O Caso Paulo Coelho

Não tenho nada contra Paulo Coelho.  Ele parece ser uma pessoa até bastante simpática.  Certamente é um sujeito inteligente, e sua parceria com Raul Seixas representa um episódio significativo na história da música brasileira. Mais que isso, deve haver algum mérito no que faz, considerando o extraordinário êxito que obteve no cenário internacional.  Algo bastante difícil para um cidadão de país econômica e culturalmente marginal, mesmo no contexto do já saturado mercado da literatura de auto-ajuda.  Todavia, é nítido para qualquer pessoa acima do nível da completa imbecilidade que os escritos de Paulo Coelho não podem ser categorizados como “literatura” (ao menos não no sentido tradicional e ainda consagrado do termo).  Colocar Paulo Coelho ao lado de verdadeiro autores da grande literatura, como Guimarães Rosa, Machado de Assis ou Jorge Luis Borges, seria covardia.  A diferença é tão estratosférica que sequer permite o mecanismo da comparação.  E não me entendam mal: em princípio, também não tenho nada contra o que Paulo Coelho faz.  Assim como aprecio o cinema hollywoodiano e a indústria do entretenimento em geral (ser intelectual o tempo todo acaba sendo muito chato), não vejo problema em ler Paulo Coelho como experiência de lazer.  E sobre isso posso falar com algum conhecimento de causa, pois não tenho vergonha alguma em confessar já ter lido Diário de um Mago, As ValquíriasO Alquimista.  Porém, seja lá o que for que ele faça (textos de auto-ajuda ou para a “distração” dos leitores), certamente não tem nada a ver com a noção de literatura que descrevi acima.  Coelho está novamente sob os holofotes da mídia, após a decisão de Flora Süssekind de barrá-lo da seção literária do festival cultural Europalia, que está para começar em Bruxelas.  A polêmica que se formou em torno do episódio coloca em evidência a tendência anti-intelectualista da sociedade brasileira – nesse aspecto, não somos muito diferentes dos norte-americanos.  A atitude de Süssekind foi tachada por algumas pessoas (na sua maioria, evidentemente, admiradores da “obra” de Paulo Coelho) de arrogante, intelectualóide e tacanha.  Mas ela foi coerente com o propósito de representar a verdadeira cultura literária do Brasil. Afinal, a realidade pura e simples é que Paulo Coelho não é e não poderia ser o maior autor da literatura brasileira.  Certamente, ele é o autor mais vendido, e isso é indiscutível.  Todavia – sinto despontar os espíritos populistas -, a voz do povo não é a voz de Deus.  Aliás, o fato de que tanta gente possa considerar Paulo Coelho o maior autor da literatura brasileira é um indício da tremenda decadência intelectual em que este país se encontra.  Querem densidade espiritual e emoção autêntica?  Leiam Guimarães Rosa.  Querem questionar a ordem do mundo e nosso apego ao real?  Leiam Murilo Rubião.  Querem experiência de vida e mapas para se guiar nos confusos labirintos do mundo?  Leiam Manuel Bandeira.  Mesmo do ponto de vista do que poderíamos chamar de “literatura espiritualista” ou esotérica, que já produziu grandes nomes como René Guénon, Julius Evola ou Fritjof Schuon, Paulo Coelho é leitura para crianças.  Sejamos sinceros: o que esperar do autor de frases como “quem deseja ver o arco-íris deve aprender a desfrutar a chuva”?  É necessário um alto grau de estupidez congênita para não enxergar a banalidade vazia dessa sentença.  Mas repito: não condeno quem lê Paulo Coelho e se diverte com esses aforismos infantis.  O que me incomoda são seus fãs radicais (melhor dizer “discípulos”, pois se trata de uma religião), que correm esbaforidos em defesa de seu mestre ao menor sinal de crítica a seus escritos.  Sempre vai haver quem prefira comer papinha, mas também aqueles que se entregam à difícil arte de se mastigar ouriços.  Bom, eu li Paulo Coelho, mas li também Rosa, Borges e Pessoa.  Aliás, a espiritualidade de Pessoa é tão mais profunda e densa que a de Coelho que só consigo pensar na imagem de uma Maserati ao lado de uma bicicleta Caloi.  E vocês, fervorosos defensores do “maior escritor brasileiro”, já leram intensamente algum desses outros autores?  Se o fizeram e continuam preferindo Coelho, então só me resta lhes dar as más notícias: precisam urgentemente de um transplante de cérebro.  Agora, se apreciam ler Coelho, mas reconhecem a superioridade (literária!) de, digamos, um Machado de Assis sobre o autor de Brida, então não vejo problema algum em ti.  Estamos de acordo.  Cada coisa em seu lugar.  O de Paulo Coelho, com todo seu enorme êxito de público, continua sendo um grande enigma. Talvez, no fim das contas, ele seja realmente um “mago”…

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Breve Taxonomia dos Textos Acadêmicos

Sigamos o conselho borgiano: em lugar de multiplicar autores e realizar extensas biografias ou exercícios de exegese do gênio, por que não imaginar simplesmente que toda a literatura universal é resultado de um escritor único e anônimo e fazer a psicologia desse complexo homme de lettres?  Melhor ainda, pensemos numa versão atualizada dessa ideia e a apliquemos especificamente ao campo da textualidade acadêmica.  Basta imaginar os textos dos pesquisadores e teóricos como produtos de um único computador dotado de diferentes rotinas de mecanismos generativos capazes de produzir escritos (em série), a partir de determinados pressupostos e estruturas semânticas.  Assim teríamos uma tipologia dos variados textos, com seus maneirismos particulares e sua infindável repetição de chavões.  Eis, portanto, o primeiro esboço de uma tal possível taxonomia:

1.  O “filósofo de botequim” – o texto do filósofo de botequim se caracteriza por sua dupla pretensão de ser simultaneamente poesia e teoria (mais a primeira que a segunda), fracassando miseravelmente, porém, em ambos os quesitos.  Seu pecado não é pretender que o texto acadêmico tenha valor literário – o que seria bastante louvável -, mas trocar raciocínios por efeitos discursivos e boutades.  Não costuma citar muitos autores, mas aprecia usar frases de Nietzsche, Deleuze ou Derrida, especialmente as de caráter mais enigmático.  Não quer explicar nada, mas produzir hermetismos que pareçam sedutores – ao mesmo tempo veiculando a impressão de que leu mais que apenas um ou dois livros inteiros desses autores.  Para ser ainda mais chique, usa palavras e até cita bibliografias em alemão, não obstante ser incapaz de compreender qualquer vocábulo nesse idioma. Vejamos um exemplo: “o rizomático de Deleuze nos faz adentrar as veredas do múltiplo, produzindo encontros felizes e devires inesperados…a ‘diferância’ derridiana assinala o infinito da linguagem; como diria Heidegger, ‘die Sprache ist das Haus des Seins'”….

2. O “artista-teórico” (ou “teórico-artista”)

Em suas apresentações normalmente se limita a apresentar slides (e, nesse aspecto, é irmão do ‘amigo dos gadgets’) de obras e performances, em exaustivas descrições de casos e exemplos, ao passo que nos seus artigos faz questão de escrever de modo a não fazer sentido.  É admirável sua capacidade de construir raciocínios com aparência de encadeamento lógico, mas inteiramente desprovidos de consequências consistentes.  Não sabe bem se quer ser pesquisador ou um criador, mas o melhor é fazer as duas coisas, de modo a garantir que pelo menos uma dê certo.  É adepto da “moda” (a moda de ser um “outsider”) e fiel aos autores sancionados como “esteticamente corretos”.   Cita com frequência, também, os próprios artistas, sabidamente os piores juízes de seu próprio afazer.  No fundo, no fundo, acha essa coisa da academia (e do pensamento lógico) um negócio chato e quadrado, mas como ser artista não é também métier dos mais fáceis, acaba recorrendo ao mercado de trabalho universitário.

3. O “amigo dos gadgets”

Sim, existe este novo gadget aqui, este novo videogame aqui, esta nova tecnologia aqui.  A atualidade é reduzida a uma série de casos que não são nunca explicados ou referidos a uma totalidade, mas permanece como resultado fragmentário do admirável mundo novo da técnica.  Que mais fazer senão exaltar o extraordinário progresso material que experimentamos?  Não se pode pensar sobre os gadgets, apenas admirá-los.  Não há como negar que suas apresentações são as mais atraentes (e mais contagiantes em seu entusiasmo infantil pelos brinquedos tecnológicos), mas seus textos são comumente chatos e sem vida.  Não se preocupam com o conceito, mas sim com a produção de espanto. Estão sempre up-to-date com os mais recentes aparatos, e às vezes até com os autores em voga no campo (tipo Henry Jenkins), mas não lêem nada que tenha sido escrito antes da década de 1980.

4. O apocalíptico de plantão

Este sofre do mal inverso.  Considera tudo que tenha sido realizado nos últimos 50 anos um perigo para a cultura e o já depauperado humanismo.  É geralmente erudito, mas só consegue pensar em moldes pré-determinados.  Seus autores de cabeceira são, obviamente, os frankfurtianos, mas despidos de toda possível contradição ou elogio ocasional ao presente status quo.  Seus textos são geralmente pesados, com longos parágrafos blocados e a constante repetição do termo “crítica”.  Gostam de usar consecutivos como “destarte” ou “ergo”, e em seu estilo não admitem nada que seja da ordem do humor  (no máximo uma ou outra ironia ácida).

5. O moderninho de plantão

Este se recusa a ler qualquer coisa que soe como “crítica”.  Considera chique ser “antenado” e “afirmativo” quanto ao presente.  Vê os apocalípticos como resquícios deploráveis de um mundo que já deveria estar há muito tempo enterrado.  Recusa-se mesmo a ler qualquer pensador que tenha pendores críticos. Gosta de citar fontes heterodoxas, como letras de músicas ou seriados de televisão e procura abordar os objetos normalmente desprezados pelos apocalípticos.  Seu vocabulário inclui de bom grado informalismos, e faz citação após citação (apenas dos mais recentes autores canônicos) sem nenhum pudor.

Obs: obviamente, nenhum de nós escapa inteiramente à sujeição a algum tipo de maneirismo.  Tenho consciência daqueles que impregnam meus textos, e alguns até me agradam (outros ainda não consigo evitar).  Mas em certos casos, a fidelidade às fórmulas prontas é realmente desalentadora.  A retórica do magister dixit, a formação dos “grupelhos” de interesse e a lógica discipular estão entre os maiores males da academia de hoje.  Escapar desses moldes deve ser desafio constante para nós, mas com cuidado para que a própria busca da independência e ‘originalidade’ não se torne, também, uma espécie de maneirismo.  As vanguardas que o digam.

Detlev Schöttker na UFF

Detlev Schöttker é um renomado especialista na obra de Walter Benjamin. Domingo passado, em almoço com Adalberto Müller e Susana Kampf Lages, pude constatar também que, como todo grande intelectual, Schöttker é modesto e acessível.  Eu e Adalberto estamos traduzindo seu ensaio “Benjamins Bilderwelten” para o Seminário (mini-curso) que ele oferecerá na UFF entre 17 e 19 de agosto, no curso de Letras. O evento é aberto, e os interessados podem se inscrever pelos telefones no folder abaixo.  Acho que vale a pena também para os comunicólogos de plantão.  Não são muitas as oportunidades que temos por aqui de travar contato com um pesquisador desse calibre.

Curso PPGC UERJ – Introdução à Teoria da Mídia Alemã

Começa hoje o curso “Introdução à Teoria da Mídia Alemã”, no PPGC UERJ.  Parece que teremos mais alunos de fora (UFF, UFRJ) do que da própria UERJ.  Nenhuma novidade.  Quem poderia esperar muita popularidade com um curso sobre autores alemães e recheado de filosofia?  Mas precisamos ser fiéis a nossas obsessões alienígenas; não somos nós que as escolhemos, elas nos escolhem.  Comum e mediano querem dizer, no fundo, medíocre. A academia é isso aí: popular mesmo só o Ferris Bueller, que, contudo, de 1986 para cá já foi quase que totalmente esquecido – e  não é esse o inevitável destino de tudo e de todos na era da amnésia radical? Então vamos lá, começar da maneira mais heterodoxa possível, com os herméticos textos de Walter Benjamin sobre a linguagem (sim, nada do já surrado “A Obra de Arte na Época da sua Reprodutibilidade Técnica”).  O importante é marcar uma posição, construir percursos não hegemônicos, balançar o sistema, ainda que com apenas um leve empurrãozinho.  Determinados caminhos escondem riquezas que não são facilmente acessíveis e exigem certa ascese do espírito.  O único professor que realmente admirei em meu percurso na UCLA, Efrain Kristal, sabia muito bem disso.  Disse-me uma vez após um almoço em exótico restaurante peruano: “Erick, não ceda à tentação da facilidade; não entre nessa mistificação dos …” (as reticências se referem a determinada escola intelectual muito em voga nos EUA em meados da década de 1990.  Kristal era humanista clássico, daqueles que transitam facilmente por vários universos linguísticos e culturais, mas resistem a toda forma de modismo acadêmico).  Com Kristal, lembro-me de ter feito um curso sobre teoria da tradução, um comparativo Borges-Kafka e um dedicado exclusivamente a Ruben Darío e o modernismo latino-americano – uma experiência de aprendizado que valeu mais que todo o resto dos três anos de doutorado em Los Angeles.  Formei-me em jornalismo e fiz mestrado em Comunicação, mas decidi por dois doutorados na área de Literatura.  Às vezes perguntam-me o porquê desse desvio, ainda mais considerando o fato de que hoje trabalho, novamente, no campo da comunicação.  Ocorre que considero de uma estupidez colossal fatiar saberes como se fossem pedaços de bolo distribuídos em festa de casamento.  Aliás, a especialização excessiva é outro indicativo da mediocridade.  Mas voltemos ao que interessa.  O curso do PPGC começa com um breve histórico do pensamento alemão sobre a mídia (cuja importância tremenda hoje está algo esquecida, devido ao ridículo preconceito nutrido contra a Escola de Frankfurt por aqueles que não a conhecem); segue passando por Zielinski e Kittler, continua por Vilém Flusser, Wolfgang Ernst e Sybillle Krämer e termina com a internacionalização das novas teorias alemães no trabalho de pesquisadores de cibercultura como Galloway, Manovich e Bolter.  Todos os textos lidos em boas traduções em inglês, português ou espanhol, e a maioria em formato eletrônico (PDF), de modo a evitar o incômodo da xerox e trabalhar pragmaticamente dentro do registro teórico que nos interessa – o da digitalização de todos os suportes.  Primeira tentatiza de sistematização das experiências do pós-doutorado no Arquivo Flusser em Berlim, estou trazendo de lá centenas de textos inéditos do pensador checo-brasileiro, aos quais os alunos terão acesso na forma de documentos escaneados.  Até onde sei, será a primeira vez que muitos desses textos serão lidos no Brasil no âmbito de um PPGC – arqueologia da mídia!  Minha aposta é de que será um percurso apaixonante e enriquecedor, para mim como para aqueles que o trilharem comigo.  Como dizia o velho mestre Guimarães Rosa, numa frase que não me canso de repetir: “mestre não é apenas aquele que ensina, mas também que aprende”.