Simondon e a Individuação (I)

No curso sobre a Arqueologia da Cibercultura, em andamento no PPGC da UERJ neste semestre, Gilbert Simondon é um pensador-chave não apenas devido às idéias que expressa no clássico “Du Mode d’Existence des Objets Techniques” (largamento citado pelo colega André Lemos em seu livro “Cibercultura”).  Seu pensamento sobre a técnica – bem como o impacto que teve no cenário cultural posterior, em termos de filosofia e compreensão da sociedade tecnológica – só pode ser inteiramente apreendido à luz de um contexto mais amplo, do qual o citado livro constituía apenas uma parte.  De fato, “Du Mode d’Existence des Objets Techniques” foi escrito como complemento da gigantesca Tese de Doutorado que portava o título “L’Individuation à la Lumiere des Notions de Forme et d’Information”.  Essa tese foi publicada em dois volumes separados: “L’individu et sa Genese Physico-Biologique” (1964) e, somente muitos anos depois, “L’Individuation Psychique et Collective” (1989).  As inovadoras teses de Simondon sobre o processo de individuação são fundamentais para se apreender em profundidade suas proposições a respeito do modo de existência dos objetos técnicos.  Mas o que é “processo de individuação”?  Grosso modo, trata-se de uma antiga questão filosófica, que diz respeito ao modo como qualquer coisa (e aqui se deve compreender mesmo “qualquer coisa”, de um organismo animal a uma máquina ou ser humano) vem à luz.  Ou seja, como um ente se constitui como indivíduo a partir de um fundo pré-individual.  Pensemos na constituição de um ser humano: um óvulo é fecundado, acontece a gestação, nasce o bebê, e ao longo de toda vida esse sujeito atravessa um processo de individuação (ou seja, tornar-se uma entidade separada, ainda que em constante intercâmbio, com o mundo que o cerca).  Uma estátua trabalhada por um artesão também experimenta um processo de individuação, gestado nos golpes do cinzel que molda a matéria da qual a obra irá destacar-se (mármore, madeira etc.).  Antes de compreender em profundidade como se dá tal processo, Simondon precisa desfazer uma série de equívocos teóricos e filosóficos que levaram a sérias distorções sobre a real natureza da individuação.

Tradicionalmente, existem duas maneiras de se abordar a realidade do ser como indivíduo: substancialista e hilemórfica (o encontro de uma forma e de uma matéria).  O problema de todas as duas é que ambas supõem um princípio de individuação anterior a ele mesmo, suscetível de explicá-lo, produzi-lo ou conduzi-lo.  A doutrina hilemórfica (de “hilós”, matéria e “morfos”, forma), de longa sobrevida desde sua origem na filosofia grega, sugere a gênese do indivíduo através do encontro de uma forma pré-dada com uma substância também já existente.  Mas se essa forma já existia desde sempre (por exemplo, em um hipotético céu platônico das idéias), ela seria algo de anterior ao próprio processo de individuação e, portanto, já um “indivíduo”.

Desse modo, outra maneira de exprimir o equívoco das visões tradicionais, como o hilemorfismo, é entender que tomam o indivíduo constituído como a realidade realmente interessante e a explicar. Ora, “une telle perspective de recherche accorde un privilege ontologique à l’individu constitué” (p.21).  Esses raciocínios provocam um problema lógico, pois pressupõem um termo primeiro que daria origem ao indivíduo, e esse termo já é um indivíduo ou pelo menos algo de individualizável.

Trata-se ainda de um equívoco temporal, que não considera a dimensão do devir e seu papel (especialmente no caso do ser vivo) no processo de individuação.  Os indivíduos vivos nunca estão inteiramente “acabados”, “individualizados”, mas sempre em processo.  O que é preciso, segundo Simondon, é “connaitre l’individu à travers l’individuation plutôt que l’individuation à partir de l’individu” (22).  E nesse permanente processo de individuação, a relação entre o ser vivo e o meio ambiente é fundamental.  “Relação” é uma palavra-chave do vocabulário de Simondon.

Não há oposição entre ser e devir.  O devir é uma dimensão do ser, correspondendo a uma capacidade do ser de se defasar (déphaser) em relação a ele mesmo.  O ser pré-individual é mais que uma unidade, não se aplicando a ele as noções lógicas tradicionais de identidade e do terceiro excluído.

O problema é que desde os gregos, conhecia-se apenas um tipo de equilíbrio, o estável, ao passo que agora, especialmente após a física quântica, podemos falar de equilíbrio META-ESTÁVEL (métastable), um tipo de equilíbrio que não exclui o devir.  Nesse sentido, a individuação física é a resolução de um sistema metaestável a partir de um estado do sistema como o da “surfusion” ou “sursaturation” (24).

Nesse panorama, o vivo tem um traço singular: ele conserva em si uma atividade de individuação permanente, diferentemente do cristal ou da molécula. Ele é “teatro”de individuação.  A diferença entre o vivo e a máquina é que ele resolve problemas não somente se adaptando ao meio (como faz uma máquina), ou seja, modificando sua relação com o meio, mas sim se modificando a si mesmo, ao inventar estruturas internas novas.

Depois da individuação física, vem a psíquica, já que o indivíduo se constitui em sujeito, para resolver suas problemáticas, intervindo ele mesmo como elemento e dimensão do mundo.  O sujeito pode ser concebido como unidade do ser enquanto vivente individuado e enquanto ser que se representa sua ação através do mundo como elemento e dimensão do mundo.

Em seguida, vem a individuação coletiva, o grupo.  O coletivo intervém como reslução da problemática individual, o que significa que a base da realidade coletiva está já parcialmente contida no indivíduo, sob a forma da realidade pré-individual que permanece associada à relidade individuada (27).

Em resumo, na concepção de Simondon, o devir é uma dimensão do ser, não algo que viria se acrescentar a ele.  Assim, as noções de susbtância, forma e matéria são substituídas pelas de informação primeira, ressonância interna, potencial energético e ordens de grandeza.

Claro, essas rápidas notas não chegam nem a riscar a superfície das riquezas que o primeiro volume da monumental obra contém.  O capítulo em que Simondon analisa os pressupostos ocultos responsáveis pelo êxito da teoria hilemórfica durante séculos a fio (em sua análise da cultura escravagista da Antigüidade) é absolutamente brilhante.  Numa espécie de genealogia à la Nietzsche, ele atribui o paradigma a uma visão técnica (mas que no fundo é social) baseada numa ordem hierárquica de quem comanda (o mestre) e quem executa (o escravo) o trabalho.  Daí, também, a valorização da alma em detrimento do corpo.  Steven Shaviro oferece uma excelente síntese das duas obras aqui e aqui.

Simondon não constitui parte do meu atual projeto de pesquisa (desenhar uma cartografia epistemológica da cibercultura a partir, neste momento preciso, das teorias alemães da mídia).  Contudo, é um pensador que deve ser estudado em toda tentativa de revisão histórica e arqueológica da tecnocultura contemporânea.  Ao lado de Heidegger, ele forma uma espécie de diagrama histórico para o entendimento da cibercultura.  Em breve, mais sobre Simondon.

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Sobre a Comunicação e o Jornalismo

O recente e acalorado debate sobre as Diretrizes do MEC para os cursos de jornalismo é apenas reflexo de um fenômeno muito mais amplo e de longa sobrevida.  Refiro-me ao conflito histórico, por vezes velado, por vezes inteiramente explícito, entre duas concepções ideológicas diversas a respeito da Comunicação em suas dimensões de ensino e pesquisa.  Como costuma ocorrer, as posições extremas desse conflito revelam-se freqüentemente improdutivas e falseadoras da verdade dos fatos.   Particularmente digna de análise é a posição radical que muitos (digo “muitos”, não todos) jornalistas ou pesquisadores do jornalismo costumam adotar na defesa de sua prática profissional ou objeto de pesquisa.  Sou graduado em jornalismo e, naturalmente, não tenho nada contra o jornalismo, seja como atividade profissional, seja como tema de investigações científicas.  Ao contrario, inclusive, de algumas pessoas com quem já conversei sobre a questão, considero de extrema importância e relevância científica boa parte das pesquisas que aqui têm sido realizadas na área do jornalismo.  Também sempre defendi uma posição de pluralismo e abertura no desenho das fronteiras da Comunicação como disciplina e área de conhecimento.  Contudo, não cessa de me surpreender a veemência com que certos indivíduos procuram  caracterizar o campo do jornalismo como o horizonte de pesquisa mais autêntico e legítimo (senão único) da comunicação.  Essa veemência e a forma como ela se expressa parecem indicar uma espécie de síndrome da perseguição.  Como se houvesse um complô secreto e difuso contra o jornalismo, torna-se necessário então reagir com máxima força, de modo a criar uma fortaleza inexpugnável capaz de protegê-lo, inclusive, das intempéries do tempo e das transformações sociais.  Acho impressionante a facilidade com que a “objetividade” jornalística e o “distanciamento” científico caem por terra diante do poder de certos mitos característicos do mundo do jornalismo.   A pureza com que se tem buscado desenhar o horizonte do jornalismo, como prática e objeto de pesquisa, padece de uma ingenuidade que chega a beirar o delírio.  Como intelectual universitário, já não tenho nenhuma grande ilusão quanto à minha atividade e ao meu campo de pesquisa.   Sei muito bem que não vamos salvar o mundo, e tenho, inclusive, sérias dúvidas sobre a sobrevivência futura do nosso atual modelo de universidade e produção de conhecimento.  Contudo, considero essa percepção algo saudável: uma espécie de lucidez necessária não apenas ao trabalho científico, mas à sobrevivência em um mundo de tão rápidas e intensas transformações quanto o nosso.  Ainda creio que podemos fazer uma diferença – efetivamente, em um nível microscópico – mas não alimento nenhuma ilusão “missionária” do tipo que por muitos anos grassou (e que me parece ainda muito viva) no âmbito do jornalismo.  Em muitos campos do conhecimento, a desaparição de práticas, objetos de pesquisa, teorias ou métodos tem sido encarada com uma atitude que nada tem de reativo – e uso este termo com toda negatividade que lhe devota o vocabulário nietzscheano.  O exemplo da Literatura Comparada, nesse sentido, é dos mais esclarecedores.  Face ao diagnóstico da decadência da critica literária (ou mesmo da noção clássica de “literatura”), muitos intelectuais acadêmicos saíram em campo para buscar novos objetos, questões ou modos de abordagem.  Em vez de se lamentar pela desaparição de seu objeto, inventaram outros horizontes, objetos e perspectivas – alguns, inclusive, se aproximando daquilo que nós, de modo algo artificial, denominamos por aqui de “comunicação”.  Lembro-me bem de meu professor de hebraico, que costumava dizer: “eu não acredito em D’s, eu sei que Ele existe”.  Era sua maneira de manifestar a intensidade inquestionável de sua fé.  Assim fazendo, naturalmente, confundia crença com saber, fé com ciência.  Mas não sejamos apressados em condená-lo. A bem da verdade, nunca existiram fronteiras precisas entre esses domínios.  Assim como não existe algo como um “puro” jornalismo, não existe algo como a “pura” ciência, totalmente incontaminada pelo imaginário ou pela crença.  Como diria Bruno Latour, “jamais fomos modernos”.  O que é perigoso na frase é seu teor dogmático.  Enquanto a atitude científica prima pela abertura à permanente revisão de seus conceitos e teses, a atitude dogmática almeja paralisar o tempo e essencializar realidades históricas.  São precisamente inflexões desse tipo de atitude que se pode identificar tanto no documento das diretrizes do MEC quanto no discurso de alguns dos defensores mais ferrenhos do jornalismo como campo de conhecimento e atividade humana.  Vejamos, por exemplo, uma passagem do documento que já foi destacada (e criticada) na lista da Compós:

“Com a finalidade de tornar compatíveis o requisito da titulação do corpo docente e a necessidade de aderência às disciplinas ministradas, a Comissão de Especialistas recomenda a criação de um Programa Nacional de Aperfeiçoamento Docente destinado às novas gerações de professores de Jornalismo. Muitos foram titulados pelos cursos de pós-graduação da área teórica de Comunicação ou de disciplinas conexas, sem ter exercido plenamente a profissão e não raro sem o domínio cognitivo da sua especificidade. Concomitantemente, deve ser fomentada, nas Escolas de Comunicação, a abertura de cursos de mestrado e doutorado com áreas de concentração em Jornalismo, para atender à demanda crescente de novos professores para os cursos de graduação e de projetos de pesquisa científica na área”

Em essência, o que se propõe aqui é a abertura de uma “reserva de mercado” acadêmico para o jornalismo.  Como se já não bastasse o fato de vários programas de pós-graduação possuírem linhas de pesquisa e pesquisadores dedicados a temas de jornalismo, agora é necessário fomentar mestrados e doutorados especificamente dedicados a tal área de concentração.  Mas então por que não fomentar a criação de cursos com área de concentração em Cibercultura, de modo a melhor preparar os futuros pesquisadores desse campo?  (claro que o exemplo é, na verdade, um contra-exemplo).  No fundo dessa proposição, esconde-se também uma contradição lógica.  Por “domínio cognitivo”, o que se quer destacar efetivamente é a necessidade da prática.  Ou seja, o retorno do velho argumento de que jornalismo se aprende fazendo.  Contudo, sugere-se que a melhor maneira de realizar isso é dotando os professores de uma formação teórica em jornalismo nos cursos de mestrado e doutorado!  Na verdade, a questão da pesquisa e da teoria aqui é secundária.  O que importa é que os ingressantes nos mestrados e doutorados em jornalismo tenham exercido a profissão de jornalistas.  Toda a lógica desses discursos aponta para uma mentalidade tipicamente corporativista, ou, melhor ainda, característica das Guildas medievais.  Alem disso, tal lógica é perpassada por uma concepção de jornalismo que – sinto muito! – já não pode sustentar-se no cenário contemporâneo.  As próprias noções tipicamente modernas que fundamentavam a concepção clássica do jornalismo deixaram de fazer sentido.  Por mais que aqui nas terras tropicais tenhamos esse ardoroso desejo de recortar campos, de fechar domínios, de constituir reservas e de dar nomes precisos às coisas, não há como retornar aos tempos da pureza – se é que algum dia eles realmente existiram.  Num sentido irônico e paródico (naturalmente), eu posso parafrasear as palavras de meu professor e dizer: “eu não creio que o jornalismo em sua configuração moderna acabou, eu sei que ele acabou!”.  O fim da exigência do diploma de jornalismo, ainda que motivado por interesses mesquinhos de ordem política ou econômica, constitui apenas um dos muitos indícios das transformações que estão em curso.  Sempre existirão, é claro, os saudosistas dos bons tempos de antanho, cujo exemplo emblemático encontro na obra recente de Andrew Keen, “The Cult of the Amateur”.  Eu os lerei com atenção e refletirei sobre seus queixumes, possivelmente compartilhando da saudade pela perda de determinadas referências amadas e familiares.  Mas com um sentido de realidade forte o bastante para perceber que idéias como a da cultura participativa e da reconfiguração dos suportes midiáticos configuram marcas fundamentais do nosso presente.  É possível – e provável – que daqui a 20 anos estejamos falando de outras idéias e coisas.  “O tempo é uma criança que joga o jogo de pedras…”, disse Heráclito com excelente poesia.  Quem não se senta para jogar com ele corre o risco de sofrer de uma forma patológica de saudosismo.  Por enquanto, a impressão que tenho é que a comunicação e o jornalismo continuarão a ter suas fronteiras esgarçadas e suas práticas e teorias transformadas em uma velocidade vertiginosa.  Se nas faculdades de comunicação, uma outra expressão do pensamento reducionista configurou-se na surrada oposição entre teoria e prática, hoje, mais que nunca, a boa teoria (que é sempre também uma prática, como lembrava Deleuze) se faz necessária ao cidadão da tecnocultura contemporânea.   Acaba de me vir à memória uma palestra a que assisti, faz muitos anos, na UERJ: um conhecido representante dos estudos de jornalismo desfiava, numa retórica viciada, argumentos primários e equivocados para questionar o papel das disciplinas teóricas no curso de comunicação.  Em seu discurso, a prática (jornalística) se manifestava como a heroína que viria salvar o mundo da inanidade teórica.  Ao final da palestra, perguntei: “mas toda a sua estrutura argumentativa não foi elaborada com base em referenciais teóricos? Se o despirmos de toda essa armadura conceitual, só resta o silêncio.  Talvez essa seja a resposta mais adequada da prática à teoria”.  A tensão entre teoria e prática também constituiu, em muitos sentidos, uma força fundante dessa outra tensão entre a comunicação e o jornalismo.  Trata-se, evidentemente, de uma falsa oposição, pois nem a prática nem a teoria existem em forma pura.  No fim das contas, a questão não é confrontar práticas e teorias, mas saber dizer a diferença entre as boas e más práticas e teorias.

Kittler, pós-humanismo e as Humanidades

Achei o trecho abaixo num ótimo review do livro do Kittler “Gramophone, Film, Typewriter”.  Identifiquei-me com o percurso do cara, só não tenho certeza absoluta de ter me tornado pós-humano (apesar do personagem que criei para este blog).

“I write about Kittler from the standpoint of a scholar of British and American literature who dropped from the tree of Columbia’s core humanities curriculum to the seed-bed of canonical romanticism and modernism and the theory culture of the 1970s and 1980s, then passed through the forcing house of literature and science in the 1990s, to arrive at the threshold of contemporary media studies. In the process I seem to have become posthuman, but Kittler’s work reassures me that I had no choice in the matter: “media determine our situation” (xxxix). Kittler parlays high poststructuralism into a historical media theory that humbles the subject of humanistic hermeneutics by interpellation into the discrete material channels of communication. Media studies bids to become a hegemonic site within the new academic order of a wired culture. For Kittler, media determine our posthumanity and have been doing so in technological earnest at least since the phonograph broke the storage monopoly of writing”.

Para quem quiser ler o resto do texto, basta clicar aqui.

“Pensadores Esquecidos que Adoraríamos ter lido” (II)

Aproveitando a onda, outro sujeito que vou usar no curso de Tópicos é o (nem tanto) obscuro Ernst Kapp – que conheci primeiramente graças à Maria Cristina (Franco Ferraz) e, depois, via Hermínio Martins, que, creio, foi também a fonte dela.  Há uns três anos dei no mestrado um curso com uma seção sobre filosofia da técnica.  Kapp e Simondon apareciam ali.  Sobre o Kapp, algumas anotações que usei na época:

Ernst Kapp, hegeliano da ala esquerda, como Marx, transpôs os conceitos de Hegel para um contexto mais concreto, a princípio, o campo da geografia.  Em lugar de se ocupar das relações econômicas, como fez Marx, ele busca as relações das configurações geográficas com o social.  Uma teria da matéria e uma filosofia ambiental.  A história não é o desenvolvimento do Espírito Absoluto, mas o registro das tentativas humanas de superar as dificuldades e obstáculos do ambiente natural – uma colonização do tempo e do espaço.  A colonização interna na forma da política. Graças a um desentendimento político com o governo, Kapp foi para o exílio nos EUA, Texas (o bravo Oeste americano); levou uma vida em contato com a natureza, livre de qualquer relação com máquinas ou tecnologias.  Depois da Guerra Civil decidiu visitar a Alemanha, mas devido a uma doença foi aconselhado a ficar lá, onde começou a elaborar uma teoria da tecnologia baseada na idéia de Organprojektion. – nos Grundlinien einer Philosophie der Technik (1877).  Na ferramenta, o homem continuamente se produz a si mesmo; o dedo dobrado se torna um gancho, o vazio da mão uma tigela, etc… Isso nem sempre é um processo consciente.  Mesmo a linguagem e o estado são tidos como externalizações da mente humana.

“Enquanto hegeliano, vê a história humana como a objetivação da essência humana.  Como hegeliano de esquerda, considera que essa objetivação deriva, não do espírito mas do ser humano corporizado” (Martins: 168).  O inconsciente produz projeções técnicas variadas e essas tecnologias são uma forma através da qual os seres humanos podem alcançar conhecimento de si próprios (como num espelho); isso explicaria porque as metáforas tecnológicas têm sido tão cruciais para a nossa auto-interpretação.  Assim, a evolução técnica é a evolução da autoconsciência do homem em suas diversas etapas. O “somatismo tecnológico” de Kapp x o “gnosticismo tecnológico”… Sim, essas notas derivam principalmente do resumo que o Martins faz em seu excelente “Hegel, Texas e outros Ensaios de Teoria Social”.  Agora, para os leitores de alemão, uma notícia mais bombástica.  Já temos acesso a esse livro raríssimo, Grundlinien einer Philosophie der Technik, num facsímile do original de 1877.  Pode-se carregar essa cópia em PDF na biblioteca virtual do Instituto Max Planck aqui.  Em muitos aspectos, o Kapp foi precursor do McLuhan.

“Pensadores Esquecidos que Adoraríamos ter Lido”

Inauguro com este post uma nova série, a dos pensadores esquecidos que adoraríamos ter lido.  Lembro com riqueza de detalhes: pelos idos de 1997, passeando pela infinita e mágica biblioteca da UCLA, encontro o raríssimo Gottlose Mystik, de Fritz Mauthner.  Abro o livro e me deparo com essa belíssima frase, que usarei como epígrafe do primeiro capítulo de “Sliêncio de Deus, Silêncio dos Homens”: “Früher, ja früher, da die Welt noch jung war, gab es eine einzeige Sehnsucht, und die war stark, stärker als  die Liebe, doppelt stärker als de Tod” (“Cedo, bem cedo, quando o mundo ainda era jovem, havia um único anseio, e ele era forte.  Mais poderoso que o amor, duplamente mais poderoso que a morte”).  Nestes últimos meses tenho reencontado Mauthner, e por alguma espécie de misteriosa conjunção astronômica venho colhendo esporádicas referências a ele nas mais variadas leituras.  Agora, como realmente sofro de síndrome de déficit de atenção, resolvi comprar e ler esse livrinho que descobri passeando pela Powells: “Metaphors of Knowledge: Language and Thought in Mauthner’s Critique”, da Elizabeth Bredeck.  Em “Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens”, usei algumas referências do trabalho de Silvia Dapía Die Rezeption der Sprachkritik Fritz Mauthners im Werk von Jorge Luis Borges para sugerir que a leitura prematura do austríaco refletiu-se através de toda a obra de Borges, por exemplo, na elaboração das línguas imaginárias de Tlön.  Sem relação direta com a bibiografia que estou lendo para o novo módulo da pesquisa CNPq (Cibercultura e teoria da mídia alemã), a reflexão de Mautner me interessa por sua convergência com certas tendências contemporâneas.  Seu conceito de um continuum inseparável entre mente e corpo ou sensação e conhecimento (em lugar de qualquer espécie de dualismo), por exemplo.  Outra razão para ler sobre esse cara, em meio a tantos outros compromissos e leituras prioritárias, encontra-se no curso de graduação de Tópicos II sobre Comunicação e Filosofia.  Não sei se vou fundir a cabeça dos alunos com essas referências (Mauthner, Flusser, Mark Hansen…) ou destruir minha fama como professor com discurso inteligível, mas acho que vale a pena arriscar.  Mesmo na graduação temos que ter algum espaço para ousar um pouco, para mexer com as cabeças.  Se isso não acontecer, a universidade se converte em mero escolão técnico…

A Doença da Hiperespecialização

O sistema acadêmico brasileiro incentiva a especialialização.  Assim fazendo, segue um preceito que não é exclusivamente nosso, mas corresponde a uma forma de produzir saber tipicamente contemporânea.  A formação humanística já não é favorecida nos ambientes universitários avançados.  Ora, em essência esse princípio não está equivocado.  Num mundo em que o conhecimento se multiplica de forma exponencial, não há lugar para encarnações de um saber universal, como foi o caso de um Aristóteles ou um Athanasius Kircher.  O problema que enfrentamos aqui não é a aplicação desse preceito global, mas sim o modo como o desenvolvemos.  Ocorre que especialização e verniz humanístico não são incompatíveis.  Nos Estados Unidos ou na Europa, as referências intelectuais de maior peso são aquelas que, especializando-se em determinado campo do conhecimento, conseguem passear também com alguma desenvoltura por diversos outros.  Especialmente no domínio das ciências humanas, a hiperespecialização corre o risco de converter-se numa patologia, como tem sucedido por aqui com freqüência.  Muitas vezes, inclusive, ela se torna uma pura e simples desculpa para a ignorância.  Certamente, do ponto de vista dos nossos órgãos de fomento, alguém que escreve sobre literatura, cinema, filosofia ou tecnologias de comunicação pode aparecer como um individuo patologicamente sem foco.  A forma de lidar com isso é desenhar, de modo mais ou menos claro, um campo de especialidade, inscrevendo pesquisas (no CNPq ou na Capes) em tal campo e produzindo sistematicamente artigos científicos sobre o tema.  Se além disso, você ainda tem uma série de outras obsessões paralelas, o problema é seu!  Importante é que você já pagou seu débito para com a especialização, e todo mundo fica feliz… Mas adotar um modelo como esse sem nenhum espaço para fissuras, sem qualquer possibilidade de vôos ou extraoplações mais amplas do pensamento significa abdicar de tradições teóricas capazes de gerar interpretações de conjunto de nossa realidade cultural.  É ótimo que tenhamos trabalhos com pesquisa aplicada, dados microscópicos sobre, digamos, a blogosfera, a troca de arquivos em redes P2P ou as formas de sociabilidade em rede.  Mas paralelamente a isso, é necessário haver trabalhos de compilação, visões de conjunto, interpretações sobre a “cibercultura” como um fenômeno global (econômico, cultural e tecnológico) da sociedade contemporânea.  Sem essa visão mais ampla, que sentido teriam centenas de boas pesquisas sobre o Orkut ou o Second Life  (que, como muitos outros fenômenos do universo digital, corre inclusive o risco de desaparecer de uma hora para a outra)?.  Bom, com toda essa argumentação não pretendo exatamente justificar minha pesquisa atual – que consiste em um mapeamento epistemológico da “cibercultura” -, mas antes defender um certo modelo de pensar.  Um modelo em que a especialização e a liberdade humanística não tenham necessariamente que entrar em conflito.  Além de uma série de razões meramente científicas ou racionais para justificar essa convivência pacífica, eu poderia citar uma de outra ordem, não menos importante: a paixão pelo conhecimento.  Enganam-se os que acham que a paixão e o imaginário são elementos menores (ou mesmo a ser evitados) na construção da ciência – não só das “ciências” humanas, isso que os alemães sabiamente chamam de “Geisteswissenschaften”, mas de todas as ciências.  Seria cansativo enumerar autores (Bachelard, Feyerabend etc.) ou teses que defendem essa necessidade da paixão na produção do saber.  Quero apenas fazer uma pergunta: sua opção pela carreira acadêmica aconteceu eminentemente em função de sua curiosidade e fascínio com o mundo? Ela nasceu de uma necessidade incontornável de buscar uma resposta para as questões que atormentam a existência humana?  Se a resposta for negativa, então, como professor e pesquisador, não quero ter nada a ver contigo.  Minha praia é outra, e talvez possa ser definida como uma “paixão crítica”, segundo o uso que Octavia Paz faz desse termo em seu magnífico “Los Hijos del Limo”.  Do mesmo modo como não há contradição entre especialização e visão humanística, não deve haver entre paixão e rigor científico.  Dito tudo isso, gostaria de anunciar que em breve estarei postando aqui no blog alguns resultados e desdobramentos referentes ao meu campo mais específico de pesquisa.  Mas nem por isso vou deixar de usar este espaço para sumarizar leituras, mencionar oa autores mais diversos (e de diferentes campos) e apontar conceitos ou idéias paralelos.  Afinal, quem sabe alguém pode ter uma intuição interessante para seu próprio trabalho a partir de alguma referência encontrada aqui?  Portanto, o próximo post será sobre o esquecido Fritz Mauthner, filósofo da linguagem e uma das grandes paixões obscuras de meu escritor predileto, Jorge Luis Borges.  Acabou de chegar “Metaphors of Knowledge: Language and Thought in Mauthner’s Critique”, de Elizabeth Bredeck.  Em breve, o resumo de leitura dessa obra, junto com as conclusões sobre Graham Harman e sua crítica da fenomenologia.