A Arte da Conversação

Lendo a crônica do meu amigo Juremir Machado esta semana no Correio do Povo, dei-me conta do quanto sinto falta do tipo de conversa que ele relata ali.  Como diz Juremir, “nada melhor do que falar sobre Heidegger num café da manhã de hotel”.  Ainda mais com Ernildo Stein, grande especialista na obra do filósofo.  Mas a verdade é que o cotidiano da academia nos oferece muito menos oportunidades para esse tipo de conversas do que poderíamos imaginar à primeira vista.  Esta semana participei do congresso da Abrestética, cujo tema foi “Vilém Flusser: 20 anos Depois”.  Pela primeira vez em muitos anos, em meio aos filósofos e teóricos da literatura, “senti-me em casa”.  Claro, Ouro Preto é uma cidade que convida a esse tipo de conversação sem utilidade, poética, cheia de devaneio e de admiração pelas ideias e autores que a gente aprecia.  Num dos dias do evento, sentei-me à mesa de um restaurante com alguns professores da UFOP.  Foi um almoço delicioso, não tanto pela comida mineira, quanto pelo papo, que foi da fenomenologia à grandeza de Grande Sertão: Veredas e à poesia de Carlos Drummond de Andrade – e  isso temperado com aquela mineirice que enriquece toda conversação regada por uma boa cachacinha. Os colegas da UFOP não somente eram pessoas agradáveis e simpáticas, mas também muito lidas e apaixonadas.  Não eram apenas conhecedores de seus “campos” filosóficos específicos, mas leitores curiosos de boa literatura e espectadores entusiasmados de bom cinema.  É verdade que existem muitas razões para ingressar na academia.  E certamente, a maior delas não é o gosto pela poesia ou pelo exercício do pensamento.  Mas os que o fazem motivados pela paixão das ideias tendem a viver uma existência solitária.  Sim, eu sei que é apenas um queixume de alguém que, na ingenuidade da juventude, formou uma imagem excessivamente romântica da vida acadêmica.  Não teria sentido algum questionar meus colegas que não fizeram a mesma opção ou que têm, por exemplo, uma atitude mais pragmática e objetiva em relação às suas carreiras.  A vida é múltipla, e todas as suas possibilidades são bem vindas.  Mas tenho que ser fiel às minhas crenças; tenho que dar algum sentido àquilo que faço (e o único sentido palpável da vida é aquele que nós mesmos lhe atribuímos).  E eu só consigo enxergar sentido nessa profissão (tão desvalorizada e mal remunerada) quando ela se liga ao espanto filosófico com o mundo e a curiosidade insaciável pelas grandes ideias da historia humana.  Claro, o evento também foi excelente, tanto do ponto de vista da organização como da qualidade das conferências.  Conheci Rainer Guldin, grande flusseriano suíço, e mais um batalhão de outros pesquisadores alemães interessados no filósofo tcheco-brasileiro (quase todos falando ou pelo menos entendendo português, o que me deixava extremamente embaraçado de fustigar seus ouvidos com meu sofrível alemão).  Achava que o polêmico tema da minha fala – o pós-humanismo em Flusser – seria recebido com reservas e até virulentas críticas entre os filósofos e literatos.  Por incrível que pareça, trata-se de tema que mesmo no meu campo de trabalho, a comunicação, ainda gera polemica e sorrisos irônicos.  Em vez disso, recebi elogios efusivos e apertos de mão. Terminado o evento, sentamo-nos em um café, eu e Rainer Guldin, Joachim Michael e Dirk-Michael Hennrich, e conversamos sobre literatura e os magníficos gadgets da Apple.  Foi uma conversa divertida.  E os falantes nativos ainda tiraram sarro de mim quando tentei explicar como agora é possível interagir com o novo software do iPhone 4s (o “Siri”) por meio de voz, mas pronunciei “Handy” (celular) quase como “Hände” (mãos). “Talk to the hand”, brincou o Guldin, lembrando uma expressão norte-americana.  Do outro lado da mesa, o Gustavo Bernardo, colega dos tempos de doutorado e flusseriano de carteirinha.  Fiquei com vontade de reencontrar essas pessoas.  Por que na academia é assim: a gente faz amigos sazonais.  Conhecemos pessoas fantásticas, desenvolvemos relações fortes, mas encontramos com elas apenas uma ou duas vezes por ano, durante os congressos.  E isso funciona como mais um mecanismo para despertar nosso interesse nesses eventos.  Às vezes o que acontece fora dos debates nas sessões de apresentações (em mesas de bar, por exemplo) é ainda mais enriquecedor e interessante.  Eu sei que tem muita gente que acha esse tipo de conversas chato ou pretensioso.  E realmente existem indivíduos – eles abundam na academia – que gostam de cuspir referências e citações para se exibir.  Mas há também, sem dúvida alguma, os que falam de tais assuntos porque realmente gostam, porque são apaixonados, seja pela literatura, seja pela filosofia ou o cinema.  E, sinceramente, não é melhor gostar e falar de tais coisas do que se limitar, sempre e sempre, ao small talk?  Então dane-se quem acha esse tipo de conversa pretensiosa ou aborrecida.  Por que de small talk não existe carência no mundo.  Não é à toa que Flusser falava sobre a decadência da conversação em conversa fiada…

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RIP Friedrich Kittler 1943-2011

Acabei de saber, através do amigo Jussi Parikka, que o maior teórico da mídia alemão da atualidade, Friedrich Kittler, faleceu em Berlim.  Acompanhei o último curso que Kittler deu na Humboldt Universität no ano passado (já muito doente): Elektronische Medien.  Jussi escreveu em seu blog um belo texto em homenagem a esse grande pensador.  A área de Comunicação ficou mais pobre…

UFC

Quando estive na Universidade Federal do Ceará, no início do semestre, para uma banca de concurso (com as queridas Diana Domingues e Priscila Arantes), fiquei impressionado com a qualidade do corpo docente do Programa de Comunicação.  Gente jovem, versátil, séria e com uma invejável bagagem de leituras.  Coisa muito rara de se encontrar por aí nos dias de hoje.  E são pesquisadores jovens que leram de tudo, inclusive literatura.  Isso me leva a apostar, sem hesitação, num futuro brilhante para o PPG.

O Caso Paulo Coelho

Não tenho nada contra Paulo Coelho.  Ele parece ser uma pessoa até bastante simpática.  Certamente é um sujeito inteligente, e sua parceria com Raul Seixas representa um episódio significativo na história da música brasileira. Mais que isso, deve haver algum mérito no que faz, considerando o extraordinário êxito que obteve no cenário internacional.  Algo bastante difícil para um cidadão de país econômica e culturalmente marginal, mesmo no contexto do já saturado mercado da literatura de auto-ajuda.  Todavia, é nítido para qualquer pessoa acima do nível da completa imbecilidade que os escritos de Paulo Coelho não podem ser categorizados como “literatura” (ao menos não no sentido tradicional e ainda consagrado do termo).  Colocar Paulo Coelho ao lado de verdadeiro autores da grande literatura, como Guimarães Rosa, Machado de Assis ou Jorge Luis Borges, seria covardia.  A diferença é tão estratosférica que sequer permite o mecanismo da comparação.  E não me entendam mal: em princípio, também não tenho nada contra o que Paulo Coelho faz.  Assim como aprecio o cinema hollywoodiano e a indústria do entretenimento em geral (ser intelectual o tempo todo acaba sendo muito chato), não vejo problema em ler Paulo Coelho como experiência de lazer.  E sobre isso posso falar com algum conhecimento de causa, pois não tenho vergonha alguma em confessar já ter lido Diário de um Mago, As ValquíriasO Alquimista.  Porém, seja lá o que for que ele faça (textos de auto-ajuda ou para a “distração” dos leitores), certamente não tem nada a ver com a noção de literatura que descrevi acima.  Coelho está novamente sob os holofotes da mídia, após a decisão de Flora Süssekind de barrá-lo da seção literária do festival cultural Europalia, que está para começar em Bruxelas.  A polêmica que se formou em torno do episódio coloca em evidência a tendência anti-intelectualista da sociedade brasileira – nesse aspecto, não somos muito diferentes dos norte-americanos.  A atitude de Süssekind foi tachada por algumas pessoas (na sua maioria, evidentemente, admiradores da “obra” de Paulo Coelho) de arrogante, intelectualóide e tacanha.  Mas ela foi coerente com o propósito de representar a verdadeira cultura literária do Brasil. Afinal, a realidade pura e simples é que Paulo Coelho não é e não poderia ser o maior autor da literatura brasileira.  Certamente, ele é o autor mais vendido, e isso é indiscutível.  Todavia – sinto despontar os espíritos populistas -, a voz do povo não é a voz de Deus.  Aliás, o fato de que tanta gente possa considerar Paulo Coelho o maior autor da literatura brasileira é um indício da tremenda decadência intelectual em que este país se encontra.  Querem densidade espiritual e emoção autêntica?  Leiam Guimarães Rosa.  Querem questionar a ordem do mundo e nosso apego ao real?  Leiam Murilo Rubião.  Querem experiência de vida e mapas para se guiar nos confusos labirintos do mundo?  Leiam Manuel Bandeira.  Mesmo do ponto de vista do que poderíamos chamar de “literatura espiritualista” ou esotérica, que já produziu grandes nomes como René Guénon, Julius Evola ou Fritjof Schuon, Paulo Coelho é leitura para crianças.  Sejamos sinceros: o que esperar do autor de frases como “quem deseja ver o arco-íris deve aprender a desfrutar a chuva”?  É necessário um alto grau de estupidez congênita para não enxergar a banalidade vazia dessa sentença.  Mas repito: não condeno quem lê Paulo Coelho e se diverte com esses aforismos infantis.  O que me incomoda são seus fãs radicais (melhor dizer “discípulos”, pois se trata de uma religião), que correm esbaforidos em defesa de seu mestre ao menor sinal de crítica a seus escritos.  Sempre vai haver quem prefira comer papinha, mas também aqueles que se entregam à difícil arte de se mastigar ouriços.  Bom, eu li Paulo Coelho, mas li também Rosa, Borges e Pessoa.  Aliás, a espiritualidade de Pessoa é tão mais profunda e densa que a de Coelho que só consigo pensar na imagem de uma Maserati ao lado de uma bicicleta Caloi.  E vocês, fervorosos defensores do “maior escritor brasileiro”, já leram intensamente algum desses outros autores?  Se o fizeram e continuam preferindo Coelho, então só me resta lhes dar as más notícias: precisam urgentemente de um transplante de cérebro.  Agora, se apreciam ler Coelho, mas reconhecem a superioridade (literária!) de, digamos, um Machado de Assis sobre o autor de Brida, então não vejo problema algum em ti.  Estamos de acordo.  Cada coisa em seu lugar.  O de Paulo Coelho, com todo seu enorme êxito de público, continua sendo um grande enigma. Talvez, no fim das contas, ele seja realmente um “mago”…

Breve Taxonomia dos Textos Acadêmicos

Sigamos o conselho borgiano: em lugar de multiplicar autores e realizar extensas biografias ou exercícios de exegese do gênio, por que não imaginar simplesmente que toda a literatura universal é resultado de um escritor único e anônimo e fazer a psicologia desse complexo homme de lettres?  Melhor ainda, pensemos numa versão atualizada dessa ideia e a apliquemos especificamente ao campo da textualidade acadêmica.  Basta imaginar os textos dos pesquisadores e teóricos como produtos de um único computador dotado de diferentes rotinas de mecanismos generativos capazes de produzir escritos (em série), a partir de determinados pressupostos e estruturas semânticas.  Assim teríamos uma tipologia dos variados textos, com seus maneirismos particulares e sua infindável repetição de chavões.  Eis, portanto, o primeiro esboço de uma tal possível taxonomia:

1.  O “filósofo de botequim” – o texto do filósofo de botequim se caracteriza por sua dupla pretensão de ser simultaneamente poesia e teoria (mais a primeira que a segunda), fracassando miseravelmente, porém, em ambos os quesitos.  Seu pecado não é pretender que o texto acadêmico tenha valor literário – o que seria bastante louvável -, mas trocar raciocínios por efeitos discursivos e boutades.  Não costuma citar muitos autores, mas aprecia usar frases de Nietzsche, Deleuze ou Derrida, especialmente as de caráter mais enigmático.  Não quer explicar nada, mas produzir hermetismos que pareçam sedutores – ao mesmo tempo veiculando a impressão de que leu mais que apenas um ou dois livros inteiros desses autores.  Para ser ainda mais chique, usa palavras e até cita bibliografias em alemão, não obstante ser incapaz de compreender qualquer vocábulo nesse idioma. Vejamos um exemplo: “o rizomático de Deleuze nos faz adentrar as veredas do múltiplo, produzindo encontros felizes e devires inesperados…a ‘diferância’ derridiana assinala o infinito da linguagem; como diria Heidegger, ‘die Sprache ist das Haus des Seins'”….

2. O “artista-teórico” (ou “teórico-artista”)

Em suas apresentações normalmente se limita a apresentar slides (e, nesse aspecto, é irmão do ‘amigo dos gadgets’) de obras e performances, em exaustivas descrições de casos e exemplos, ao passo que nos seus artigos faz questão de escrever de modo a não fazer sentido.  É admirável sua capacidade de construir raciocínios com aparência de encadeamento lógico, mas inteiramente desprovidos de consequências consistentes.  Não sabe bem se quer ser pesquisador ou um criador, mas o melhor é fazer as duas coisas, de modo a garantir que pelo menos uma dê certo.  É adepto da “moda” (a moda de ser um “outsider”) e fiel aos autores sancionados como “esteticamente corretos”.   Cita com frequência, também, os próprios artistas, sabidamente os piores juízes de seu próprio afazer.  No fundo, no fundo, acha essa coisa da academia (e do pensamento lógico) um negócio chato e quadrado, mas como ser artista não é também métier dos mais fáceis, acaba recorrendo ao mercado de trabalho universitário.

3. O “amigo dos gadgets”

Sim, existe este novo gadget aqui, este novo videogame aqui, esta nova tecnologia aqui.  A atualidade é reduzida a uma série de casos que não são nunca explicados ou referidos a uma totalidade, mas permanece como resultado fragmentário do admirável mundo novo da técnica.  Que mais fazer senão exaltar o extraordinário progresso material que experimentamos?  Não se pode pensar sobre os gadgets, apenas admirá-los.  Não há como negar que suas apresentações são as mais atraentes (e mais contagiantes em seu entusiasmo infantil pelos brinquedos tecnológicos), mas seus textos são comumente chatos e sem vida.  Não se preocupam com o conceito, mas sim com a produção de espanto. Estão sempre up-to-date com os mais recentes aparatos, e às vezes até com os autores em voga no campo (tipo Henry Jenkins), mas não lêem nada que tenha sido escrito antes da década de 1980.

4. O apocalíptico de plantão

Este sofre do mal inverso.  Considera tudo que tenha sido realizado nos últimos 50 anos um perigo para a cultura e o já depauperado humanismo.  É geralmente erudito, mas só consegue pensar em moldes pré-determinados.  Seus autores de cabeceira são, obviamente, os frankfurtianos, mas despidos de toda possível contradição ou elogio ocasional ao presente status quo.  Seus textos são geralmente pesados, com longos parágrafos blocados e a constante repetição do termo “crítica”.  Gostam de usar consecutivos como “destarte” ou “ergo”, e em seu estilo não admitem nada que seja da ordem do humor  (no máximo uma ou outra ironia ácida).

5. O moderninho de plantão

Este se recusa a ler qualquer coisa que soe como “crítica”.  Considera chique ser “antenado” e “afirmativo” quanto ao presente.  Vê os apocalípticos como resquícios deploráveis de um mundo que já deveria estar há muito tempo enterrado.  Recusa-se mesmo a ler qualquer pensador que tenha pendores críticos. Gosta de citar fontes heterodoxas, como letras de músicas ou seriados de televisão e procura abordar os objetos normalmente desprezados pelos apocalípticos.  Seu vocabulário inclui de bom grado informalismos, e faz citação após citação (apenas dos mais recentes autores canônicos) sem nenhum pudor.

Obs: obviamente, nenhum de nós escapa inteiramente à sujeição a algum tipo de maneirismo.  Tenho consciência daqueles que impregnam meus textos, e alguns até me agradam (outros ainda não consigo evitar).  Mas em certos casos, a fidelidade às fórmulas prontas é realmente desalentadora.  A retórica do magister dixit, a formação dos “grupelhos” de interesse e a lógica discipular estão entre os maiores males da academia de hoje.  Escapar desses moldes deve ser desafio constante para nós, mas com cuidado para que a própria busca da independência e ‘originalidade’ não se torne, também, uma espécie de maneirismo.  As vanguardas que o digam.