through the ages while an unsuspecting humanity goes about its business. There are, however, those who eagerly wait for Chtulhu’s awakening and their impeding doom. Yes, there is something strangely attractive about the idea of a sudden apocalypse, about the end of our senseless suffering. Michel Houellebecq sees this very clearly when he states that, notwithstanding the absolute horror of Lovecraft’s universe and the abominations that awaits us behind every door, his literature exerts a strange and irresistible allure on us. For Flusser, we are still waiting for Kafka, because its readership is yet to be born. But – who knows? – it’s always possible that some of his authentic readers and interpreters are already walking around this earth. If that’s the case, then Kafka’s particular Stimmung can certainly be felt, even if only in minute doses…

An archaeology of theoretical thought

Siegfried Zielinski urges us to seek the new in the old. I wonder if that theoretical principle could be applied to theory itself. What if we were to read past authors and ideas always under a new and different light? We could go even further and promote a continuous refashioning of the past by means of different imaginative exercises. An archive is not necessarily a repository of dead words and deeds. The archaeologist possesses the mystical power to resuscitate what was thought to be lifeless. Therein lies perhaps one of the main reasons for my interested in the past. Also, I have to admit that I’m usually much more interested in stories about failures and flops than tales of success. A monumental flop within the sphere of theoretical thought may indicate that an idea was prematurely born or shaped within an intellectual context that didn’t do it justice. I believe that’s the case with many of the obscure characters that draw my attention. Not coincidentally, I tend to evaluate their ideas under a framework that is never solely epistemological, but also aesthetic. Take, for instance, the obscure Fritz Mauthner. Reading the excellent work by Elizabeth Bredeck (Metaphors of Knowledge: Language and Thought in Mauthner’s Critique), I speculate wether Mauthner’s notion of Zufallsgeschichte (history of contingencies) can shed interesting light on some (media)archaeological principles. This history of contingencies teaches us that “what history lacks is as important as what it yields” (p. 42). The fact that the Zufallsgeschichte is not grounded on any divine or natural predetermination prevents the establishment of any generalization. History always “remains limited to particulars” (43) and also bound to human interest. Instead of being “true”, it must be useful. In Mauthner’s view, our knowledge of the world has a “metaphoric” dimension, since it is always mediated by language and its categories. One could say that knowledge is always, in a way, “aesthetic”. In a time when anthropocentric perspectives of the universe were still quite current, Mauthner endeavored a critique of the anthropocentric character of words such as “law”, “purpose” or “necessity”, which should be dismissed as linguistic illusions altogether. After writing this very brief and incomplete report, I read again a fortuitous passage in Bredeck’s book – which I had of course already forgotten – and smile: “Mauthner serves as a lens through which we can get a new perspective on issues in contemporary theory, while contemporary theory helps shed new light on the complexities of Mauthner’s own thought” (p. 29).

Detlev Schöttker na UFF

Detlev Schöttker é um renomado especialista na obra de Walter Benjamin. Domingo passado, em almoço com Adalberto Müller e Susana Kampf Lages, pude constatar também que, como todo grande intelectual, Schöttker é modesto e acessível.  Eu e Adalberto estamos traduzindo seu ensaio “Benjamins Bilderwelten” para o Seminário (mini-curso) que ele oferecerá na UFF entre 17 e 19 de agosto, no curso de Letras. O evento é aberto, e os interessados podem se inscrever pelos telefones no folder abaixo.  Acho que vale a pena também para os comunicólogos de plantão.  Não são muitas as oportunidades que temos por aqui de travar contato com um pesquisador desse calibre.

Temperando a Epistemologia com uma Dose de Cibercultura

Ao término da XI edição do encontro da Associação Nacional, posso fazer alguns comentários ao texto que apresentei este ano, disponível, para quem quiser lê-lo, aqui na biblioteca digital da Compós.  Como já havia afirmado anteriormente, não se trata, por seu estilo peculiar e teor especialmente polêmico, de uma amostra significativa do meu trabalho.  De fato, esse artigo teve origem em contexto muito específico, e seu objetivo era servir a propósitos bastante pontuais em minha reflexão sobre os temas comunicacionais no Brasil.  Escrevi o artigo na Alemanha, sem sequer a certeza de que poderia estar presente na Compós este ano.  Uma de minhas metas era testar até que ponto seria possível exercer certa “liberdade criativa” em um texto acadêmico no contexto da Compós.  E, confesso, não achei que havia boas chances de aprovação, dado o caráter extremamente pessoal e subjetivo de minhas afirmações (tanto no que respeita às críticas que faço à epistemologia da comunicação quanto em minhas “proposições” teóricas).  Um dos pareceres assinalava, corretamente, a falta de subsídios e de conexões entre minha afirmativa da decadência da teoria da comunicação no Brasil e os baixos números de inscrições em GTs e NPs de pesquisa em Epistemologia na Compós e no Intercom.  A bem da verdade, existiam dados, mas eram insuficientes para uma verificação “científica” das minhas afirmativas.  Mais que isso, eu não demonstrava – e não havia como fazê-lo – que os números por mim apresentados se ligavam a um suposto esvaziamento das discussões epistemológicas no Brasil, assim como tampouco explicava minhas razões para justificar o que eu considerava como os motivos de tal crise.  Sim, tudo isso era verdadeiro e correto.  And yet, and yet… mesmo sem as tais provas eu continuo convicto das impressões configuradas no texto.  Ou seja, eu propositalmente escrevi um texto subjetivo (ainda que enfeitado com dados esparsos retirados da biblioteca da Compós) e opinativo.  O fato de que o artigo foi aceito talvez mostre que ainda existe espaço de manobra para algum subjetivismo nos discursos acadêmicos em nosso meio, o que – sem dúvida, algo que soará escandaloso para alguns – enxergo mais como uma qualidade do que como um defeito.  Ou pode ser que, não obstante sua carência de dados verificadores, a lógica do artigo conseguia se sustentar minimamente.  A terceira possibilidade é que o argumento autoral tenha tido algum peso (mas conhecendo os colegas pareceristas e sua seriedade, acho pouco provável).  Seja como for, a experiência cumpriu seu papel e me apresentou, inclusive, resultados inesperados.  Em resumo, a tese apresentada no artigo é a de que enfrentamos uma situação de crise da epistemologia da comunicação no Brasil.  Eu esboçava um cenário algo sombrio, apontando o baixo interesse de estudantes e pesquisadores pelas explorações de natureza mais teórica, e contrastava tal situação com nosso aparente êxito no campo da pesquisa aplicada e das abordagens empíricas.  Naturalmente, tal retrato era caricatural e exagerado, mas esses elementos eram necessários para alcançar a tonalidade polêmica que eu almejava obter no texto. E o maior alvo de crítica no artigo era o apego que os GTs e NPs de Epistemologia pareciam apresentar à sempre retomada discussão sobre o “campo da comunicação” e seu legítimos métodos, objetos e problemas.  Alguns amigos, inclusive Simone, dizem-me que a obsessão com a delimitação do campo é coisa do passado, algo já superado.  Pode ser que seja, mas talvez existam ainda alguns fantasmas passeando por aí, e eu bem que gostaria de exorcizá-los.  De todo modo, outro argumento do texto é que novos paradigmas, novos autores e novos conceitos ligados ao horizonte das mídias digitais ainda não conseguiram penetrar suficientemente o domínio da epistemologia da comunicação.  Desse modo, continua se repetindo exaustivamente um cânon de autores não apenas bastante tradicionalista, mas em muitos sentidos conectado ao universo das mídias analógicas e nem sempre adequado à análise da situação contemporânea.  Não significa, claro, que tenhamos de negar as tradições anteriores (como a semiótica ou a análise do discurso, por exemplo), mas sim que deveríamos buscar também novas perspectivas.  Nesse sentido, não concordo com a segunda parte do parecer crítico que recebi: “Além disso, o tom afirmativo e prescritivo do autor vai de encontro à própria natureza da proposta, já que a teoria (da comunicação ou qualquer outra) não nasce da definição de posicionamentos ‘corretos’ e da especificação do que ‘deve ser feito’, mas do tensionamento, da crítica, e, sobretudo, da dúvida – que não aparece no texto”.  Sim, a teoria não precisa, necessariamente, mas pode – e muitas vezes DEVE – ser propositiva e afirmativa.  É verdade que o texto deixa a impressão de pouca margem à dúvida.  Todavia, seu caráter pessoal e o esclarecimento de que se tratam de “proposições” de caminhos possíveis deveriam mitigar tal impressão.  Essas são, efetivamente, as minhas propostas (naturalmente compartilhadas pelo enorme conjunto de pesquisadores que cito no texto).  De resto, tensionamento é o que não falta no texto.  Mas é importante deixar algo claro: não obstante os exemplos pontuais utilizados, não se trata de criticar indivíduos ou mesmo grupos de pesquisa.  Tenho acompanhado o GT de Epistemologia da Compós já há algum tempo, e posso testemunhar de sua abertura a explorações inovadoras e soluções originais.  Todavia, não consigo apagar a impressão de um predomínio das tradições e de certo conservadorismo teórico quando leio o conjunto dos textos.  Acho que tomamos muito poucos riscos e que nosso pensamento peca por ser muito comportado – e não me excluo dessa observação.  Eu esperava reações exaltadas, ácidas discussões e grandes polêmicas.  Afinal, muita gente afirmava que o GT de Cibercultura havia perdido um pouco de seus tensionamentos e embates mais acalorados (sempre conduzidos com enorme respeito).  Mas meu desejo de testemunhar uma versão de “Ultimate Fighting” na Compós não se materializou.
Em vez disso, o texto foi recebido com extrema generosidade e exaltados elogios (que ele certamente não merece), inclusive por amigos do GT de Epistemologia, que constituía o foco central das análises do artigo.  Fui convidado para colaborar com livros e fazer palestras em instituições (bem como a enviar trabalhos para o próprio GT).  Daí minha segunda surpresa: não só o artigo havia sido aprovado pela Compós, como também foi acolhido com interesse, em lugar de ser rechaçado com violência.  A experiência foi válida, mas não tenciono repeti-la.  Acho que é necessário ocasionalmente testar os limites de todo sistema e agitar tudo aquilo que ameaça congelar-se em forma fixa.  Mas até mesmo a polêmica perde sua força quando se institucionaliza como prática.  Meu projeto para o futuro, aliás, é, digamos assim, menos “teórico”.  Mas antes quero terminar de mapear o cenário teórico “alemão” que tanto me interessa (de Flusser a Kittler).

Vilém Flusser – Seres de um outro Mundo (Wesen aus einer anderen Welt)

O texto abaixo é mais um manuscrito inédito encontrado no arquivo Flusser (catalogado sob o número 2400).  Sem data, o que é possível dizer é que se trata de trabalho importantíssimo no contexto da obra de Flusser, e provavelmente contemporâneo do Vampyroteuthis Infernalis.  Aliás, basta ler o texto com algum cuidado para se perceber como estão aqui, em germe, as idéias que serão desenvolvidas na obra escrita em parceria com Louis Bec.  Para mim, ele representa um exemplo extraordinário de como Flusser captou as energias mentais da cultura em questões que, nos anos 80 e 90, apenas começavam a se anunciar – e que, pouco mais tarde, se consubstanciariam nas chamadas filosofias da animalidade e no tema do pós-humanismo.  Para quem conhece bem tais temas, a atualidade do pequeno ensaio é impressionante.  Ao lado das cartas a Milton Vargas e Dora, ele constitui peça-chave para a interpretação dessa singular obra do autor de Filosofia da Caixa Preta, mas, perdido na confusão do arquivo, não foi mencionado por ninguém até o momento – nem mesmo no competente estudo de Paola Bozzi (Vilém Flusser: dal Soggetto al Progetto).  Como de costume, trata-se de original datilografado que não sofreu revisão cuidadosa, o que dificulta muito o trabalho de tradução.  Mas creio que meus possíveis equívocos não chegarão a comprometer o entendimento do ensaio.

Vilém Flusser – “Seres de um outro Mundo”

A humanidade se prepara para abandonar a Terra e vagar pelo espaço.  E nesse processo, ela é conduzida pela ânisa de romper o isolamento da espécie humana e entrar em contato com outros seres.  Os motivos restantes para a exploração espacial são, assim me parece, secundários ou forçados.  O combustível dos foguetes é o temor da diminuta insignificância dos seres que se chamam de “homens” e que se sabem solitários e abandonados em meio aos gigantescos abismos da noite, aprisionados a um corpo secundário do incospícuo sistema solar e em insensato giro ao redor deste.  O natural repouso no fundamento que mantinha o mundo íntegro, a fé, foi irremediavelmente perdida, e os homens agora gravitam apenas em direção à morte.  Assim, buscam eles libertar-se desse vórtex e se lançar no vazio do espaço, na duvidosa esperança de em algum lugar encontrar paragem junto a seres alienígenas.  A astronáutica é apenas uma das muitas vias de escape nas quais se encontra a abatida humanidade nos dias de hoje.  Que  essa fuga no espaço em busca de outros seres é vã, e que disso temos, ou deveríamos ter, pleno saber, é o que quero demonstrar.

Se o lote do homem é diminuto, mesmo comparado às enormes medidas do nosso limitado mundo, por outro lado ele não está só, mas é, como sabemos, membro daquela família que compõe a vida em nosso planeta.  A humanidade representa apenas uma das milhões de espécies de animais e plantas que povoam a Terra, e compartilha com elas não apenas a matéria da qual são compostas – o protoplasma -, senão também uma história e um destino comuns.  Todas essas espécies se formaram, no obscuro passado, do mesmo caldo primordial.  Trata-se, em todas elas,  de complicadas reações químicas de uns poucos elementos químicos no interior de um fluido viscoso, o mesmo protoplasma.  E esses processos podem se desenrolar apenas em um espectro relativamente pequeno de temperatura e pressão.  Fora desses estreitos limites, o protoplasma se congela, evapora, explode ou se comprime. Essas diferentes espécies de protoplasma organizado, essas protozoa, plantas e animais, no decorrer de sua existência, que acompanhou apenas uma pequena parte da história da Terra, tomaram parte comum no destino do planeta – e esse destino influenciou a todas de modo fundamental.  Todas as erupções vulcânicas, catástrofes metereológicas, desvios do eixo terrestre, colisões com meteoros, raios solares e cósmicos, enfim, todos os destinos da Terra, foram suportados igualmente por todas as formas de vida. As formas de vida estão em estreita e ininterrupta conexão umas com as outras, elas vivem em conjunto, umas a partir das outras e em interação mútua (mit-, und von-, und aufeinander), e formam um tecido fechado no qual se atribui a cada espécie um nicho vital e natural.  Muitas das espécies vivem em luta entre si, ou então se alimentam de outras e alimentam a outras, muitas vivem em cooperação simbiótica, muitas têm como seu destino existir em cadeias invisíveis ligadas a outras.  Uma alteração (mutação) de uma espécie tem como conseqüência uma gradativa alteração de todas as outras.

A humanidade está longe de poder vislumbrar a totalidade das espécies e o labirinto de suas relações, muito menos de compreendê-las.  Inteiras províncias da vida, por exemplo os mares profundos ou os micro-organismos, ainda encontram-se em grande parte encobertas (verschleirt) para nós.  O homem começa apenas a arriscar os primeiros e hesitantes passos de uma iluminação das conexões biológicas.  A maioria das espécies e seus destinos são para nós um mistério.  Seria, porém, equivocado pretender que o conhecimento dessas espécies desconhecidas pudesse nos aproximar de uma compreensão.  Existem espécies que nós conhecemos muito bem, com as quais permanecemos em contato diário, mas que permanecem para nós totalmente incompreensíveis; por exemplo, os insetos construtores de colônias.  Não obstante nosso exato conhecimento dessas espécies e nossa cotidiana luta ou cooperação com eles, não temos nenhum tipo de contato interior, nenhuma espécie de simpatia, e seu mundo encontra-se quase que completamente fechado para nós.  A situação com nossos mais próximos parentes, os primatas, não é essencialmente diferente.  Em verdade, podemos até um limitado grau penetrar no mundo dos chipamzés ou gorilas, e eles no nosso.  Mas estamos longe de uma real e frutífera comunicação entre as espécies, ao menos no sentido em que usamos a palavra “comunicação”.  Estranhamente, o parentesco biológico não é a melhor garantia para o entendimento, e com a espécie canina obtivemos nossos maiores êxitos.  De todas as espécies, conseguimos os melhores resultados comunicativos com os cães, que não se encontram em relação de parentesco tão próxima conosco.  Indivíduos humanos e cães podem entrar em uma conexão espiritual que rompe em alto grau a crosta entre as espécies.  Mas isso é o mais extremo que a humanidade conseguiu em termos de sair de seu isolamento condicionado pela espécie.  Se existem entre as espécies restantes outras pontes capazes de realizar semelhante ligação, nós não o sabemos, dado que nada delas entendemos.

Nós reagimos ao fracasso da comunicação com o fluxo da vida através de presunção (Überhebung).  Nós empurramos a culpa para as outras espécies e nos autopromovemos.  Nós afirmamos que as outras espécies não podem nos compreender, pois encontram-se muito profundamente abaixo de nós.  Disfarçamos nossa frustração por meio do desprezo de todas as outras espécies.  Sim, nós chegamos ao ponto de proclamar um abismo, não apenas gradativo, mas principial, entre nós e todos os restantes seres vivos.  O homem, assim declaramos, é em princípio diferente e mais nobre que todas as outras criaturas.  Em nosso fundamental desconhecimento das outras espécies, esta afirmação é irrefutável.  Nós não conhecemos quase nada daquilo que chamamos de “vida da alma” nas outras espécies, e podemos assim afirmar, sem penalidade, que a nossa é a mais elevada ou que os outros seres não possuem nenhuma.  Mas uma observação das organizações anatômicas, biológicas ou sociais das outras espécies demonstra, penso eu, que nossa arrogância é risível – já que estas, para dizê-lo delicadamente, em nada são inferiores a nossa.  Em outras palavras, nós consideramos excluída a possibilidade de uma autêntica comunicação ou conversação com as restantes formas de vida por elas serem inarticuladas, e não por admitir que não tivemos êxito em encontrar uma língua comum.  O mesmo também vale do outro lado: também as formigas ou os galináceos não tiveram êxito em inventar um dicionário formiga-homem.  Pode-se imaginar que conseqüências adviriam dessa invenção.  A experiência antiquíssima (uralte) de uma espécie distante, porém aparentada, estaria à nossa disposição.  Provavelmente uma penetração dessas em nosso mundo seria de tal significado que nenhum de nosso conceitos, vivências e valores permaneceria intocado.  Com isso, nós alargaríamos nosso mundo em dimensões inauditas.  Uma conversação com uma única espécie diferente (fremden Art) alteraria nossa própria espécie de modo fundamental.  E o que então significaria, então, se começássemos a conversar com diversas espécies?  Todavia devemos provavelmente descartar uma tal esperança, dada sua aparência completamente fantástica; ninguém parece entretê-la a sério.  Mas a esperança de uma conversação com seres hipotéticos de outro mundo é supostamente menos fantástica.  Não será isso uma prova da insanidade da humanidade contemporânea?  Presumamos que esses seres de fato existam; que algo que pudesse ser definido como “vida” no mais amplo sentido se desenrolasse sobre Vênus, Marte ou um satélite de Júpiter.   Algo assim seria para nós naturalmente desproporcionalmente estrangeiro, como um polvo gigante (Riesenpolyp) ou mesmo um pinheiro.  Entrar em conversação com algo assim seria muito mais difícil do que com uma ameba ou com o patógeno do Tifo.  O agente do Tifo nos é próximo orgânica, histórica e geograficamente, ao passo que o habitante de Vênus é celestialmente distante (himmelweit fern), no sentido literal da palavra.  Parece-me que é hora de explodir e desmascarar a inanidade dessa expectativa equivocada.  A espeança de que o habitante de Vênus entre em contato com o astronauta em gramática indo-européia, ou seja, com substantivos, verbos, cópulas e pronomes, pressupõe que ele tenha uma história em comum com a humanidade; que tenha arado o campo com os mesmos cavalos e plantado milho; que tenha sobrevivido à mesma Era do Gelo.  Mas esse ser hipotético não tem em comum com a humanidade a catástrofe que se deu entre o Siluriano e o Devoniano.

Não, a assim chamada Astrobiologia é um subterfúgio.  É a tentativa de camuflar a perdida fé num sentido da vida através de uma diluição e rarefação do conceito de “vida”.  É um escapismo.  A humanidade se propõe fugir de si mesma em direção às estrelas.  E este é, de todo modo, o sentido do assim chamado progresso.

Simondon and Media Archaeology: Notes for a Study on The Life of Objects

Simondon’s “Du Mode d’Existence des Objets Techniques”, like all great works of theory, is eminently criticizable.   In fact, people frequently make the mistake of treating such works as religious treatises, which in no way does justice to them.  These monuments of thought not only welcome criticism, but also demand it, as if they had some inbuilt mechanism that allows their perpetual revision and improvement.  To quote one of Benjamin’s most interesting ideas, every masterpiece (be it literary or philosophical) has its survival and renewal (Überleben) guaranteed by the work of the translator and the critic.  This is even truer in the case of a book like “Du Mode d’Existence…”, published in 1958 and thus long before the impact of digital technologies.  On the other hand, if some of Simondon’s secondary assertions deserve revision in light of the emergence of new technologies, his fundamental theses still apply to our current situation.  For me, the most significant contribution of this work is a perspective on the process of technological evolution that is, to a large extent, autonomous in regards to external factors.  The “laws” of technological innovation follow the demands of a rigorously internal necessity, as if apparatuses would ‘evolve by themselves’ – not unlike what happens with living beings[1].  In other words, Simondon’s theory of “concretization” (the process whereby technological objects become increasingly more “synergetic”) suggests that devices become more efficient and evolved as their components begin to act in mutual cooperation performing several tasks at the same time.  But this is not the history of a uniform and linear evolution.  It is rather a complex trajectory, characterized by ruptures and discontinuities.  I even suspect that – if we read him carefully – Simondon provides us with some insights that are not so different from those of media archaeology.  Let us consider, for instance, the following affirmation: “Several abandoned technical objects are unfinished inventions that remain an open virtuality (une virtualité ouverte) and can be retrieved, prolonged within another domain, according to their deep intentions, their technical essence” (p. 40).  One cannot but wonder if Siegfried Zielinski had Simondon in mind when he wrote his Tiefenzeit der Medien (something that I forgot to ask him in our last conversation).  In fact, Zielinski’s proposition consists fundamentally in a “variantology of the media” capable of recovering the potentialities of failed or forgotten old technologies.  Zielinski not only criticizes the (already worn-out) rhetoric of the novelty that is so characteristic of the discourses on digital technologies, but also pledges for “dramaturgies of difference” (Dramaturgien der Differenz) that would enable us to fight the growing tendencies to uniformization and padronization of the media system.  By the way, both thinkers are granted a prominent position in Jussi Parikka’s brilliant last book (Insect Media: an Archaeology of Animals and Technology, University of Minnesota Press, 2010).  In that sense, Yves Deforge’s posface to “Du Mode d’Existence…” is of the utmost importance for media archaeologists.  In an attempt to revise and update Simondon’s work, Deforge repeatedly discusses the necessity of a historical approach to technology that takes our technological past very seriously.  This approach is “familiar to those who study phenomena that develop over long periods of time (…) something that we call ‘the systemic study of the thin temporal layers’” (italics mine, p. 306).  Curiously employing a term that has recently been receiving a great deal of attention – “object ontology” (l’idée d’une ontologie de l’objet)[2] – Deforge discusses how this perspective might help us recuperate past ideas and projects in order to engender new solutions “in the light of a hypothetical future system” (p. 309).  There is a lot more that could be said about “Du Mode d’Existence…” in regard of the emergence of new digital technologies and some contemporary approaches to media theory, but that is the project for a paper that shall hopefully materialize in the next few weeks.


[1] This is, of course, an oversimplification, but I believe it to be faithful to the essence of Simondon’s arguments.

[2] The expression “object ontology” is used in connection to thinkers such as Simondon, Moles and Denielou, whose works announce what we could nowadays define as a form of  “object-oriented” philosophical approach.